Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

Santa Paciência

Ontem, a meio da tarde, numa pausa do ensaio, fiz scroll down do feed do meu Instagram, vi que a Carine Roitfeld tinha posto uma foto alusiva à Páscoa, da Raquel Welch, linda, só que entretanto voltei a prestar atenção ao ensaio, pousei o telefone e quando regressei ao feed, a imagem tinha desaparecido.
Era controversa, sim, mas não era isso tudo, muito menos seria uma imagem para tanto alarido. Do soslaio que me deu para vê-la, era dos sessentas ou dos setentas. Vi, de facto, ainda enquanto estava online, um comentário qualquer género “vou deixar de te seguir” e outro tipo “isto não é de respeito”.
Morri um pouco.
Quando regressei ao Instagram, vi que a foto tinha desaparecido.
Procurei-a e aqui está: Raquel Welch, essa Mulher toda, fotografada nos anos setenta por Terry O’Neill, um homem que, de resto, fotografou quase todas as pessoas do mundo pop que interessaram ao mundo pop. Amy Winehouse incluída.

Raquel Welch, superestrela do cinema mundial, símbolo sexual que atravessou todas as décadas desde a de sessenta, até aqui chegarmos, num bikini rasgado em poses primitivas. Se calhar nunca nos perguntámos porquê, mas é super simples: estando em contrato com a 20th Century Fox, foi “emprestada”, qual jogadora da bola, a um estúdio inglês, onde fez um filme chamado “One Million Years B.C.”, em 1966. No filme em questão, que dá conta de uma era primitiva cheia de eyeliner, postiços, ripanços e laca, Raquel aparece vertiginosamente oleada num bikini de desperdício em tons terra. Diz três frases. Mas no que diz respeito à imagem de Welch que temos gravada na memória, sim, é a deste filme. É quase como se tudo o que viria a fazer se eclipsasse.
Terry O’Neill fotografou então Raquel nesse icónico bikini para a promoção do filme em questão, numa cruz. Em 1966. Porém achou que seria muito controverso revelar a imagem ao mundo, e ninguém soube da sua existência até aos anos noventa, quando chegou envolta em polémica à capa do Sunday Times.

É 2016.
Entre 1966 e 2016 passaram cinquenta anos.
E ainda assim, a internet morreu um pouco quando a Carine Roitfeld pôs ontem esta foto online. E isto é tristíssimo.
Se no ano passado a internet teve imensos problemas com a ideia do politicamente correcto, do que se pode e do que não se pode, este ano a coisa parece estar ainda pior.
Houve memes belíssmos como este.

joke

Acontece com quase todos os emissores com bases fora do mundo virtual, pelo que não poderia deixar de acontecer com Carine Roitfeld, que passou de indivíduo a instituição, quando abriu uma conta no Instagram.
Em vez do seu Instagram ser um espaço de partilha pública de notas visuais sobre gostos e inspirações e vontades e realidades, não é. É antes uma espécie de local de culto onde se procura uma visão unívoca, politicamente correcta e unilateral de consumir Moda, onde é essencial acautelar tudo aquilo que se publica, sob pena de se por em risco tudo o que se faz. É absurdo. Porque devia funcionar ao contrário. No processo criativo não se pode ignorar a origem das coisas, da mesma forma que não se pode ignorar a História nem tudo o que está antes do agora que também já ficou lá atrás. Ceder a isso seria apenas paternalista, e quer-me parecer que o público que reivindica permanentemente a sua condição de super inteligente/omnisciente, não quer nada disso. Mas ao que parece, afinal quer, porque prefere que não se levantem lebres.

Não concordo com o facto da Carine Roitfeld, que é A Carine Roitfeld, ter apagado a publicação. É paternalista. É igualmente deprimente. É uma resposta na mesma moeda aos seus seguidores medíocres. Não concordo porque naturalmente acho que a Carine Roitfeld tem essa responsabilidade. Só que o choque, a publicação, o backlash é um problema enorme no Sábado de Aleluia, mesmo qu’a gente sejamos todas muito modernas e não liguemos nenhuma à igreja Católica. Mas é o respeito, que é aquela coisa abstracta que tem os humoristas e os artistas na corda bamba. É o respeito Universal. É a prática dessa classe de Universal que conduz à normatividade e à expressão unificante, totalitária, dessa normatividade em todas as áreas. E a expressão do normativo é quando parece tudo igual, tudo nivelado pela mesma bitola aborrecida. É o normcore. É quando olhamos à volta e é tudo uma seca. É quando a possibilidade está reservada às Carines Roitfelds e às Annas Dello Russo e a essas três ou quatro monas decorativas da vida, que insistem em por ao lado da Iris Apfel, por questões de natureza cromática. Só que a Iris dá-lhes mil a zero.
Whatever.

Além de incrivelmente linda, a peça remete para tantas questões tão importantes nos nossos dias, pejados de polémicas sobre a sexualização da Mulher na Moda, sobre a escravidão do físico e da aparência, blah blah blah, que vou dar ao lugar do pensamento em que sei que é responsabilidade social partilhar estes pedaços de cultura popular, que são História, que são identidade, que são progresso, que são alguma da nossa sorte. Remete para coisas como a ausência de Photoshop, para um ideal de beleza real, para uma imagem composta conceptualmente, para a exultação da figura feminina, para a libertação da figura feminina, para a libertação sexual da Mulher ao longo do séc. XX… Eu sei lá!… É que são tantas coisas que me dá pena.
Voltando à História da fotografia da Raquel Welch crucificada, foi apenas nos anos noventa que conheceu a luz do dia. E nos anos noventa, quado conheceu a luz do dia, gerou também muita polémica. Foi mais ou menos na altura em que saíu o poster polémico daquele filme polémico “The People vs. Larry Flynt”. Parece que crucificar pessoas é polémico.

E se o objectivo é crucificar quem partilha crucificações por respeito à Igreja Católica, é importante não esquecer que tudo isto, estes três dias de amêndoas e ovos e feriados e procissões são sobre o perdão, a vida eterna e a esperança. Conceitos que, quando associados à Igreja Católica são um secador com vontade de excitar o patriarcado, mas quando postos em frases inspiradoras num quadrado de tom pastel para partilhar no Instagram, são o máximo.

YOLO

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