Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

Pele de Galinha

A Moda é uma disciplina que precisa de ser pensada.
Se não for aqui, onde é que a podemos pensar? Sim, porque – e Livrai-nos da questão do género, Senhor – a maioria dos espaços (editoriais, entenda-se) que se debruçam sobre Moda, fazem-no de forma contemplativa e puramente estética. Isso tem implicações sérias na forma como a Moda é encarada enquanto disciplina, e sobretudo na reflexão de que precisa para que possa passar a ser vista de outra forma.
Enquanto pensava neste texto e na abordagem a este tema, escrevi como status de Facebook “Se eu fosse contra o uso de peles criava uma ONG chamada FURBIDDEN.” Um trocadilho. Porque há que levar as coisas com piada. Nem todos perceberam. O Humor, tal como a Moda, não é transversal.
No seu último desfile, Stella McCartney, famosa por se opor veementemente ao uso de peles e materiais de origem animal nas suas criações, exibiu nas mangas dos seus casacos de pele falsa, um detalhe que tem vindo a agitar positvamente as hostes do “cruelty free” – uma aplicação com uma espécie de acrónimo FREE FUR FREE.
Dos dois lados da barricada da escolha peles ou não, do cruelty free e da consequente escolha consciente ou Bio, entendo a diversidade de pontos de vista. Tento seguir uma política pessoal de consumo consciente (uma das minhas grandes preocupações), mas há imensos factores que me dividem e que me levam a ter esta questão completamente ancorada na minha lista de questões de conflito eterno e interno também.
Na Humana, cadeia de lojas bastante conhecida por vender artigos em segunda mão e contribuir para o fomento do consumo consciente e sensibilização para a reciclagem têxtil, e também para a criação de postos de trabalho, encontrei uma vez um casaco de peles por 5€, contra o intervalo dos 75€ a150€ que custavam os casacos de fazenda ou pêlo sintético. Foi nessa altura, e pela quantidade de comentários que um casaco de vison desperta, que percebi que usar peles seria mais uma batalha, num mar de contradições e fundamentalismos, de caras voltadas e de enormes insultos.
Porque é que a filosofia de roupa livre de crueldade para com os animais não se aplica a toda a roupa, então? Foi a minha primeira questão. Porque é que  os animais são mais importantes do que os trabalhadores das tão famosas sweatshops? Porque é que a mão de obra pior que barata sujeita a condições de trabalho infrahumanas para a produção de têxteis que não respeitam nada nem ninguém não é considerada cruelty full? Porque é que o uso de peles é mais condenável que o uso de uma T-shirt da Zara, que custa €9,90 na loja, em preço de estação, e que depois chega a preço de saldo por €1,00 e continua a dar lucro? Ninguém parará para pensar que, ao consumir uma dessas T-shirts se está a ofender a condição humana na mesma proporção que a condição animal? Não serão os humanos vítimas do capitalismo selvagem, tratados pior que animais nesta lógica de consumo de Moda?
Isto, sobre as peles.
Por outro lado, aparece-me o consumo de fast fashion e arrepio-me.
Pior que o uso de peles, quem usa e decide usar fast fashion não tem noção do impacto da sua pegada ecológica, muito menos humanitária. Para não falarmos da económica e social. A produção massificada de fast fashion implica o deslocamento da produção para países considerados de terceiro mundo e para países dominados por práticas de corrupção que permitem horários de trabalho exaustivos a troco de salários miseráveis. Preços imbatíveis, mas a Moda do momento a que preço? Em troca de quê?
Do tratamento de quem produz ao tratamento dos resíduos resultantes do fabrico de cada uma das peças de fast fashionque tantos sorrisos dão aos consumidores, todo o percurso é ofensivo.
Até que chegamos ao Bio. Aos materiais orgânicos, às colecções conscientes (como uma das linhas do gigante H&M) cuja intenção é massificar a produção a partir de materiais reciclados, a produção biológica e orgânica, para que, dentro da lógica do consumo imediato para satisfacção, também ela, imediata, se deixe de se consumir o que não respeita os trabalhadores e polui.
Conclusões à parte, este tema enorme leva-me sempre à encruzilhada do costume: qual é o limite do que podemos fazer, enquanto consumidores, para fazer frente a isto para lá do trinta e um de boca? E para lá das contradições?
Porque a Stella McCartney é cruelty free, mas vende peles vegetais a preços dignos de donativo milionário para a Peta. A Pamela Anderson é uma grande embaixadora da Peta, mas usa botas UGG, e que eu saiba não há botas UGG vegan… E até o maior fundamentalista vegan que conheço, confessou-me que há vinte anos que tinha os pés frios, até ter comprado um par de Doc Martens.

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