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Os Segredos de Victoria

Há mais ou menos um mês disse-vos que tinha uma coisa sobre a Victoria’s Secret para escrever, só que o tempo não me tem parecido o correcto para tal coisa ou também me senti tolhida pela ideia de não ser pertinente porque já passou imenso tempo sobre o desfile, mas a recente publicação do calendário Pirelli para 2016 fez-me voltar à ideia que tinha de publicar um artigo sobre a Victoria’s Secret, e cá estamos.

O que é que a Victoria’s Secret faz por nós?
É uma pergunta que me tenho feito várias vezes, dentro da imunidade que até tenho à febre dos anjinhos e da própria lingerie da marca.

O desfile anual da Victoria’s Secret atrai a atenção de uma multidão calculável em números de mais de nove dígitos, multidão essa que espera pacientemente pelo Carnaval do Rio, mas em Nova Iorque e com espécimes femininos de coxa bem menos grossa e muito menos samba no pé. Já para não mencionar a falta de calor.
É o desfile de uma marca de lingerie bastante sofrível, onde muito do que se pode ver não é certamente a lingerie, porque essa está coberta por adereços exuberantes que remetem o espectador para um imaginário altamente sexualizado e sexualizante. O fetiche está na ordem do dia, mas à americana, isto é, muito moderado e brincalhão e cheio de vida e cor e divertimento e felicidade e terra dos sonhos.

1. O FETICHE O fetiche em Victoria’s Secret é o fetiche que deu cabo de todas as festas de máscaras, é o fetiche do quotidiano sexy; é o fetichezinho pobrezinho que pode ser muito facilmente reenacted em casa, com um orçamento curto e pouco tempo. Factores aniquiladores de sonhos. É o fetiche daquelas surpresas de blockbuster que se resolvem com máscaras de polyester. É o fetiche urbano mediano, o fetiche consentido. E isso não é bem fetiche, é só uma materialização daqueles artigos das revistas femininas que ensinam a surpreender o companheiro para apimentar a relação. É pela rama. O fetiche em Victoria’s Secret é aquilo a que normalmente chamo um secador, porque é isso mesmo, é o tornar pastilha elástica o imaginário da fantasia, tornando-o um imaginário colectivo, fazendo dele um imaginário normcore transversal, em que a bombeira sexy é o epíteto da imaginação e o limite do desejo. É o estabelecer de fronteiras, que no fundo no fundo vai um bocado de encontro ao tempo em que vivemos. Victoria’s Secret Fashion Show 2015Adriana Lima walks the runway at the 2013 Victoria's Secret Fashion Show in New York City on November 13th, 2013

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2. O ANJO Em Victoria’s Secret o gangue das modelos que representam a marca são anjos, coisa que me faz sempre alguma confusão, porque o anjo, figura religiosa por excelência, é na tradição judaico-cristã um ajudante de Deus que se faz representar com fisionomia humana, normalmente é uma criança com asas, um halo e sem sexo definido. Daí que me faça confusão a ideia do gangue das miúdas turbinadas em roupa interior serem “anjos”.  epa04512135 South African model Candice Swanepoel takes to the catwalk during the 2014 Victoria's Secret Fashion Show at the Earls Court Exhibition Centre in London, Britain, 02 December 2014. EPA/FACUNDO ARRIZABALAGA ATTENTION EDITORS: PUBLICATION EMBARGOED UNTIL 2200 GMT, 02 DECEMBER 2014
3. O CORPO Em Victoria’s Secret celebra-se o corpo feminino como instrumento de trabalho da profissão modelo, e essa é uma forma muito contundente de exemplificar que o corpo de uma modelo é, de facto, aquilo em que esta deve investir, mas também ajuda a clarificar onde é que cada Mulher se situa. E se por um lado o corpo em Victoria’s Secret nos leva mais uma vez à discussão bafienta sobre o corpo e a relação de frustração da Mulher com o seu próprio corpo, por outro também nos pode levar a abrir as portas no sentido oposto. E entendo que possa defender-se a VS contra tudo isto através da variedade de copas e tamanhos de soutien como justificação, mas isso não basta, porque o que importa discutir é o desfile e a situação da marca no contexto do posicionamento da mesma em relação ao corpo feminino. Ao não estarem presentes no desfile Mulheres copa D e tamanho de cueca 46, o desfile é exclusivo e isso faz dele pouco amigável para a Mulher e para a diversidade. izabel-isometric-training

4. A MULHER Em Victoria’s Secret a Mulher é amplamente objectualizada em toda a sua unidimensionalidade. É simples, plana, desprovida de qualquer tipo de características que ultrapassam as que obedecem à estética. A Mulher em Victoria’s Secret é uma espécie de escrava contemporânea que se sujeita e submete a todo um lifestyle angélico concebido pela marca, capaz de alimentar uma profissão cuja reunião anual exige esse tipo de preparação e o sarau que já conhecemos. A Mulher em Victoria’s Secret não procura diversidade, força ou conteúdo, embora a marca possa até defender-se alegando que produz números capazes de servir às mais roliças. Seja como for, o arquétipo de Victoria’s Secret exige o treino e o lifestyle, ponto final. Não é transversal, muito menos procura união ou consenso; ao vetar a tal diversidade na forma, Victoria’s Secret mostra paulatinamente à Mulher o seu lugar. Perverte a percepção feminina do eu e ajuda a sublinhar a frustração individual e aquelas tristes conversas bafientas da aceitação e da auto-estima, problemas contra os quais a Mulher luta ainda em 2015.

5.O FEMINISMO Numa altura em que a luta Feminista é trazida para a ordem do dia por um número de celebridades cada vez maior e mais pop, com o intuito de por finalmente a Mulher no lugar que lhe deveria estar reservado, esperava-se mais do desfile da Victoria’s Secret. Esperava-se que a Mulher continuasse a poder ser objectualizada, tudo bem, porque faz parte do ónus da cena,  mas que essa visão fosse cada vez mais chutada para canto. Eu pelo menos esperava, porque embora goste de Moda, não sou alheia à luta feminista e este género de desfiles tem apenas forma sem conteúdo. E isso é grave às portas de 2016. Porque temos os Futuro cada vez mais perto e viramos-lhe as costas. Entregamos-lhe de mão beijada aquele que poderia ser mais um dos palcos da nossa luta. Até porque, individualmente, há anjos que até devem dar uma no cravo e outra na paridade. Sendo a Moda um dos únicos sectores em que a Mulher ganha substancialmente mais que o Homem, porque não trazer isto para a luz do dia e fazê-lo desfilar também, coberto de penas e fantasia consentida?

A Mulher continua a ser unidimensional e isso está presente em muitas das coisas que consumimos todos os dias. Muitas das vezes essa mensagem é subliminar e só nos apercebemos dela quando já compactuámos com a ordem vigente. Parar para pensar nem sempre é fácil, mais que não seja porque a Sara Sampaio está lá a defender o nosso bom nome enquanto portuguesas. Mas as ditaduras invisíveis não estão só no desfile da Victoria’s Secret, vão muito mais além de um acontecimento anual. De tal forma que no ano de 2016, teremos um calendário dedicado apenas a Mulheres incríveis, vestidas, para nos lembrar disso, que a ditadura invisível consegue produzir um objecto (o Calendário Pirelli) capaz de fazer com que uma Mulher não possa ser uma equação com as variáveis inteligência, beleza e bom físico.
O único fetiche que Victoria’s Secret vende muito veementemente é a sua marca.
Se este artigo é contraditório?
Não.
Se este artigo é bafiento?
Não.

 

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1 Comentário sobre “Os Segredos de Victoria”

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