Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

PORTUGUESE APPAREL | TOTAL LOOK GANGA, porque pelos vistos, nós merecemos

Decorria o ano de 2010, eu e o André, na ressaca das campanhas soft porn da American Apparel made in downtown L.A. e dos sucessivos espectáculos de companhias de Teatro (outrora bordeaux) da europa central em que todos os figurinos eram American Apparel, inventámos um conceito que viria a ganhar vida anos depois, dentro da TROPA-FANDANGA. A “Portuguese Apparel”, uma loja de venda exclusiva de produtos tipicamente nacionais, com uma imagem tão soft porn como a made in downtown L.A. só que inteiramente made in Portugal. Como a música do Telmo Miranda. Como o programa do Carlos Ribeiro.
Durante anos apontei todas as ideias de produtos num caderninho.
De tempos em tempos eu e o André lembravamo-nos de mais qualquer coisa que eu apontava nas notas do telemóvel para depois ir apontar no caderninho, e ríamos até às lágrimas.
Esta nossa brincadeira ainda dura.

Uma das ideias centrais da “Portuguese Apparel”, a loja que viria a abrir portas dentro do Centre Commercial La Lys, na TROPA-FANDANGA – uma Revista do Teatro Praga, no Teatro Nacional D. Maria II, era o total look de ganga, um look de resto muitíssimo apreciado pelo protagonsta de grande parte da rábula, o macho nacional, e que consiste tão simplesmente na associação perigosa de uma calça jeans Lois ou Lee, geralmente muito coçada, mas muito limpa e impecavelmente engomada e vincada por uma exímia doméstica (sintomático da imagem projectada dos portugueses emigrados pelo mundo), com uma camisa de ganga que varia entre Lois, Lee ou Wrangler, também ela muito coçada e impecavelmente engomada, coberta por um blusão, também ele, de ganga, da Lee, Wrangler ou Levi’s. Este total look combina muito bem com um mocassin em pele castanha, português com um nome italianado, fabricado no Norte – claro – e com uma mariconera em pele, geralmente castanha. É um look muito visto ao fim de semana; é a interpretação do macho nacional do hoje mui badalado look casual ou look desportivo.

Quando começámos a TROPA-FANDANGA e percebemos o que é que viria a ser o quadro de rua, apanhei o meu caderninho e escrevi a primeira versão da cena do Centre Commercial La Lys. Que tinha vinte páginas. Era muita coisa.

Ontem o meu Marido fotografou um atleta olímpico português, campeão da Europa da sua modalidade e, como tantos outros atletas portugueses, não detentor de um patrocínio, de um apoio, de nada. Aquela miséria que já vimos denunciada tantas vezes nos meios de comunicação, e que, ao que parece, subsiste. As modalidades periféricas à modalidade por excelência, ou seja, as modalidades que não sejam futebol, estão votadas ao esquecimento, à falta de financiamento, à precariedade e ao chamado amor à camisola.
O atleta em questão, a preparar-se para se fazer ao caminho do Rio de Janeiro para as Olímpiadas de 2016, tinha vindo a Lisboa para a apresentação do traje oficial dos atletas que irão representar portugal no Rio 2016, e aproveitou-se a janela para as tais fotografias.

Fui então ver o traje oficial da Equipa Olímipica de Portugal.
Preferia não ter visto.
Preferia que o traje não tivesse sido confeccionado, que não tivesse sido apresentado e que não tivesse sido fotografado, porque é um desastre pior que a prestação da Selecção Nacional de Futebol no Euro.
Alguém teve a ideia peregrina de associar aos desígnios olímpicos do país a marca portuguesa de jeans, Salsa. Fixe a cena de ser uma marca portuguesa a vestir Portugal.
MAS.
Tantos MAS.
Ora bem, a Salsa faz coisas em ganga, nomeadamente calças push-up para rabos descaídos, calças push-up com aloe vera e anticelulíticos.
A Salsa é um fenómeno de vendas em Portugal e no estrangeiro pela qualidade dos seus materiais e pelas calças push-up. Mas… Pergunta: será a Salsa a melhor escolha para vestir a equipa olímpica portuguesa?
Não.
De todo.
A Salsa pode imensas coisas, mas não é a melhor escolha para esta ocasião.

