Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

S/T – técnica mista

Ora bem,
Caras e Caros,

Dada a falta de elementos poéticos na minha mais recente vida, vou só relatar o que me tem privado de partilhar convosco tantas coisas bonitas…

No último post – de 29 de Setembro – estava a mudar de casa.
Mudar de casa é sempre uma actividade linda de morrer, a não ser que eu seja a minha Tia e contrate pessoas para fazer copy paste de todos os elementos que povoam uma casa, por mais modesta que seja.
Como não sou a minha Tia, yá, esta merda dá um bocado mais que fazer.
Depois de desencaixotadas todas as minhas tralhas que nem são muitas, sequer (dado o horror que tenho a coisas), pu-las no sítio, mandei vir o meu Bricoboy para acabar de aplicar clinicamente os eventuais pormenores em falta de forma a não haver nenhuma espécie de ruído visual desnecessário e instalei-me.

Entretanto, abriram-se as hostilidades relativas ao Universo Casa Nova.
(Há coisa de uns sete dias que não me sai da cabeça o Money Pit do Richard Benjamin com o Tom Hanks e a Shelley Long.)

Comecemos pela instalação do gás: todo um erro.

Não há, sequer, hipótese de tolerar semelhante coisa…
Devo dizer que, desde há coisa de duas semanas, treino a modalidade DUCHE GELADO na vertente DURA FICARÁS.

Todo um espanto, acordar e tomar um DUCHE GELADO.
Além das milhentas coisas que me ocorrem enquanto estou na banheira, penso naquela canção da Chiquita e na sensação que se experimenta ao tomar um DUCHE GELADO:
ALVORAAAAAAAAAADA!
Tudo o que está implícito no acto de DUCHAR GELADO é interessantíssimo.
Passo a explicar: sabem aqueles testes de avaliação mental em que num écran se passam não sei quantas imagens por segundo?
Um DUCHE GELADO é mais ou menos isso, só que com as imagens a passar no interior da cabeça atordoada, própria dos primeiros segundos acordados do dia, a uma velocidade um pouco mais estonteante e com óptimos efeitos ao nível da objectivação e do pragmatismo vivencial.

O resultado é a relativização das coisas más que irão acontecer ao longo do dia que começou com um DUCHE GELADO.

Recomendo DUCHES GELADOS a todas as pessoas que andam por aí a arrastar-se com trombas infinitas.

Contudo, na terça-feira, influenciada por uma amigdalite a querer apanhar-me na curva, e após uma leve injecção de penicilina no grande glúteo direito, administrada no Hospital de São Francisco Xavier por dois Médicos lindos de morrer que a minha Querida Prima fez o favor de enviar em meu auxílio, tive saudades de um banho fémina bem quentinho, para dilatar os poros, exfoliar e segregar o triplo da gordura após a fustigação intensiva da derme.
Foi então que me lembrei, ao fim de vários dias de auto flagelação ao mais puro estilo Erzsébet Báthory, que esse tal banho fémina era possível, uma vez que possuo um exemplar dessa grande invenção moderna que é a chaleira eléctrica, e que podia aquecer água para me banhar de forma mais aburguesada.
E assim fiz: durante uma longa hora enchi a chaleira, deixei-a ferver a água e fui despejando litros de água a pelar na banheira. Ao fim deste procedimento, e com menos de um palmo de água morna para usar, estranhei o vapor e o calor na minha casa de banho nova; munida de um copo medidor e de desejos inexplicáveis inteiramente relacionados com uma banhoca tépida, relativizei tudo e percebi que o Mundo me tem andado a agradecer no que à prática intensiva de ecologia quotidiana diz respeito.

E pensei: BANHO QUENTE IS OVERRATED, BIATCH!


Estes dias (que mais parecem, cada um, traduzir séculos de existência) também quis tentar encontrar terapias de substituição para quem ficou privado de internet.
Uma metadonazinha qualquer…
Ficar sem televisão é na boa porque, quando era mais criança, não via televisão.
Não me deixavam, em geral, levar a cabo actividades desprovidas de objectivo, pelo que nunca criei esse hábito de observar aparelhos de televisão.
Agora… VIVER SEM INTERNET?!
É que…
Aos últimos dias nem sei o que chamar…
Viver sem internet nem sequer é viver…

Tem sido MUITO duro.
Duríssimo.
Tem sido um calvário de telefonemas atrás de telefonemas para os senhores da Vodafone, a fazer vários pedidos de urgência, muito controlados, sem grandes episódios que reportem exaltações e que os levem a desligar as chamadas deduzidas do meu saldo por ter pedido um operador não-automático operado por caracteres alfanuméricos ou asterico e cardinal.

