Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

#OOTD 16 – em MODO OVO KINDER

A pedido de várias leitoras, mas de uma em particular que está a viver uma fase semelhante à minha, ou seja, uma gravidez, este post é dedicado ao drama que é, às vezes, uma pessoa cobrir-se de têxteis durante esse período.

Amygas, não é fácil.

Já estive grávida uma vez, mas dá-me a ideia de ter sido sempre Verão, e aí sim, foi relativamente fácil, foi nível de principiante. Só que neste caso… Não. Não. Grávida no Inverno é muito difícil, mas nunca impossível!

Começo assim: depois de um Verão de 2016 (como de resto todos os Verões desde 1985), passado de vestidos e saias e calções combinados com T-shirts péssimas, sandálias ou Vans era, houve assim uma noite para os fins de Agosto em que arrefeceu o tempo, naquele género já punha um agasalho pelas costas.
Nesse momento, estando na Galiza, numa terra linda chamada Cedeira, onde eu e meu Marido costumamos ir, fui ao quarto de hotel para me enfiar nas únicas calças que tinha empacotado na mala, lá está, de linho, e numa sweatshirt.
Não me lembro de ter engordado assim tanto nas férias, pensei eu, muito menos me lembrava de ter consumido alimentos e refeições menos bons ou suficientemente calóricos para me estar a custar tanto enfiar o rabo no linho, sempre tão largo e cómodo. Também tinha muito sono, de maneiras que fui vestir as calças para daí a cinco minutos abandonar as celebrações e ser feliz a dormir.
Mas como se de um telefilme de mistério digno de um domingo à tarde se tratasse, estava tudo estranho: ao pequeno almoço comia o equivalente a meio javali e daí a meia hora já estava pronta para comer a outra metade. Deixava-me dormir em todo o lado, e duvido que o meu Marido me drogasse as bebidas, ou estivesse a envenenar-me com pequenas doses de cicuta.
Sono e fome?
Exacto.
Resolvi fazer um testezinho daqueles de farmácia, porque os sinais eram claros. O teste confirmou aquilo de que já suspeitava: um bebé.
Segiu-se uma felicidade extrema e abundante e doida e quase demente, porque sempre quisémos mais que um filhx, e aqui estava, a menos de dois anos de distância da irmã!
Tudo diferente: um rapaz, que nasce na Primavera, em vez de no Outono.

Que fique claro que há coisas relativas à gravidez que ninguém explica, que não surgem nos livros e que ninguém transmite por tradição oral. Há coisas que só sabemos quando lá chegamos, quase como se houvesse um conjunto composto por todas as pessoas do planeta que reserva as melhores surpresas para a entrada na experiência, qual ritual de iniciação.

Por exemplo, ninguém me disse, relatou ou revelou que há uma peça que se veste no momento em que o bebé começa a crescer na nossa barriga, que são os calções de celulite, modelo ciclista de cintura subida. Simples: do joelho ao rabo instala-se todo um calção que são tipo as cuecas em baixo relevo da Barbie. Pouco ou nada se pode fazer contra esse calção, a não ser vesti-lo com muito orgulho e fazer dele a peça mais it do momento que se estenderá pelos mais belos nove meses de qualquer vida, dos quais em bom rigor só contam sete ou oito, porque logo ali no primeiro momento nunca ninguém sabe, ‘né?…
Da minha primeira gravidez, enverguei o calção com muito orgulho, desfilei com ele na praia e na piscina, juntamente com um peito avantajado, com o qual sonhei dias e noites durante a adolescência, mas que nunca se concretizou e que acabei por esquecer em prole de um forte abraço às minhas pequenas maminhas em formato de ovo estrelado, como diz a minha sábia Tia. Na gravidez, outra das coisas que uma pessoa adquire é um busto, um decote, uma mama que, para quem não as tem habitualmente, todos os dias nos recorda que o melhor é investir num soutien que consiga segurá-las, sob pena se andarmos sempre a implorar-lhes que regressem para dentro do paninho (tudo isto acompanhado de movimentos muito deselegantes).
Dizia-vos que, na primeira gravidez, exibi com orgulho ardente o meu conjunto de calção de celulite até ao joelho mais o soutien que qualquer revista feminina desaprovaria, por ausência de sexyness, porque toda a gente sabe que sexy é rendas e tigresse. Mas pergunto-vos: há lá coisa mais sexy que estar grávida? De tal forma é isto que vos digo, que até me casei depois da gravidez e já temos mais um filho a caminho. Porém não foi difícil, também vos dizia, porque era Verão e os meus vestidos tenda-de-circo-barra-tenda-da-Xerazade foram óptimos para mim, para a minha silhueta e para a minha barriga. Apesar da minha Filha só ter nascido em Novembro, posso assegurar que esteve calor até cerca de uma ou duas semanas antes do seu nascimento (até porque as grávidas têm sempre calor), e que só vesti os collants de grávida uma única vez. Calças também, com o eterno botão desapertado e o elástico na casa. E camisolas e casacos. Foi, portanto, muito muito muito simples.

