Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

Social Media Porn

Lembram-se de quando havia aqueles anúncios do ganhe dinheiro a partir de casa e as pessoas caíam na esparrela e depois vinha a descobrir-se que afinal esse dinheiro era feito a dobrar cartas e a lamber envelopes? Ou a vender cosméticos de catálogo porta a porta? Ou livros? E lembram-se certamente dos mitos urbanos sobre as pessoas que não fizeram mais do que responder a esses anúncios  e compraram carros e casas ou fizeram umas férias de estadão no Caribe?
Lembram-se disso? – Pois bem, se se lembram, está meio caminho andado para o artigo de hoje.
O que é o Social Media Porn, que dito assim parece só um tema muito estranho?
Então, é mais um daqueles mitos em que, sem se fazer muita coisa, de repente as pessoas ganham dinheiro e coisas.
Se antes se lambiam envelopes, hoje também começa por “l”, mas é tudo à base de likes.
Um like vale mais que mil palavras. Um like vale mais do que um contrato de trabalho, do que um cliente novo, do que vocês podem imaginar. No mundo encantado das redes sociais, um like pode fazer com que toda uma chuva de produtos comece a surgir nas vossas vidas.
Porquê? Por causa da quantidade de seguidores que se tem e do número de likes obtido por publicação.
Sou famosa na internet.
Ora bem, a lógica é simplicíssima e reza assim: o que é que se partilha nas redes sociais? A nossa vida, aquilo de que gostamos, momentos especiais em sítios especiais, uma refeição, uma gripe, o joelho esfolado do nosso filho, o suor depois de um treino. Para as pessoas que fizeram e pensaram as redes sociais de forma aparentemente naïf e depois as converteram em negócios trilionários dignos de cotação na bolsa, a ideia era mesmo só esta de partilhar coisas boas e filtrar todos os momentos da vida assim de forma super impulsiva, para os nossos amigos verem.
Só que acontece que como existimos inseridos numa sociedade de consumo, tudo o que fazemos está associado a produtos. Ou seja, tudo o que fazemos é comercialmente tangível e muito suculento para as marcas, porque a nossa relação “real” com uma marca é… Um Maná comercial.
Em todas as nossas fotos há produtos. Produtos esses que são de marcas. Marcas essas que também têm contas em redes sociais e que monitorizam o alcance dos seus produtos. E aquilo que era a nossa vida para partilhar com os nossos amigos, para os senhores das marcas passa a ser lifestyle. E o nosso lifestyle é extremamente atrativo, especialmente se taggarmos as marcas ou utilizarmos os hashtags que tão amigavelmente propõem.
Isso traz-nos muito inocentemente seguidores, mas também nos traz a visita dos senhores das marcas ou gerentes dos locais que identificamos. Essas pessoas adoram visitar as nossas páginas (visitar neste contexto é muito importante, porque gera tráfego e isso também gera dinheiro) e às vezes, consoante o nosso número de seguidores e proporção de likes, cai assim uma oferta. A nossa vida simples passa a ser a vida de um key opinion leader, ou seja, de um endorser, ou seja, passamos a ser assim uma espécie de embaixadores, o que à partida parece óptimo, porque recebemos coisas de borla, sem fazer nada.
– Mas… Alto lá! De borla?
– Sim, damos-te isto e tu só tens de por um post no Instagram.
– A sério? Obrigada! (manda whatsapp às amigas todas a contar que vai receber um bikini de borla! – UAAAAU)
Então e não funciona ao contrário?
(Na caixa do supermercado) – Olhe, não lhe vou pagar em dinheiro, fazemos assim: eu sou famosa no Instagram. Faço um post, taggo-a a si e ao supermercado e fica o avio pago! O que é que acha? Na volta ainda ganha uns followers e eu prometo que lhe faço um like! Boa?

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