Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

pr’ó ano há mais.

Ao terceiro dia de desfiles, quarto no que é a contagem propriamente dita de edição SS16 da ModaLisboa, já em pleno desde quinta-feira, com as Fast Talks, dá-se por encerrada esta edição e espera-se pela próxima.
Mas não é assim tão simples, porque em bom rigor, aconteceu imensa coisa nestes últimos dias.

Assim de repente vou contar-vos a minha primeira vez na ModaLisboa.
Não sei porque é que comecei a receber convite, mas fiquei muito satisfeita por começar a receber convite.
Só que não sabia muito bem se havia de ir ou não, porque pronto, eu assim em eventos e coisas dessas, fico um bocadinho desenraízada e não sei muito bem o que fazer. Quando recebi convite pela primeira vez ainda estava na fase em que achava que era tipo, só bizarro eu ter recebido um convite para a ModaLisboa, um evento específico para mim que era, naquele contexto, não específica.
Ou amadora.
Mas quando fui pela primeira vez, diverti-me.
Diverti-me intimidada, porque não pertencendo à indústria propriamente dia (e atenção, que isto é uma reflexão importante), a minha função no evento seria… Decorativa?
Eu, uma convidada da família ModaLisboa, género uma parenta casada com um primo afastado que chega à família e que ainda não conhece muita gente e a quem lhe custa a ambientar.
Lembro-me de ficar muito intimidada com a presença da Antónia Rosa ou da Helena Vaz Pereira. Mas de ficar muito feliz por sentir confiança no sorriso da Gabriela Vasconcelos, da Mariama Barbosa ou do Tiago Veiga, por exemplo, mas também de não saber muito bem o que fazer ao lado da Eduarda Abbondanza ou do Luís Pereira, ou da Mauela Oliveira, ou da Rita Rolex ou da Xana Guerra ou da Susana Marques Pinto ou da Ana Campos.
A ModaLisboa, embora se tenha tornado um local para mim muito familiar, na altura não o era.
Recordo-me da primeira vez que fiz o backstage do Ricardo Preto. E recordo-me também de quando comecei a fazer o styling e o backstage do Ricardo e de como a ModaLisboa era, para mim, o Ricardo. Amo o Ricardo e ele continua a ser o meu preferido, mas porque está no meu coração e é do amor, e com o amor nunca se pode brincar.
Também me lembro vagamente da primeira vez que vi um desfile do Ricardo cá do lado de fora, sentadinha, e de como vibrei com a ideia de o reconhecer em roupa que não tinha visto antes.

Acho que posso dizer que tenho vindo a crescer e a explorar coisas diferentes a cada edição da ModaLisboa, desde que lá vou.
Só que assim ir para ver desfiles e passar tempo e ficar no bar e ir numa conversa e voltar noutra, nunca me tinha acontecido.
Também nunca tinha experimentado fazer o exercício da reflexão ou de filtrar aquilo que queria ver ou que estivesse por aí pela interweb para ver.
Já fui a uma ou duas festas de encerramento no Lux e fui terrivelmente feliz em catarse pura.
Só que quando se está numa missão para ver um desfile específico por falta de tempo por causa de trabalho (o meu motivo mais comum) ou família (uma nova realidade), a coisa muda e há sempre aquela necessidade de tentar perceber em que hashtag está aglomerada toda a ModaLisboa ou em que site estão fotos de lifestyle credíveis ou onde está a gente gira, ou onde estão os makers.
E se já me diverti imenso com alguns outfits e coisas assim, hoje, no encerramento desta edição em que fui uma timer e também uma repórter, sei algumas coisas que me permitem olhar para estes quatro últimos dias com uns olhos mais maduros.
Deve ser da maternidade.

Ainda ontem vos disse que achava lindo ver as pessoas que páram para contemplar quem vai e vem do Páteo da Galé. Mais do que quem vem e vai, o que levam vestido.
Objectivamente acho tudo isso lindo porque sinto que há uma enorme necessidade de ridicularizar o próximo ou de o olhar com olhos reprovadores, só porque há ali imensa comunicação não-verbal a acontecer e tanta afirmação é inevitavelmente vulnerável.
Dizia a Sara Desimoni, coordenadora do Mestrado de Design de Moda da Domus Academy em Milão, que os fazedores de Moda são por norma pessoas com uma sensibilidade por vezes demasiado sensível, completamente oposta à sua forma de estar ou vestir e que parte do treino oferecido pela Domus Academy passa pela sistematização de mecanismos de resposta e defesa relativamente ao mercado e à sua crueladade.
Ora, aquilo a que se chamam as “aves raras” que saem à rua por ocasiões da ModaLisboa, não são mais do que gente com sensibilidade para apreender aquilo que por lá se fará. Naturalmente são pessoas com um aspecto que reflecte os seus exercícios estéticos frequentes. E sentem-se bem.
São tão excêntricos os novos góticos como a Lili Caneças.
Só que o paradigma é diferente.

