Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

#OOTD 9 – SE JÁ FOSSE VERÃO

Eu estaria vestida assim.
Mas como não é, estou com um casaco quentinho e umas pantufinhas enquanto vos dirijo estas palavras. Tenho um cafézinho com leite aqui ao lado, também, porque é de manhã e é assim mais encorpado que um chá.

A primeira vez que, na idade adulta, comecei a deparar-me com a problemática que é encontrar a saia ideal, foi porque uns anos antes, a minha Mãe e/ou a minha Tia, não sei bem, iam livrar-se de uns monos que tinham nos seus armários. Na altura estava mais que nunca na febre do vintage e do camp e do vestir irónico, digamos que estava no pico, mesmo, e opus-me seriamente a que alguma peça de roupa saísse sem eu a ver primeiro.
O desfecho da história é simples: fiquei com tudo.
Nessa limpeza que elas fizeram e no consequente aumento do meu espólio têxtil, vinha uma saia da Mikado (tudo o que há na internet sobre a Mikado são peças à venda no OLX), em piquet encarnado com cornetas bordadas numa barra antes da bainha, saia essa que me assentava que nem uma luva e que usei incessantemente uns três ou quatro verões seguidos, com T-shirts irónicas (na altura tinha muitas da D.A.R.E. e de bandas de hardcore e thrash metal) e ténis, que alternavam entre uns Vans era brancos e uns Nike SB pretos e dourados, ambos destruídos.
O que me fascinava naquela saia da Mikado eram precisamente o corte e o material de que era feita. O corte servia perfeitamente tudo aquilo que adoro: a cintura. Gosto de coisas na cintura. Não aguento coisas do universo do descaído, porque me faz lembrar a Britney ou a Xtina quando ainda era Christina, mas já pós “Genie in a Bottle”, e isso faz-me imensa confusão. Além de que a cintura é o triunfo da fisionomia feminina, e tem vindo, ao longo das últimas décadas, a perder importância e destaque no que vem sendo o street style, e eu acho que está mal.
O material dessa saia, esse piquet, era perfeito e suave, maleável, consistente e do melhor algodão que se terá produzido em Portugal e até mesmo no mundo, antes da era do orgânico.
Cronologicamente essa saia da Mikado é importantíssima.
Era irónico usá-la, claro, ainda por cima com as cornetas, mas era uma saia que tinha bolsos e tudo.
Era perfeita.
Só a Maria compreendia a importância de rockar Mikado em 2007 ou 2008.

Quando vi esta saia Boutique Moschino – disponível em preto, aqui – a saia encarnada da Mikado veio logo ao meu pensamento, e tentei muito arduamente conseguir recriar um look parecido e revivalista, pelo menos para a minha ideia pessoal de revivalismo altamente tendencioso.

Hoje continuo a usar este tipo de silhuetas, aliás, tudo o que visto hoje é o que visto desde há mil anos (imaginem que trinta são mil anos), e lamento muito que não haja mais saias incríveis à nossa disposição, porque nós, Senhoras, estamos com o universo das saias num período de incrível estagnação, e não deveria ser assim.
Aqui este top-camisa maravilhoso, com folhos, é da Philosophy di Lorenzo Serafini, e é perfeito. É doce e delicado, é over the top sem o ser, é uma peça contundente em si, e isso é delirante.
Os sapatos são incríveis-maravilhosos e têm uma história que um dia escrevi em modo ultra reduzido para uma entrevista para Vogue Portugal, história essa que depois afinal nunca chegou a conhecer a luz do dia, e que vos deixo aqui:
Estes são uns sapatos de bowling dos anos 40, em camurça e pele cor de toupeira com uma flor de três pétalas em cores primárias. Num dia de calor abafado, vivia eu em Barclona e era gerente de uma loja vintage na Riera Baixa, estava em pausa para siesta a almoçar com umas amigas e começa a cair uma carga de água típica da Catalunya, à qual se chama gota fría. Estando eu de sabrinas douradas, abertas à frente, cheias de pedras e enfeites pirosos, cheguei à loja para abrir da parte da tarde e estava ensopada. A Riera Baixa é uma rua mínima cheia de comércio vintage e lojas de vinil. Dávamo-nos todos bem e eu adorava o Júnior, o cubano dono da loja ao lado da minha, a Le Swing, que não sei se ainda existe. Na Le Swing havia sempre uma série de coisas muito flamboyant, possíveis porque o Júnior se dedicava a isto muito apaixonadamente. Era meio do mês e estava paupérrima, só que também tinha os pés encharcados e uma tarde de trabalho pela frente e uma gripe a caminho caso não me descalçasse. O Júnior viu-me chegar ao iníco da rua e mandou-me entrar na loja dele, porque tinha sempre chá e quando chovia assim era mesmo muito divertido ver tudo a tirar água das lojas! Ora, eu já conhecia muito bem o que ele tinha para vender, porque quando chegavam coisas novas ou quando ele ia comprar, chamava-me. E já tinha visto estes sapatos mil vezes. Eram de um dead stock ao qual ele tinha deitado a mão há uns anos. Eram das primeiras solas em plástico de sempre, com uma camada de uma espécie de esponja branca entre as duas camadas da intenção de borracha preta que fazia a sanduíche da sola. Eram flex. E são lindos. Mas eu disse ao Júnior que não tinha um chavo, e ele disse-me: então se te servirem, ofereço-tos. A forma destes últimos pares era narrow, coisa que também estreitava as hipóteses de sucesso de vendas. Cinderella time! Eu tenho o pé magrinho e comprido… E serviram. E ele ofereceu-mos. De todas as coisas vintage que tenho, estes sapatos foram os que mais usei. A sola entretanto já se gastou por completo, são autênticos patins, mas ainda os tenho, porque desejo que algum dia, um sapateiro consiga por-lhes umas solas actuais que lhes prolonguem a vida, porque são verdadeiramente lindos de morrer, e demasiado confortáveis para não serem só uma lenda. Só servem para estas coisas assim, de tirar fotografias.

