Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

PEDI PAPER

Vi hoje no Bored Panda esta campanha puramente genial para a Terre Des Femmes, a organização de direitos Humanos suiça cujo enfoque recai sobre a igualdade de género.
E lembrei-me desta história, que é muito provavelmente a única que vivi e que esteve directamente relacionada (?) com o comprimento dos meus calções.
Depois dos meus Pais me terem dito que nunca mais eu me iria sentir constrangida por nenhuma afirmação (vestir é, essencialmente, afirmar), tomei as rédeas à coisa, e continuo a usar os mesmos calções.
Só me lembro de uma vez em que me terei sentido intimidada pelo comprimento de alguma coisa, e foi de uns calções, numa noite de Verão em Montemor, quando um Velho num Mercedes decidiu seguir-me rua acima, a mandar piropos.
Estava a descer as escadas do Monte Alentejano, com uns 14 ou 15 anos e uns calções que eram umas calças Levi’s do meu Pai convertidas em calções.
Era Verão e havia uma sessão de cinema ao ar livre no Espaço do Tempo.
Já tinha combinado com a minha Mãe que ia ver o filme e que depois ela me iria buscar para irmos para casa.
Na altura, embora tivesse, não ligava nada ao telemóvel, e as nossas combinações eram tipo beijinhos nos dedos cruzados e os relógios acertados com as mesmas horas, para não nos desencontrarmos.
Estava eu a descer as escadas do Monte Alentejano, que dão para a Rua Poço do Paço, quando, ao abrir verde no semáforo da Avenida Gago Coutinho, aquilo que acho que era um Velho, buzinou.
Eram nove da noite e a luz era aquela do fim do dia, antes mesmo do raio verde.
Eu como já estava cheia de pressa misturada com ânsias por ir ver o tal filme (que não me lembro qual era), não liguei.
Do Monte Alentejano ao Castelo fazia quase sempre o mesmo caminho: descia pela Rua Poço do Paço, no chafariz subia pela Rua 5 de Outubro, virava à direita pela Rua das Pedras Negras e depois subia pela Rua do Quebra Costas até ao Castelo.
Ao enfiar pela Rua do Poço do Paço, vi que o Velho no Mercedes também tinha virado, para a descer. Mas não me preocupei, porque a via é pública, e os carros podem virar e as pessoas podem fazer o mesmo caminho que eu, não é? O mundo não me pertence, e se hoje em dia sei disso, é porque desde antes do acontecimento que aqui relato, a coisa já me era ensinada assim.
Cheguei ao chafariz, para virar à esquerda e subir a Rua 5 de Outubro, e percebi que o Velho também virara na mesma direcção.
Vinha muito devagar no seu Mercedes cor champagne importado, de matrícula com um K, a olhar pela janela, aberta, reflexo do calor que se fazia sentir naquela noite de Julho em que nem uma aragem corria.
Mantive o meu passo firme e o meu destino, até que da janela, ia eu a subir pelo lado esquerdo da rua, o Velho decide debitar um impropério qualquer.
Parei.
Ele parou o carro.
E eu atravessei a rua por detrás do Mercedes, decorei-lhe a matrícula e continuei o meu caminho no sentido da sublimação pela Arte, protegida pelos carros estacionados do lado direito da rua, um bocado mais longe do raio do Velho e do seu carro que àquela velocidade bem podia ser um mata-velhos. Mas ele não desistia, e eu não estava a achar muita piada àquilo, que se estava claramente a dever aos meus calções, porque o olhar e as frases eram dirigidos às minhas “pernocas”.
Ora bem, mesmo sendo nove da noite e com aquele calor, não havia ninguém na rua, pelo que, em vez de virar para a Rua das Pedras Negras em direcção ao meu filme, meti-me pela esquerda, pela Rua de Aviz, mas no troço em que ele não poderia virar com o carro. A minha táctica para me safar àquilo tinham passado a ser sentidos contrários.
Ora eu sabia que ele iria virar na próxima à esquerda, pela Rua das Escadinhas, para me continuar a seguir, pelo que me meti, novamente a pé em sentido contrário a ele, pela por mim prevista Rua das Escadinhas, novamente em direcção à Rua 5 de Outubro, que só tinha um sentido, que era a subir, para depois voltar à Rua Poço do Paço, que também só tinha um sentido, que era a descer, para regressar à base.
Aquilo que tinha previsto como percurso do Velho inverso ao meu, mas no meu sentido, género Pacman, foi o que ele fez, sendo que, quando se cruzou comigo em direcção contrária na Rua das Escadinhas, não tinha como voltar para trás para continuar a perseguir-me. Era o jogo do gato e do rato, sendo que as minhas pernocas, nessa altura, já tremiam que nem varas verdes, a sublimação pela Arte era uma visão longínqua e em termos práticos muito pouco interessante.
Pelas minhas contas, ele iria apanhar o semáforo do fundo da Rua de Aviz, mais os da Avenida, até poder voltar a encontrar-me.
Eu tinha de me apressar e de atalhar o máximo de caminho possível, pelo que, a meio da Rua 5 de Outubro, cortei pela direita em direcção ao Mercado que fica mesmo em frente aos Bombeiros – caso precisasse mesmo de ajuda antes de chegar à asa da minha Mãe – contronava o Mercado por trás, enfiava pela rua dos Correios e voltava a subir, mas desta vez já só meia Rua do Poço do Paço.
E assim fiz.
A correr, com a minha corrida ainda hoje miserável, completamente desengonçada, em que pernas e braços se confundem e chocam uns com os outros, projectando apenas em parca segurança o tronquinho e a cabeça para a frente, em direcção à meta, raras vezes atingida sem sobressaltos de maior. As passadas largas, essas, faziam muito barulho, devido às solas de borracha pesadas dos Vans Era que me cobriam os pés, no meio do descontrolo que era aquela corrida.
O eco das passadas ouvia-se pelas paredes caiadas acima.
O chão libertava o calor que eu pisava cada vez com mais força, como que a atravessar o Inferno, que são mesmo os outros.
Atravessei a Rua do Poço do Paço em duas passadas e enfiei directamente pelas escadas do Monte Alentejano, que tinha descido minutos antes para ir, tranquilamente ver um filme.
Um carro travou estava eu a dobrar a entrada.
Investia na curva descendente e lenta, de faróis viris apontados ao muro do Monte Alentejano. O olhar cintilante lançado da janela trespassava o muro, como se de raios de nojo se tratasse.
Era o Velho no Mercedes cor champagne, de matrícula com K.
Os meus Pais, sentados na esplanada, adivinharam tudo por estes três segundos de acção que presencearam, combinados com a minha entrada esbaforida, degraus subidos de três em três.
Nesse dia fiz cinema.
Mas nunca regulei a altura do que quer que fosse pela javardice alheia.

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