Tudo isto para vos dizer que aquilo que faço com e na ModaLisboa tem vindo a evoluir com o passar das edições que vou acompanhando, e que se ao início me sentia intimidada, hoje sinto-me em casa e já não fico à espera de saber se a amiga ou o amigo receberam convite para eu não ir sozinha.
Pego nas pernas, às vezes nem vejo o programa, e vou.
Mais que não seja, bebo uns copos.
Mas melhor, muito melhor, e hoje dei por mim a pensar nisso enquanto bebia uma daquelas coisas de pêssego, que são óptimas, é pensar em como ir à ModaLisboa sem combinações com ninguém é tão retro como ligar para casa num telefone de disco.
Ir sem varrer o Instagram a ver quem é que já lá está.
Só ir.
E depois perder-me, como hoje, à conversa com o Tiago, que se tornou um grande amigo.
Ou fazer como na sexta-feira, que estive com o Luiz L. Antunes desde que o encontrei à porta da Câmara Municipal de Lisboa.

Passei mais tempo no bar e de conversa que a ver desfiles, mas também comentei e vi desfiles, também vi pessoas famosas, menos famosas, mais loiras, menos loiras, mais betas, menos betas, mais fashion, menos fashion, que só estavam lá para ver, para ser vistas, para mostrar o outfit novo. Vi as que tinham os pés em chaga e as que estavam divinas. Vi umas a fazer o flamingo, que é quando os pés já estão em água e começam a alternar o peso em cada perna, para ver se aquilo descansa, vi as que vão da parte do Criador e as que não. As que são pirosas e as que não. As que querem é as revistas todas. As que não querem nada. As que são mesmo assim e as que não. As que adoram aparecer e as que querem desaparecer. As que finalmente têm uma ocasião para vestir aquilo que compraram uma vez, mas que nunca levam a lado nenhum, porque não há eventos que justifiquem. As dos esquadrões da it bag, as dos esquadrões dos it shoes, as que já estão no Inverno e as que não largam o Verão. As de ressaca mas com bom ar, as de ressaca que não tiram os óculos de sol. As que chegaram agora, as que já lá andam há que séculos. E as que foram vendo que tenho andado a tirar fotografias e que se vestiram para a ocasião, como o Nuno Vaz de Moura, que levou um cinto Rochas na esperança de me encontrar – uma private!

Conclusões?
– ModaLisboa é diversidade;
Glitter para o Inverno sim, o mais possível;
– A cortiça está super liberada; já não é piroso usar coisas em cortiça;
– Em Portugal o normcore é outro;
– As meninas queques conhecidas pelos seus cabelões fortes, cortam a direito pelo meio das costas, à japonesa e andam a dar-lhe nas transparências;
– As mais giras  e os mais giros são os mais crafty;
– As it bags e os it shoes continuam a ser O statement, mas sempre tudo em clássicos;
– Não haver nada para comer em lado nenhum nas redondezas dificulta a vivência da experiência duracional ModaLisboa;
– A maquilhagem em excesso é normativa;
– Moda é música electrónica;
– A chuva afugentou no sábado e domingo é o dia beto;
– A Carolina Capitão, a Isilda Moreira e a Sigrid Vieira são as miúdas mais giras da festa;
– Não se prevê a emigração da meia de vidro;
– As marcas portuguesas têm coisas giras, só que nunca sabemos onde é que dá para comprar;
– Social Media – wise, ainda é preciso crescer muito, Portugal;
– Vodka é coisa de jovens;
– Quem pede whiskey são adultos mais entrados em idades;
– Ter uma crew é demasiado fixe, mas deambular sozinho também é fantástico;
– Em Portugal a tendência é não haver tendência;
– O WonderRoom devia estar dentro do Páteo da Galé, mas dentro de um banco também é fixe porque há logo ali uma máquina multibanco e isso facilita as vendas;
– Faz-nos falta um Tommy Ton, e eu nem sequer gosto do Tommy Ton, só que a cena semiótica dele em relação às marcas é brilhante e são precisos discípulos no mundo;
– É preciso multiplicar o número de Franciscas Maltez;
– Alguém devia documentar o cuidado do João Bacelar em utilizar fitas passadas para segurar a sua acreditação;
– A Susana Traça tem umas sandálias lindas;
– A Daniela tem as melhores camisas;
– Graças a Deus cá não se pratica a ditadura do magro e o voluptuoso vê-se lindamente;
– Os bordados do @y.kenzo;

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