Desta vez estou grávida Outono e Inverno adentro, o que dificulta muito a minha percepção de gravidez graciosa ao nível da cobertura dos esqueletos. Tenho de assegurar que o pequeno e eu estamos quentes nestes dias de frio demoníaco, e a fórmula tenda-de-circo-barra-tenda-da-Xerazade tem muita graça, mas não se encontra disponível para venda em local nenhum. Depois também devo dizer que me perdoem todas as marcas, mas a roupa de grávida é um fastio, um horror e um tédio que me recuso a adoptar. Também fica aqui registado que as jeggings, leggings e calças em geral com o pano elástico por cima da barriga me dão pena e que as T-shirts justas com os franzidos lateriais para criar espaço para a barriga também não fazem parte das minhas preferências e que – já que estou a dizer, olhem, digo – quando aplicadas por cima das calças, são de cair para o lado. Outra coisa que me aflije sempre é onde é que ponho os cos das coisas: por cima da barriga ou por baixo da barriga? Geralmente começo por por por cima, mas depois é um aperto (já lá está o soutien de contenção) que acabo por desistir e por por baixo, só que por baixo olho e pareço sempre aqueles senhores que têm uma barriga muito grande (e estéril) e que têm o gancho e a carcela do fecho das calças a empinar ali em baixo, nom bamboleio têxtil digno de nota. Esses senhores têm a vantagem de não vestir os calções de celulite, logo de não preencher a totalidade do espaço disponível das calças no que vai do rabo ao joelho, pelo que ao menos as calças de lado e de costas sempre dançam ao longo da perna, em vez de rebinchar ao longo do rabo e da perna. Evito sempre usar calças de ganga porque é um desconforto do fim do mundo. O mesmo com calças elásticas: também evito ao máximo usar modelos de calças justos, porque além do desconforto, não me sinto lá muito incrível com elas vestidas, e se há coisa que me sinto grávida é incrível, por isso não venham, calças, kill my vibe.
Tenho, por acaso, um par de calças muito agradável à gravidez. Ponto. Um. Que lavo à noite e visto logo pela manhã, em dias de maior frio às pernas.

Passei então à fase em que só usaria vestidos, porque era possível e divertido e mais elegante. Tudo verdade, mas conheci então o primeiro problema: com os vestidos que uma pessoa já tem, até que se orienta nos primeiros tempos, mas depois com o frio começa o jogo das camadas, quais cebolas. O jogo das camadas consiste em aplicar uma camisola por baixo do vestido e uns collants, pelo menos, e causa enormes transtornos a quem gostaria de parecer qualquer coisa decente naquela fase híbrida em que ninguém pergunta se estás grávida ou mais gorda, apenas és observada com olhares cruéis e trocistas. Nunca se lhes ocorreu que podes sofrer da tiróide ou ser foodie? As camisolas nunca assentam bem porque nunca chegam ao fim da barriga, e os collants, a não ser aqueles de grávida mesmo, são um martírio porque apertam e caem e padecem do mesmo mal da costura se vai acima ou abaixo da barriga. Depois isto tudo debaixo de um vestido que uma pessoa vestiu para se sentir divina faz assim um efeito preenchido que deita por terra o vestido e o mais certo é saíres assim de casa porque tem de ser, e evitares confrontar-te com o teu reflexo ao longo do jour.
Depois há ainda outro aspecto a salientar, talvez o mais importante de todos, que é o seguinte: tudo isto é pessoal e reflecte a forma como eu me visto para estar grávida. Eu. Não está implícito nenhum julgamento alheio nem nada que se lhe pareça.

