Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

Porque é que as Feministas Odeiam a Moda?

Deparo-me com esta questão muitíssimas vezes, de forma empírica, até que hoje, estava eu a fazer qualquer coisa muito pouco interessante, consegui materializar tudo aquilo que sou levada a pensar sempre que vejo o Feminismo confrontado com a Moda, numa só questão.
É um facto irrevogável, este que dá o mote a este texto.
Há uma fricção impossível de negar entre o Feminismo e a Moda, a qual pode até já ter feito algum sentido, mas que hoje em dia é absolutamente impossível de entender e impossível de valorizar. Quebradas que estão as barreiras entre tantas das lutas que nos dias que correm já não fazem assim tanto sentido, ou até mesmo das lutas que voltam a fazer sentido, costumo perguntar-me porque é que, por um lado, se associa o Feminismo a uma estética desmazelada e masculinizante, e por outro, porque é que o Feminismo olha para a Moda de soslaio. Também me pergunto porque é que o Feminismo é susceptível a estes comentários assentes em dogmas com mais mofo que o baú do sótão da Avó, mas este é um tema para outras Primaveras.
Nunca consegui perceber porque é que as Feministas detestam e desvalorizam tanto uma das indústrias mais Feministas do Mundo. Sim, feministas. E a última vez que ouvi isto foi da boca de uma Mulher com uma das profissões potencialmente menos respeitadas pelo Feminismo, Modelo. Aquando de uma prova de eliminação de um Next America’s Top Model, a ex-Top Model afro americana (aqui é preciso frisar esta parte) Tyra Banks, teve conhecimento do comportamento homofóbico e misógino de um concorrente do sexo masculino ao longo da semana retratada no programa. Quando interpelado e confrontado por Tyra relativamente ao seu comportamento, o concorrente respondeu sublinhando a sua homofobia e misoginia. Tyra replicou-lhe apenas que, caso o concorrente quisesse mesmo continuar no programa e encetar uma carreira no mundo da Moda, o melhor seria ser mais tolerante quer para com os seus colegas homossexuais, quer para com as suas colegas do sexo feminino, porque a Moda era uma indústria predominantemente feminina e dominada por Mulheres.
Veio-me à cabeça este espisódio quando, mais uma vez não sei porquê, pensei em como o Feminismo odeia a Moda e não consegue ver para lá do espelho da objectualização da Mulher, do body shaming e de uma escravidão que em 2015, já deveríamos ter entendido todos que é facultativa, que a Moda é uma área com uma diversidade de carreiras e hipóteses de realização profissional muito vasta, onde a Mulher se evidencia e destaca em todos os principais papéis.
É muito interessante sentir que o Feminismo não trata bem a única área onde não é preciso lutar por mais cargos na direcção (olhemos para Anna Wintour, Carine Roitfeld ou Anna Dello Russo, encarregues de dirigir revistas e secções de Moda, por exemplo), a única área onde a Mulher ganha sempre mais que o Homem, a única área onde a Mulher assume um papel maioritariamente preponderante em todo o tipo de ofícios, mestrias, ou zonas criativas, uma das únicas áreas onde a Mulher pôde constituir-se como autodidata e vingar sozinha. Em termos gerais e estatísticos, uma Modelo feminina ganha entre cinco a dez vezes mais que um Modelo masculino. Na Moda a Mulher é altamente estudada porque é a consumidora por excelência de um conjunto de produtos, quer sejam descartáveis ou items de luxo; na Moda, a Mulher é vista como o grande alvo a conquistar. Na Moda a Mulher é tida como a figura central por todas as outras Mulheres, e isso, a meu ver, é o exercício do feminismo… não?
O legado literário com o qual contamos hoje em dia, está repleto de Musas. Musa é uma palavra feminina e que se refere apenas e só a figuras femininas. As Musas que têm inspirado todo o tipo de criadores, continuam a ser, hoje, Mulheres. E talvez seja a Moda um dos últimos palcos a manter vivas as Musas. Mais que não seja, por isso, deveríamos respoeitar a Moda, verdade?
Para concluir, e porque a Moda é, sem dúvida, uma indústria Feminista e feminina, gostaria de dizer que se estima que a Moda empregue cerca de 75 milhões de pessoas em todo o mundo e gere anualmente cerca de 1.7 triliões de dólares.
Posto isto, como é que o Feminismo pode odiar a Moda, se a Moda é a indústria mais Feminista do Mundo?

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7 Discussions on
“Porque é que as Feministas Odeiam a Moda?”
  • A moda é realmente uma indústria lucrativa. Mas desses 75 milhões de postos de trabalho, quanto são ocupados por mulheres? Sem contar com sweatshops ?
    Directoras criativas, top management, percentagem de designers premiadas?

    E como podem 1.7 triliões de dólares reflectir alguma ideologia que não o consumismo?
    Não percebi bem a relação.