Os óculos são igualmente vintage e igualmente especiais.
A.F. 
São uns Dior Monsieur em optyl, um material desenvolvido na década de sessenta por um senhor austríaco de nome Wilhelm Anger, mais conhecido por ser o homem que inventou os óculos da marca Carrera, os quais se inspiraram na famosa Carrera Panamericana. A Áustria e a Alemanha Oriental eram as duas grandes referências do mundo da óptica até a italiana Safilo ter comprado todas as marcas de óculos durante os anos noventa e de ter relocalizado a produção dos mesmos para Itália e depois para a China, já nos anos zero. No Universo dos óculos vintage, tudo o que é marca pré grupos Safilo ou Luxottica e made in U.S.A. ou Áustria ou West Germany, vale dinheiro, tudo o resto é só mass produced e não tem qualquer valor comercial. Estes óculos, para uma vintage nerd como eu, foram assim um achado que me provocou suores muito frios, porque sendo em optyl da década de setenta, são dos primórdios do optyl. Depois são uma edição limitada, ou seja, depois de investigar estes óculos, percebi que a placa dourada de metal aplicada com um efeito pesponto na armação, foi feita para apenas setenta pares de óculos. E depois comecei a hiperventilar e descobri que estavam a ser vendidos por €40,00! – LOL. Comprei imediatamente. Uso muito, mas com o devido respeito, porque são incríveis e não dá para os perder ou estragar.
Às vezes gostava de conhecer o Sir Elton John.

Pronto, está explicado o #ootd de hoje.Jo Blog Shoot II -19 Jo Blog Shoot II -20
Explico também uma coisa importante, que dá pano para mangas e sobre a qual tenho de vos escrever com muita calma e muito tempo, que é o Photoshop. Eu em bom rigor não gosto de Photoshop e não gosto da manipulação das imagens em Photoshop. Não gosto do efeito da pele, dos olhos, das texturas. Gosto de ver as imperfeições e acima de tudo acho muito importante que se olhe para o que são as campanhas publicitárias ou produções de moda carregadinhas de Photoshop, como trabalho pictórico artístico, e não como representações da realidade.
Por isso, e porque o meu Marido é fotógrafo e porque me mostra e ensina como é que se produzem esse tipo de imagens hiper manipuladas, sei hoje em dia do que é que falo e consigo observar manipulações extremas que obedecem a uma convenção e canonização de beleza que não me transmitem nada. São manipulações que ultrapassam muitíssimo os problemas que se insistem atribuir a toda uma geração obcecada com o aspecto. Para mim o uso excessivo de Photoshop funciona como ir a um museu e passar à frente as salas reservadas a um artista que não me interessa observar.
Por isso não há, nas minhas fotografias, esse recurso.
Porque cada milímetro de celulite, cada milímetro de flacidez, cada imperfeição, é tudo meu e foram precisos muitos brindes com o meu Marido, muita garfada doce conventual, muita página de livro lida, muitas linhas escritas, para os conquistar. Em suma, foi preciso muito lifestyle.

As fotografias maravilhosas são do meu Marido Genial @carlospintophoto | Cabelo e maquilhagem de mim para mim, não é?
Os óculos são Dior vintage, meus | O top é Philosophy di Lorenzo Serafini na MyGod Porto |
A saia é Boutique Moschino na MyGod Porto | Os sapatos são vintage, meus

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