Conta a página do Comité Olímpico de Portugal que “(…) as peças, exclusivamente criadas pelo departamento de estilismo da marca portuguesa, têm uma linha mais formal e outra mais informal, ambas com look denim, inspirada na tendência Patch, incorporando os emblemas oficiais e decorativos, tais como o coração de viana em filigrana, a bandeira de Portugal, excertos do hino português, e a cruz da ordem de cristo, conferindo um look mais atual e jovem.
A tradição de Portugal, as conquistas, o azul do mar e a sua energia, foram o ponto de partida para criar algo diferente e intimamente ligado ao ADN da Salsa, rompendo com os fardamentos clássicos usados habitualmente. (…)”
.
OK, eu percebo a cena de querer outra coisa que não o fardamento clássico, mas não estou totalmente segura de que esta tenha sido uma boa escolha.

Rompimento.
Rompimento
é, de facto, apropriado para este fardamento.
Rompimento era o mínimo que se poderia fazer a isto, era romper, sem dó nem piedade.
Era vestir vários daqueles bonecos de treino de cães e deixar que viesse uma matilha afiar os dentes e estraçalhar todas estas peças exclusivas na esperança de se apagar esta memória têxtil.
Parece-me que este foi um rompimento catastrófico com a convenção e que a própria da convenção não vos vai querer de volta. Não vai querer nem os atletas nem o comité Olímpico. Nada.
A Convenção disse adeus, é até capaz de mandar um Tchau, Queridos.

Estão desde já perdoados todos os atletas que, em stress pós traumático, não consigam bons resultados ou desempenhos semelhantes aos que os puseram nas Olimpíadas do Rio de 2016. Coloco-me no lugar deles e penso que se tivesse de me apresentar ao Mundo vestida desta forma porque o meu país assim desejou, tinha um esgotamento.
Pessoal, estamos a falar de uma Missão Portuguesa numas Olimpíadas onde ficaremos certamente melhor colocados que a Selecção Nacional de Futebol (a esta altura do campeonato faz muito bem gozar com a Selecção, que me perdoem os mais sensíveis) no Euro, e estamos a enviar os nossos representantes com um total look de ganga com lavangens, aplicações e cortes desportivos e modernos como traje oficial?
A mensagem é claríssima: Portugal é um pesadelo.

Portugal é a Britney e o Justin nos American Music Awards de 2001.
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O atleta que o meu Marido fotografou paga do seu bolso as despesas que tem com a sua modalidade e veste-se para ir onde tiver de ir.
Suponho que terá um fato, uma camisa e uma gravata mais uns sapatos para os actos mais oficiais e um look desportivo de chinos caqui e pólo ou camisa e blazer azul escuro, com outros sapatos e calças de ganga e T-shirts e casacos e ténis que usa para ir onde tiver de ir. Suponho que não se apresentará em pelota quando vai às competições ou a qualquer outro evento.

Suponho, no entanto, que tenha muita vontade de ir em pelota representar Portugal ao Rio de Janeiro. Porque suponho que esteja a pensar que mais valia ser da Selecção e estar a fazer figuras tristes em França e a rapar o cabelo com desenhos “artísticos” lá com o barbeiro mais famoso de toda a França, luso descendente, claro, do que ter de ir ao Brasil entrar no Maracanã com um total look de ganga da Salsa. É que tenho a certeza absoluta que este atleta adorava loucamente levar um dos “fardamentos clássicos usados habitualmente” por comissões anteriores ou até o fato Deilmar e os sapatos Cristiano Ronaldo que a Selecção Nacional leva onde quer que vá.

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Já para não falar no equipamentos Nike.
Tudo menos um total look de ganga com ténis de ganga a condizer.
Antes um sapato do Cristiano, a morder o calcanhar, do que um ténis de ganga.
Mas… Em que é que o pessoal estava a pensar quando achou que vestir uma equipa em total look ganga era uma boa ideia? Boné de ganga? A sério? Quando?

