Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

Sou uma Clássica | #trashediastoliyourlook

Comecei a escrever este #TRASHEDIASTOLIYOURLOOK pelo menos umas oitenta vezes em papel, duzentas em notas do iPhone e umas outras centenas num documento do Pages.
A primeira frase era poética e era alguma coisa género “Saí da casa-atelier-tese-de-doutoramento da Ana como quem sai de um primeiro date”, mas tive medo que fosse super pirosa e resolvi não a eliminar de todo, mas enquadrá-la num momento de declarada ironia. Depois também escrevi, como primeira frase, que esta edição tinha sido feita na casa-atelier-tese-de-doutoramento da Ana, porque não faria sentido fazer isto noutro sítio, uma vez que o momento presente da Ana – uma espécie de momento epíteto – enquanto artista plástica, está a acontecer ali. Até porque é sobre isso que ela está a trabalhar e o trabalho é, neste tempo, o centro das suas atenções.

Começámos por nos sentar e falar sobre as eleições e sobre como seria importante que a Clinton fosse Presidente dos EUA. A partir daí passámos para um debate construtivo e tão soalheiro como a sala de estar de paredes azuis, sobre um tema que de repente não tem mais vergonha de ser cor de rosa, o Feminismo. Decidimos que escrevia nas minhas notas em verso Feminismo com F maíusculo, porque estávamos à beira de um momento tão importante para as Mulheres. Para todas as Mulheres, em todos os contextos, em todo o mundo. A conversa sobre a Clinton foi uma forma simples de assumir que acreditamos sempre no melhor e nunca conseguimos prever o pior. Grande parte do trabalho da Ana passa por sublinhar ideias acerca da figura da Mulher Artista. Só que de alguma forma também decidimos que não haveria de escrever muito sobre a sua Arte que está a ser e que se tornará futura, porque pertence ao Futuro.apq-34_zpsrhtb5n0t

A primeira pergunta é sobre o seu Instagram megalopsíquico, que à data desta última edição conta com 17276 publicações. @anaperez_quiroga
São muitíssimas publicações.
E tendo em linha de conta que esta acção decorre em/na casa-atelier-tese-de-doutoramento da Ana, falar do seu Instagram também é uma forma de falar do seu universo e da pessoalidade do mesmo. Sim, é uma coisa do meu universo, mas do meu universo para o exterior, porque o objecto não sou eu, é criado por mim, ou seja, a partir de mim, a olhar para esse exterior. Não é possível ser mais pessoal do que isto, e não é possível entender melhor a relação que mantém com o seu trabalho. Ético, e depois estético. Entre estas 17276 publicações, aparecem muitas obras e pessoas, a quem a Ana pede autorização para fotografar e publicar – é a mais delicada e uma das mais maravilhosas.

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Olhando assim para a Ana sentada no seu sofá branco na sala azul, é impossível não perguntar sobre a sua relação com os estudos, quer dizer, com a academia, o porquê do Doutoramento.
E vamos parar lá onde tudo começou: Nunca parei de estudar. Assim resumidamente, tirei o curso de História na Universidade Livre e terminei-o na Clássica, depois fui para o curso médio de Arquitectura de Interiores e Design de Mobiliário na Fundação Ricardo Espírito Santo da Silva, que se tornou numa licenciatura que completei, e depois acrescentei a esse curso com uma pós-graduação em Recuperação do Património em Engenharia Civil, no Técnico; de ’94 a ’99 fiz o curso de Escultura, na FBAUL, o Mestrado foi em Évora com uma tese/livro sobre uma Mulher Escultora em particular, portuguesa, muito pouco conhecida, Ana de Conta Colaço, e decidi fazer o Doutoramento – que estou agora a rever – no Colégio das Artes, em Coimbra.
Nunca lhe cheguei a perguntar o porquê do curso de História…

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Mas a Ana ainda me levou mais atrás na sua narrativa.
O meu pai era radiologista, e dentro das caixas das chapas havia folhas de papel amarelo. Essas folhas variavam de tamanho e forma consoante a parte do corpo a que se referia a chapa: as da coluna eram rectângulos compridos, as da cabeça, quadrados – e o papel envolvia as chapas para as proteger, por isso eram folhas com duas vezes o tamanho das chapas, com uma dobra ao meio. Cada caixa tinha vinte chapas, logo tinha vinte folhas de papel, e eu fazia molhinhos desse papel, sempre às vinte unidades, atava com um fio muito bonito, uma coisa super chique, e ia vender para a Feira da Ladra. O que eu dava hoje para ter molhinhos desses papéis!… – Sempre foi fascinada por fazer dinheiro de forma criativa para poder ser autónoma e viajar.
No Verão dos seus 16 anos, como as vendas iam de vento em popa, fez o primeiro inter-rail com o irmão mais velho, e quando ele quis ir para os países nórdicos, a Ana seguiu para a Grécia por causa da literatura, porque eu sou uma clássica. Visitou as ilhas gregas que conseguiu, e nos anos seguintes continuou a estudar e a trabalhar para pagar as viagens que queria fazer. Até que chegou a altura de entrar para a Universidade e lá foi para o primeiro curso, o de História. Só que o tempo da Ana sempre foi mais longo que os outros tempos, e conciliava os estudos com um trabalho, que naquela altura ninguém tinha, porque quem estudava, não trabalhava. Foi gerente da primeira loja Benetton em Portugal, na Av. de Roma, trabalhou numa livraria em Alvalade e nos dias de Feira da Ladra vendia os tais molhos de papel amarelo.

