Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

Paris VS. Paris

Isto ontem, se tivesse sido eu a mandar, tinha começado assim:

Num palco pequeno à italiana, um telão pintado preso numa das primeiras bambinas deixando espaço apenas para uma franjinha de boca de cena depois de aberta a cortina de ferro. Entram duas actrizes, cada uma de seu lado.
PARIS ANTIGA (Muito bem vestida com um vestido preto de corte e inspiração Chanel anos 20, saia pregada de cintura baixa, corpo simples e decote em barco, calça sapatos de carácter pretos e traz ao pescoço um grande colar de pérolas. Fuma com boquilha comprida.) – Eu sou a Paris Antiga!
PARIS MODERNA (Veste calças de ganga desconjuntadas, curtas por cima do tornozelo um bocado largas e esfarripadas, sweatshirt largaueirona com print irónico em tom malva e branco, calça sandálias pesadas de borracha com meias de desporto brancas, grossas, de sola de borracha, e por cima traz um impermeável longo e esvoaçante, preto. Tem o cabelo desalinhado, uma gargantilha tipo tatuagem e os lábios pintados de castanho escuro.)  – E eu sou a Paris Moderna!

Do Centre Georges Pompidou ao Grand Palais é meia hora a pé, por um caminho super simples e fixe, quer uma pessoa lhe apeteça ir pela margem direita do Seine, quer a pessoa lhe apeteça ir pela Rue de Rivoli para ir vendo as montras.

Porém ontem, o caminho entre a o Grand Palais e o Pompidou ficou muito mais distante do que apenas meia hora, ficou a galáxias de distância. A Chanel ficou no Grand Palais, presa ao século passado, a Vêtements ficou no novo milénio, mais concretamente em 2017, em planíssima celebração do ano novo da Moda.
AH!
Que forma incrível de começar o calendário de 2017!

Não vai demorar muito tempo, talvez já esteja mesmo tudo cheio de reviews sobre o desfile de ontem da Chanel, em que Karl fez a sua promenade final, tão carregada de simbolismo e tão uma espécie de Baile de Crillion do Universo da Moda, da mão da Lily Rose Depp, e está tudo meio histérico ou meio já morri directamente porque ela é incrível, e eu sem perceber nada, ainda embasbacada com o desfile da Vêtements. De certeza que já está tudo a abarrotar de coisas sobre a inspiração 80’s da colecção Chanel, e eu… nada. E de certeza absoluta que vou ler mais mil vezes que qualquer coisa o allure da Chanel e vou pensar que OMD, mas alguém ainda usa allure, a sério?!?  Mas o mesmo irá suceder com as reviews ao desfile da Vêtements, quando ler “desconstruído”.

Desde ontem que é mesmo possível escolher entre Vetements ou Chanel, sem ter de separar a escolha com as margens direita ou esquerda. Desde ontem que, de um ponto de vista, ou se é uma coisa ou outra; é que ontem foi um dia que fica para a história da Moda.

O que mais me irrita e não, na Moda, é o seu carácter exclusivo, mas entendo simultaneamente que sem essa exclusividade a Moda enquanto manifestação artística não existiria. Gosto mais de arte conceptual que de Moda, por isso estou lixada. Se por um lado a Chanel reafirmou ontem que é um valor seguro e que continua a fazer o mesmo de sempre e a elevar as mil formas de trabalhar o tweed e as oitocentas técnicas diferentes que emprega na confecção de cada colecção, sendo um dos grandes bastiões da preservação do produto feito por mãos excelentes, a Chanel continua a fazer o mesmo de sempre, considerado uma obra de arte virtuosista, porque ontem, a Vêtements apresentou Arte no Pompidou. Com a agravante, para a Chanel, de ter mais uma vez contribuído para fomentar a desigualdade no seio da indústria ao escolher it girls dinásticas (a filha da Vanessa e do Johnny) e a limitar, consequentemente, o acesso aos seus desfiles por parte de jovens cuja profissão é serem modelos não favorecidas pela ideia realidade de acesso condicionado aos postos de trabalho, delimitada por um privilégio de classe [social]… a Chanel continua a celebrar a mestria e as musas e a emular o universo exclusivo da Moda, ao passo que a Vêtements se propôs olhar para o quotidiano, seccioná-lo, dissecá-lo em estereótipos e identificá-lo como parte integrante essencial de um sistema que o suga sem nunca o celebrar. Por isso é que a maioria das trends de há pelo menos três décadas para cá nos chegam da street e não são uma exportação da passerelle; porque a maior inspiração de quem cria é precisamente a fragilidade do tecido humano que povoa as sociedades.

