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YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

PORQUE É QUE O COR DE ROSA É A COR MAIS IMPORTANTE DE 2016

O cor de rosa obtém-se através da mistura de branco no magenta ou no vermelho. Dependendo da quantidade de branco que se mistura, obtém-se cor de rosa de diferentes intensidades. Dependendo se a mistura é feita com magenta ou vermelho, também. Lesser-flamingos-congregating-in-Lake-Nakuru-National-Park-Kenya.-These-are-natural-phenomena-that-never-cease-to-amaze-Adam-Riley-www.rockjumperbirding.com_

Enquanto cor autónoma e não apenas sucedâneo desbotado do vermelho, o cor de rosa surge como cor “autónoma” por volta do séc. XVIII. Antes do séc. XVIII, o cor de rosa era a vítima orgulhosa do passar do tempo sobre os tecidos outrora tingidos com pigmentos vermelhos.
As técnicas de pigmentação dos tecidos eram, até à Revolução Industrial, naturais, o que fazia com que as técnicas de fixação da cor fossem pouco eficazes na longevidade da cor. Consta que as descobertas relacionadas com a pigmentação química começaram por ser acidentais e que dada a elevada procura por esses pigmentos químicos (mais baratos e resistentes às lavagens e passagem do tempo), houve quem visse uma boa oportunidade de fazer dinheiro e explorasse o filão. Diz que houve cientistas que enriqueceram à custa disto.

Foi então no séc. XVIII que, no auge do Rococó e no calor dos pastéis que fazem os corações mais indie palpitar mal se vê um frame do Marie Antoinette da Sofia Coppola, que o cor de rosa se assumiu finalmente como cor independente. Madame de Pompadour, amante de Louis XV, é uma das grandes it ladies do cor de rosa. Marie Antoinette sucedeu-lhe no gosto pelos pastéis e pelo cor de rosa.
Quase sempre associado a motivos florais e a um ideário campestre, é no séc. XVIII que o cor de rosa surge pela primeira vez como uma cor associada à nobreza. Até então, devido ao tal problema das fixações da cor nos tecidos, o cor de rosa era uma sub cor não muito bem cotada. Preferia-se o escarlate e o azul. Aliás, o cor de rosa do séc. XVIII surge em brocados, o que é muito interessante.
Mas avancemos.
No início do século passado, o cor de rosa começou a encaminhar-se para a cor com a carga simbólica que hoje lhe conhecemos.
Vários momentos específicos da nossa História apontam para esta solidificação.

Durante o séc. XIX era muito comum vestir os rapazes recém-nascidos de cor de rosa, pelo simples facto do cor de rosa ser uma versão mais suave do vermelho, cor geralmente associada ao poder e ao sucesso, à motivação e à força, persistência e por aí adiante no rol de coisas óptimas, daí que vestir rapazes de cor de rosa era mais do que natural.
O “sexo forte” vestido da cor forte. Simples.

À entrada do séc. XX os pigmentos químicos estabilizam-se e abrem um manancial de possibilidades à exploração de novas cores, entre elas o cor de rosa. Elsa Schiaparelli (muito referida nas duas últimas temporadas de/da Moda) viria a ser a grande pioneira do cor de rosa e quem mais explorou a cor. Musa-Diva do surrealismo, Schiaparelli é a grande responsável pelo cruzamento da corrente com o vestuário. Na década de trinta, Schiaparelli criou uma nova cor, que viria a povoar o universo dos objectos: o cor de rosa choque. Obtido através da mistura de pouquíssimo branco no magenta, o cor de rosa choque passou a ser uma das imagens de marca de Schiaparelli e uma das cores mais excitantes de sempre. Jean Cocteau, Francis Picabia ou Salvador Dali faziam parte da entourage usadora do cor de rosa choque de Schiaparelli e terão colaborado com ela e/ou vice-versa.elsa1

Fazendo assim uma espécie de ponto de situação, conseguimos concluir que o cor de rosa não tinha assim grande cena a seu favor: décadas de uma reputação limitada ao resultado do envelhecimento do vermelho, o cor de rosa assume-se como cor autónoma no séc. XVIII pela mão de um dos últimos bastiões da infame monarquia francesa, volta a entrar em vago declínio no séc. XIX até que chega ao séc. XX e renasce, qual fénix, novamente pela mão de uma Mulher, que o enche de poder e significação sensualizante/sexualizante. Schiaparelli, de entre tudo o que haveria de criar em torno do cor de rosa choque, chama Schoking ao seu perfume cujo frasco é um busto feminino, criado à imagem e semelhança de não menos que Mae West. Duas décadas mais tarde, em 1953, Marylin Monroe reforça a carga de poder e sensualidade no cor de rosa, mas parece que já vai tarde…

Mas retrocedamos um pouco à década de trinta: progressivamente, os mercados de pronto a vestir, em franca expansão, começam a encaminhar o cor de rosa para as meninas e o azul para os meninos. A pouco e pouco, através dos bebés, que até há um século vestiam predominantemente branco, uma mensagem subliminar; um código.

É com esta nova carga simbólica que o cor de rosa chega à Segunda Guerra Mundial.
Nos campos de concentração Nazi, para os identificar, está claro, aplica-se um triângulo cor de rosa choque nas fardas dos homossexuais. 

Em 1953, no jantar de tomada de posse do marido como Presidente dos EUA, Mamie Eisenhower, Mulher-símbolo de uns EUA que haveriam de vir prósperos e suaves, onde viver é incrível e as Mulheres podem voltar tranquilamente à sua vida pré Segunda Guerra Mundial, veste um vestido cor de rosa, e está mais ou menos fixado que o cor de rosa passa a ser a cor das meninas. tumblr_mdhgprZS9M1qjih96o1_1280

Em 1972, sob o pseudónimo Heinz Heger, Hans Neumann, ex prisioneiro homssexual do campo de Sachsenhausen, em Bradenburgo, na Alemanha, publicou as suas memórias Die Männer mit dem rosa Winkel acerca dos anos no campo, e é finalmente no final da década de 70, que o triângulo cor de rosa passa a ser adoptado como símbolo universal da luta pelo orgulho e direitos da comunidade LGBT.

Ainda durante a década de setenta e no início da década de oitenta, o cor de rosa solidifica-se como a cor da luta contra a SIDA e contra o Governo. O triângulo cor de rosa passará a ser também o símbolo dos ACT-UPS. SILENCE=DEATH.
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Voltando à reputação do cor de rosa e à tribalização social dos grupos através de uma cor, dúvidas: sabíamos que o cor de rosa choque foi inventado por Elsa Schiaparelli na década de trinta? Não. Mas sabíamos, claro, que aquele Azul Forte baptizado pelo artista que o “criou” se chama Klein, não sabíamos? Porque o Azul é “Forte” e para os meninos, e foi feito por um menino. Mas a entrar por aí, até a trend de criar cores é feminina e anterior.

Não é evidente que o cor de rosa é a cor mais importante de 2016?
É a cor mais libertadora e mais importante de 2016.
Por todos os identificados e oprimidos pelo código cromático. Pela destruição de todas as fronteiras. Pela queda dos preconceitos. O cor de rosa é mesmo essencial em 2016.

E se vestir-se é comunicar não-verbalmente, vestir cor de rosa é um acto político em 2016.

este artigo beneficiou da leitura prévia de uma pessoa que tenho em enormíssima conta, PEDRO FARO.
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