    • Maria,
      Isto inserido no contexto da Maria Capaz é capaz de vir a fazer-Lhe mais sentido.
      Ainda assim, basta ler tudo o que escrevo (é uma seca, digo desde já, e não sei se vale muito a pena, dado o espírito que lhe pressinto aqui por este comentário) para saber que sou completamente contra sweatshops e contra o consumismo (escrevo demasiado sobre consumo consciente para me querer julgar acerca disso) e contra essas coisas todas altamente condenáveis e passíveis de serem consideradas complexos de primeiro mundo.
      Seja como for a relação entre ambas que deseja encontrar, ou que deseja que lhe encontre, não é linear nem muito interessante para a plataforma para onde escrevi este texto.
      O cerne deste texto era tão simplesmente a exacerbação de uma indústria que é, em quase todos os aspectos, superiormente feminina a todas as outras.
      É claro que sou irónica e que tudo isto tem sempre muito de irónico à mistura e que a seriedade e fervor com que se quer, muitas vezes, tratar dos assuntos da Moda e do Feminismo, fica para trás.
      Só quis mostrar que há uma indústria que valoriza a Mulher acima do Homem, mas pelos vistos, isso também não satisfaz, porque afinal a Mulher não quer saber de ser superior, quer é igualdade…
      Seja como for, é na indústria da Moda que as Mulheres ocupam mais cargos de chefia. Senão veja em Portugal o exemplo de Eduarda Abbondanza (Moda Lisboa), Francisca Maltez (proprietária de uma das únicas lojas que vendem exclusivamente marcas e criadores nacionais) ou Lidija Kolovrat, que acaba de receber o Mediterranen Fashion Prize 2015, para nomear apenas algumas.
      Qualquer disciplina relacionada com produto, nos dias que correm, está directamente relacionada com consumismo, pelo que também não consegui perceber mais de metade da indignação…

  • Cara Joana,
    antes de mais, parabéns pelo Trashédia que consegue ser das coisas mais interessantes que li nos últimos tempos – vindas de Portugal – sobre a Indústria de Moda.
    Quanto ao tema deste texto não me parece que seja um “facto irrevogável”. O que me parece isso sim (e aqui faço valer também a minha experiência) é que o conceito do que é o Femininismo está ainda na obscuridade cerebral, digo, confusa nas mentes. Quanto ao conceito “Moda”, também não me parece pisar em terreno mais auspicioso que o femininismo. Infelizmente para os dois.
    “Na Moda a Mulher é tida como a figura central por todas as outras Mulheres, e isso, a meu ver, é o exercício do feminismo… não?” Não. O femininismo não quer centralizar, valorizar ou sobrepôr um sexo em deterimento do outro, isso seria voltar à estaca zero na conquista pela igualdade, pois para o Femininismo o único exercício é equilibrar, equalizar. O Femininismo crê que direitos e oportunidades devam ser igualados para ambos os sexos. Digamos que tem uma perspectiva (e uma expectativa) bi-lateral.
    Debato-me – e entristece-me – que o conceito de igualdade e, por conseguinte de femininismo, não seja plenamente compreendido e o seu texto escolhe o lado de uma barricada, numa batalha, que essa sim, representa o verdadeiro problema: é uma batalha assente em pressupostos errados. Ser-se feminina não anula o ser-se femininista ou vice-versa. Aliás, nem sequer faz parte da equação!
    É injusto, redutor e, acima de tudo, ignorante, como a Joana frisa e bem, ver a Moda (indústria incluída) apenas e somente à luz da objectualização feminina (e masculina). A Moda é tãooooo bem mais que isso!
    Da mesma forma quando aos olhos da Moda se reduz o Femininismo a um bando de doidas com ódios mesquinhos e com principal afirmação na luta contra o “so called” body shaming ou a escravidão da imagem, é desvirtuar a essência do próprio Femininismo.
    Não são conceitos em guerra, não se anulam, não se degladeiam, partilham isso sim a História da Humanidade como conceitos de génese tassativamente incompreendida.
    Posto tudo isto e fazendo um regresso ao início do que escrevi – e peço desculpa se foi longo – parabéns pelo blog!

    • Isabel,
      Em primeiro lugar muitíssimo obrigada por ler e gostar da TRASHÉDIA!
      Em segundo, gostava de deixar claro que sei perfeitamente quais são as fundações da luta feminista e o que é o feminismo, a sua história e aquilo que é hoje em dia, no entanto, este artigo foi escrito para uma plataforma feminista que costuma desprezar os meus artigos sobre Moda, daí que o tom seja provocatório e que tenha pretendido explorar esta ideia de superioridade numa dada indústria. A luta pela igualdade deve sobrepor-se a qualquer desnível, ainda assim, e porque acho que é muito importante lançar a discussão sobre este tema, arrisquei escrever um artigo polémico.
      Espero continuar a escrever coisas que lhe proporcionem leituras prazenteiras!
      Joana

    • Bem… Que resposta longa!
      Não tive nenhuma epifania, que isso das epifanias não é bem bem para mim.
      Tive foi vontade de escrever um texto sobre uma das coisas que mais me aborrecem: o eterno ódio a tudo. Porque de repente a minha secção de Moda da Maria Capaz (plataforma feminista para onde este texto foi escrito) é constantemente bombardeada por não se defender a figura feminina. OK. Eu defendo a figura feminina em cada coisa que faço, mais que não seja porque sou mulher, mas adiante. Este texto tinha como intuito questionar o porquê de se detestar tanto uma indústria que – expressões totalitárias/totalizantes à parte – tem a mulher como figura central. Ponto. E era só. Mas o feminismo não ficou satisfeito e eu já me expliquei de todas as formas possíveis. Quem lê as minhas coisas sabe a minha posição relativamente aos valores de igualdade, liberdade e fraternidade, em todas as áreas.
      Mas sim, em última instância, este texto era sobre como a mulher é o centro do universo (como diz o meu pai) e o resto é conversa. Era sobre uma coisa positiva para a mulher, em vez de mais uma notícia sobre violência doméstica, porque sou do positivismo.
      Um Beijinho!

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