Como venho do universo da arte conceptual e não do universo da estética, é óbvio que nesta luta sou Vêtements, mas não me interpretem mal, porque ainda sonho com a Chanel. Não seria hipócrita ou wannabe ao ponto de dizer que não. No entanto, para além de preferir conceito sobre imagem, adivinhava este dia. É legítimo dizer que sim, estava super farta que ainda ninguém tivesse ainda celebrado a diversidade de forma verdadeira. Porque sim, nos conceptuais há a Margiela e a dinastia anterior que deixou cair o Yves à Saint Laurent, mas no contexto da diversidade exclusiva da Moda per se, materializada nos arquétipos de modelo contemporâneo, por muito que possa parecer uma ruptura, não o é, porque tem obedecido sempre a um conjunto de regras que são medidas físicas, ao passo que a Vêtements não o fez. A Vêtements propôs-se a celebrar a diversidade no seu estado puro e a transportá-la para um espaço de Arte transformado em espaço performático, em que o eco das acções é tremendamente maior e mais amplificado. Essa amplificação rebenta os tímpanos dos olhos, que serão as meninas.
Li na GQ.com que se as roupas “banais” que a Vêtements apresentou se venderem a preços de couture será um escândalo, porque as pessoas que se vestem realmente como a proposta da Vêtements, não têm dinheiro para pagar esses preços. É óbvio que a GQ e a generalidade da imprensa nacional e internacional canônica não entende que o paradigma aqui é outro e que a ironia a que a Vêtements se propõe e propõe ao espectador é provavelmente tão refinada como a manifestação ou o supermercado da Chanel de outras colecções, mas que celebra outras classes e outras lutas, uma outra semiótica, e acima de tudo, outra ontologia. Celebra a verdadeira diversidade e é exactamente aquilo que escrevi a dada altura no post sobre a colaboração entre a Supreme e a Vuitton, só que em plenos poderes. É Arte numa passerelle, que por acaso é o centro nevrálgico daquilo que esteve representado no desfile da Vêtements: da mistura social e estética e ética que se respira em Paris em 2017. Porque a Paris das meninas finas e delicadas de tez branca esquálida e feições aristocráticas é long gone e a cúpula, o palácio de cristal e os castelos encantados das princesas já foram, porque até as princesas já são ravers e gostam de plataformas e de um outro lifestyle. A Chanel ainda ficou na parte em que as princesas andam de socooter, coisa que parece muito cool, mas que não deixa de ser mais uma snobeira principesca no contexto parisiense.
Melhor ainda é que a Vêtements esteja a fazer uma coisa que o Galliano fazia nos desfiles de couture da Dior, e que o próprio Alexander McQueen também fazia, que são figurinos, só que em bom. Figurinos, sim. Ao estereotipar estilos e géneros (coisa que de resto tem causado um certo burburinho porque não é politicamente correcto estereotipar, mas imaginem só que até nesse exercício a Vêtements fez tudo bem, porque estereotipou da única forma possível e não ofensiva, que foi transportando as realidades tangíveis individuais para o espaço performático), a Vêtements não só se propôs a isto que apresentou, à celebração do quotidiano, como confeccionou uma colecção de peças que parecem banais sem o serem por um único momento. Estão ali os detalhes Vêtements em todos os looks, introduzidos da forma mais subtil possível, sem danificar a verdadeira essência de cada estereotipo. Isto é a coisa mais Vicentina e teatral e perigosa de se fazer de sempre, na Moda, e correu tão mas tão mas tão bem! O styling da colecção não só é genial como é um manual de instruções para todos os que se questionam sobre o como usar estas peças, de cada vez que conhecem a luz do dia mais um conjunto de peças Vêtements. Obrigada ainda por não haver nesta colecção uma preocupação comum a todos os criadores de Moda e figurinistas – Chanel incluída – que é a coerência da escolha de padrões e materiais que se mantenham ou evoluam em segmentos e secções ao longo do desfile, para criar raccords e processos de coesão ficcional entre as várias coisas que encheram o olho dos criadores e figurinistas e os levaram até ali. A liberdade de tratamento do conceito é tão perfeita que de certeza que há gente ainda muito bêbada em três ou quatro cafés em Pigalle. São figurinos sem o serem, são as Banalidades de Base do Raoul Vaneigem, aqui num instante. Uau. Assim sim, a correr riscos!

A Vêtements fez isto tão bem que até o estereótipo da Chanel está lá, e tão bem, porque quem usa tailleurs de tweed àqueles preços não são as miúdas com ar de agarradas, são as senhoras orientais com grana para investir, mas que ainda estão nos stilettos em biqueira pontiaguda.

Pronto, 2017 não tem de ser, necessariamente, um ano péssimo e nojento. Pode ser um ano melhor. Já está a ser um ano melhor.

Obrigada Vêtements, Obrigada Demna, Lotta e Alain!

o primeiro look destes quatro que seleccionei, obrigada, porque é mesmo assim e é o look mais irritante e overrated e pai do normcore que se vê em Paris, o segundo é tal e qual e existe e é tão comum e tão forte, o terceiro é um sonho mestre e o quarto é perfeito nos detalhes.

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