OK, em 2016, a Ana é artista plástica. Porque já viveu a vida de uma lojista, de uma livreira, de uma vendedora ambulante de um produto inventado, de uma historiadora, de uma decoradora de interiores, de uma designer de móveis… Mas a dada altura, depois de se dedicar ao belo pelos olhos e pelos desejos e vontades dos seus clientes, através do outro, a Ana decidiu que entraria no curso de Escultura da FBAUL, para ser livre. Para criar livremente aquilo de que gostava, aquilo que a interessava e sobretudo para poder comunicar.
É lindo que diga que procurou a liberdade num percurso artístico, em Portugal, o qual supõe um grau de dificuldade enorme e uma vida económica muito mais penosa. No entanto a arte trouxe-lhe a liberdade que lhe oferece a felicidade.
Estudou com uma geração mais nova que aquela de onde vem, e isso nunca se constituiu como uma desvantagem, muito pelo contrário. Desenvolveu o seu percurso artístico ao lado dos jovens que integravam o seu ano e com quem hoje mantém estreitas relações de amizade. Vasco Araújo ou a dupla João Pedro Vale e Nuno Alexandre são bons exemplos de colegas que se tornaram amigos. Nas paredes da sua casa-atelier-tese-de-doutoramento, obras de todos eles.

É muito provável que seja por causa do papel amarelo das chapas de radiografias da Kodak e das viagens que a Ana escolhe como materiais preferidos para o seu trabalho o tecido e o papel, por esta ordem, porque o tecido, sobre o papel, tem a indiscutivel vantagem da resistência e durabilidade. O tecido pode dobrar-se e cabe dentro da mala, ao passo que o papel, quando se amarrota, está destruído; com o tecido eu posso passá-lo a ferro e voltar a utiliza-lo e a expo-lo, porque está sempre perfeito. Além de que o tecido ganha mais facilmente patine e não há nada que me fascine mais que a passagem do tempo pelos objectos.

Foi por causa de uma bolsa da Fundação Oriente que conheceu a China, cujo papel na sua vida (e obra, naturalmente), é indiscutível. A primeira visita foi em 2008, enquanto bolseira da Fundação Oriente, a segunda em 2013.apq-9_zps8ggmcfra
Tudo o que é a Ana e sobre a Ana está relacionado com pormenores e subtilezas, com detalhes tão finos e chiques e clássicos, que dá mesmo muita vontade de lhe perguntar tudo e de saber de onde é que tudo veio, e porquê. Nas suas camisas de seda confeccionadas à medida,  ao peito, no lado esquerdo, sempre um APQ bordado. Ao pescoço sempre um lenço de seda. As cortinas da sala azul são de um linho cru especialíssimo, trazido da Índia. De um closet no hall saem casacos de fazendas que já não há feitos à medida na Índia ou na China, por alfaiates amigos de altíssima reputação. É tudo feito à sua medida, tudo pensado à sua media, e materializado à sua escala. Tudo pensado à escala da sua identidade enquanto Mulher, do seu conforto físico e intelectual, da sua percepção do real. E tudo isto é um diálogo entre emissor e receptor. É um teste aos limites da performatividade, da ficção, e da construção do real. Daí a tal conversa acerca da patine e da passagem do tempo sobre os objectos, do envelhecimento dos objectos e da recusa do novo, do massificado, do imediato. Para a Ana tudo tem de ser belo e pouco fácil.

Na sua cronologia, na qual não existem hiatos ou tempos mortos, está neste momento a ser revista a sua tese de Doutoramento e a ser preparada uma exposição para a próxima Primavera, no novíssimo MAAT. A tese de Doutormento debruça-se sobre a sua casa como unidade porque o que investigo agora é como a casa e os objetos que contem se podem entender como uma instalação artística, onde performatizamos o quotidiano, e a exposição estará relacionada com a tese, e mais não pode dizer.
E eu também não quis saber mais. Porque só esta quantidade de saber já me deixou assim.
Online, em anaperezquirogahome.com, está todo o projecto.

Para que tudo fizesse sentido e que a revisão da tese dessa tarde corresse bem, o Fred veio à casa-atelier-tese-de-doutoramento da Ana fazer os cocktails Stolichnaya, desta feita com Stoli Citros. O espaço performático foi a cozinha, numa tarde que teve sol e chuva e um trovão e um arco-íris.

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