Para terminar em beleza aquilo que às vezes sinto, grávida, uma imagem: a cobra d’O Principezinho. Sempre que me vi de justa, grávida, dentro de roupa, a cobra d’O Principezinho.PK-petit-prince-snake
E tudo isto porquê? Porque, sejamos sinceras, tudo aquilo que se compra a achar que se está a ser muito inteligente durante a gravidez, não serve para nada e na maioria dos casos nunca mais volta a ser utilizado. Fica ali. E adquire um espaço no armário que é aquele espaço dedicado aos monos.

Da minha primeira gravidez, achei mesmo que os vestidos de grávida que tinha mandado vir da ASOS online eram óptimos, mas não eram. Os tecidos eram péssimos e quando os vestia sentia uma condescendência têxtil tal, tão pingona, que ficava triste e os despia logo. Não valeram a pena. Resolvi tudo com as camisas de linho do meu Pai (que da minha primeira gravidez o meu Pai já estava grávido estéril há uns dez anos), com calções e saias que oscilavam ora acima ora abaixo da barriga, e com os meus vestidos que já tinha há anos.

Resta dizer-vos assim: em Outubro fui à Casa Frazão, ali na Rua Augusta, comprar tecidos, que levei à minha costureira, e mandei fazer dois vestidos muito simples. O mote foi ter em conta que o mais confortável e moderadamente quente são as sweatshirts largas que costumo usar sempre, e que não vale a pena comprar nada, porque é só deitar dinheiro para o lixo. Os vestidos são a coisa mais simples da vida e têm espaço para me crescer o miúdo à vontade, têm as cavas bem cavadas para não haver mangas em luta pelo seu lugar fora do vestido (eu quero é paz) e como são ambos em lã, não tenho frio. Posso usar os vestidos mais formalmente com uma camisa, por exemplo, porque se tiver de abotoar apenas os três botões que se vêem e deixar o resto aberto enfiado para dentro dos collants, ninguém sabe nem vê. Ficam bem com botas ou com sapatos ou com ténis e sinto-me sempre a Divar. É provável que me vejam com isto a toda a hora, mas para quê complicar o que de repente se me tornou tão simples?

Jo Pregnancy blog post 7
Eu aqui, primeiro conjunto, lá está, um bom exemplo do look “cobra d’O Principezinho”. O pullover com a frase GOOD THING WILL HAPPEN lá bordada, é Levi’s, as calças muito velhas, são April 77 e os mocassins cor de rosa são Gucci.

Aqui no segundo look, uma das tais saias, em tweed de lã cuja cor predominante será o rosa? O malva? O cor de alho? Com uma camisa de seda que terá mais dez anos que eu, herdada da minha Mãe, uns collants encarnados de grávida achados com a boa vontade de uma assistente da secção de collants e meias do El Corte Inglès e os mesmos mocassins Gucci do look “cobra D’O Principezinho”.

Este último look é o meu favorito, considero seriamente mandar fazer mais um vestido destes, neste azul lindo e nesta lã magnífica, porque é mesmo a melhor coisa de que poderia ter-me lembrado. Combinada com uma sweatshirt muito velha da ASOS, uns collants Calzedonia de há uns Invernos, e as botas são as Ceinture da Balenciaga, um amor de botas que desde que recebi não consigo não calçar.

É óbvio que foi tudo fotografado pelo meu Marido, o brilhantíssimo Carlos Pinto, que me ama e me atura tão bem.

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