Marcado pela exultação da simbologia nacional, o desfile de apresentação destes looks realizou-se na passada sexta-feira, 17 de Junho, na Doca de Santo Amaro de Alcântara, com o Navio-Escola Sagres atracado no Tejo em pano de fundo.
Mais patriótico impossível.
Os atletas desfilaram para mostrar a colecção de criações exclusivas, e perante o que se vai usar, é de dar razão ao José António Saraiva no seu recente artigo de crítica de Moda: estamos perante o fim dos tempos, “(…)Há diversas provas de que a nossa civilização está a chegar ao fim. (…)” e esta é uma delas.
Parches.
Calças, calções e bermudas de ganga com lavagens intermináveis e multiplicidade de tons.
Parches.
Camisas, pólos, T-shirts e tops cavados e decote em V.
Parches.
Para as noites mais frescas, os blusões de ganga.
Parches.
Para as ocasiões mais formais, um blazer em azul escuro que não dá para entender se é mesmo ganga ou se é de sarja.
Parches.
Gravatas em verde e vermelho, de banda, com camisa aberta.
Parches.
Cintos em verde e vermelho.
Parches.
Ténis em ganga.
Parches.
E bonés presos na ilhós dianteira da calça.
E parches.

Looks desastrosos que em nada favorecem ninguém, muito menos os corpos dos atletas; que apresentam pouco ou quase nenhum respeito pelas figuras que prestam um serviço à nação. Opções estéticas que me fazem preferir que os atletas se apresentassem de fato de treino.

Bermudas.
A sério?

Da próxima vez que alguém ousar criticar os conjuntos da Dª. Dolores Aveiro, ou comentar que alguém se apresentou de camisola de cavas e decote em V em alguma ocasião oficial, não haverá crítica possível.
Quando se apresenta um traje oficial deste calibre, espera-se o desaprumo da nação. Espera-se o desastre, exalta-se a feira do relógio e celebram-se todas as tardes no shopping.

Para o Comité Olímpico, a proposta de uma marca de vestir Portugal como um casal suburbano que se veste a condizer, de visita ao shopping numa tarde quente de Domingo porque lá tem ar condicionado, não só é válida, como aplaudida e celebrada.

UH.
AH.
OUCH.

Fotografias do espectáculo TROPA-FANDANGA, Susana Pomba. Fotografias do desfile retiradas do site do Comité Olímpico Português.
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3 Discussions on
“PORTUGUESE APPAREL | TOTAL LOOK GANGA, porque pelos vistos, nós merecemos”
  • Compreendo que o patrocínio da Salsa justifique a opção, mas realmente usar ganga no Rio deve ser para cozinhar os atletas. Quanto ao resto é simples, já deviam ter feito um referendo para mudarmos as cores da bandeira nacional! Nenhum país europeu tem uma bandeira tão horrorosa, repito horrorosa, como a nossa! Parecemos vizinhos do Gana ou dos Camarões, sem qualquer desprimor para os referidos países!
    Celebrar Portugal a verde relva e vermelho vivo é tão deprimente que nem a esfera armilar se salva. Já apareceram uniformes com verde alface, os deste ano são verde água, já substituíram o vermelho por bordeaux ou cor-de-vinho, mas não há solução! Como se não bastasse, ainda pululam raias de amarelo girassol! Temos mesmo que angariar assinaturas para ultrapassar esta questão cromática no parlamento, por uma alteração meramente estética, mas de grande importância para as futuras gerações não viverem nesta humilhação de vermelho e verde (escarro na parede)! Já sabemos que vai gerar muita polémica! Lá vêm os monárquicos com o azul ornado a leões, os socialistas com o cor-de-rosinha, os janados com a folha de cânhamo, os minimalistas a branco, os burgueses com os dourados, os niilistas a cinza, os católicos de roxo, os pessimistas a preto, os comunistas sempre a dar-lhe com o vermelho e os democratas com a laranjada, os que clamam ser justos querem transparências e os anárquicos nem sequer querem bandeira nem símbolos. Vai ser a real confusão…mas temos que decidir! É quase tão importante como a Inglaterra estar (ou não) na União Europeia, como se, no fundo, a Inglaterra não tivesse basta autonomia para decidir seja o que for em qualquer uma das situações!

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