O certo, porém, é que estou muito muito muito irritada com a falta de internet.
Sinto-me como a protagonista dos relatos de quem deixa de fumar, por exemplo: o meu autocolante de nicotina é o iPhone 4, que serve de Personal Hotspot para aceder à internet, mas… pá… quinhentos megas mensais no pacote não dão nem para reviver a emoção de ver um vídeo no Youtube: em meia hora a internet chupou os meus quinhentos megas e eu fiquei a ver navios (a casa nova tem vista de Rio).
Foi então que me apareceu essa treta do Zon Fon ou do Fon Zon ou a puta que o pariu às costas…
Anunciava a melhor cobertura de rede (de facto, o Zon Fon ou Fon Zon é pior que o spam do enlarge your penis e está em todo o lado (a omnipresença de Deus, neste caso, já era.)) e decidi comprar um desses passes de cinco dias a €12,50 para poder suprir as minhas necessidades mais básicas.
– WRONG!
A publicidade Fon Zon ou Zon Fon é do mais enganoso que há, e os cinco dias passam mais rápido que uma hora a comer latas de leite condensado em pleno auge de uma qualquer depressão.
Ao fim de um dia já tinham passado dois dias Fon Zon ou Zon Fon.
Nunca tinha pensado em unidades temporais como dados relativos, mas os senhores Fon Zon ou Zon Fon, tratam o tempo dessa linda forma.
Recebi então uma chamada de telemarketing dos jovens da empresa supracitada, a tentar impingir os seus serviços, e dada a excelente impressão que tinha deles – NOT – e a ressaca de internet com que estava, dediquei-me a insultá-los e a ser muito aleivosa.
Aliviei as minhas raivas na menina do telemarketing (menina, as minhas mais sinceras desculpas) e fui pôr dinheiro no telemóvel para aceder à internet a preço de impulso telefónico, back in the days.

Voltei a ligar para a Vodafone.
Nada feito.
E fui a um balcão.
Antes de me passar muito – muito, a Carina disse que me dava uma pen de acesso à internet com cinquenta megas.
– Carina, CINQUENTA MEGAS?! (‘TÁS-TE A PASSAR?!?!?! SABES O QUE É QUE É ESTAR HÁ DEZ DIAS SEM INTERNET?!?!?! CINQUENTA MEGAS NÃO DÁ PARA NADA!!!)
E comecei a espumar.
Muito.
Pedi o Livro de Reclamações.
A Carina mostrou-se relutante relativamente à entrega do mesmo.
Bolsei.
E estrebuchei um pouco mais.
Até que a Carina me deu uma pen com cinco gigas, totalmente grátis e me prometeu uma instalação célere.
(Way to go, Girl! Ao menos calaste-me e ofereceste-me novamente um pouco de paz.)
Vim para casa e vi vídeos e saquei discos e li coisas que precisava.

Estou certa de que, no século XXI, uma casa sem internet é o mesmo que uma casa sem água.
Ninguém devia poder estar privado de bens essenciais desta maneira.
Ninguém!

Na quarta-feira acordei para a vida carregadinha de felicidade no corpo, embora as minhas queridas amígdalas estivessem ainda a dar de si (a penicilina, embora administrada por pares de Médicos giros, só actua passadas vinte e quatro horas) e eu tivesse de levar a cabo mais uma sessão – a derradeira – de despejos de casa antiga.
Cheio que ficou o carro, fui almoçar (adoro aproveitar feriados para enfiar o carro nas zonas históricas que agora pertencem à EMEL), ainda com tudo visível no habitáculo da minha viatura, e dirigi-me a casa para esvaziar a mesma.
Escravizei de mansinho um Amigo (aliciei-o com um fim de tarde a beber cervejas numa esplanada, patrocinado por mim) para me ajudar a subir as escadas com os sacos.
Ele acedeu ao pedido e lá se subiram as escadas com os sacos.
Como me tinha sujado toda de Joshua Shoarma ao almoço, mudei de vestido, consequentemente mudei de ténis e reafirmei que as cervejas ficariam por minha conta.
(Sou a melhor pedinte de favores do Mundo Mundial: fico tão feliz por me ajudarem – e tão atrapalhada ao mesmo tempo – que pago o que for preciso…)

Enquanto calçava os meus Spring Court Leopardino, comprados em Paris, aquando da minha estadia enquanto bolseira do projecto PRÓSPERO, pensei em quanto já estes jovens andaram e em como estabelecemos um laço tão estreito dados os delicados momentos que vivemos juntos.
Vi-lhes a sola meio gasta, polida, mesmo, e pensei novamente na coça que já tinham levado.

O meu Amigo desceu as escadas porque achou que eu demorava seis anos a vestir-me.
Eu demorei cinco minutos e apanhei uma maçã para ir comendo (o uso do gerúndio denuncia o alentejanismo da minha pessoa) pelo caminho.
Tranquei a porta e comecei a descer as escadas.
Decidi ir em modo levezinho, o que significa não levar mala.
Tudo distribuído por bolsos de camisa, mãos e soutien.
Mas como ainda não tinha distribuído nada por lado nenhum, ia no último lance de escadas e o meu Spring Court direito falhou.
Escorreguei.
A mão direita agarrada à maçã e ao corrimão da escada, o iPhone 4, as chaves e a carteira na mão esquerda.
Tudo a voar!
A maçã a rebolar escada abaixo, sozinha.
Eu com o rabo a varrer degraus e o úmero esquerdo enterrado numa parte qualquer da anatomia que posso identificar como sendo ao lado do meu micro seio esquerdo.
O meu Amigo com a maçã aos pés.

Segue-se o seguinte diálogo:

– Ai, Ai, Ai…! Estás bem?
– Tenho o braço fora do sítio.
– Ai… E agora o que é que se faz?
– Vamos para o Hospital.
– Como?
– De táxi.
– Qual Hospital?
– São José.
– Consegues descer?
– Sim.

Ele apanhou a maçã, eu desci as escadas.
Estava relativamente calma, ainda que tivesse o braço em modo pendente no fio.
No fim das escadas, consegui recolocar o úmero e fiquei muito mais aliviada.


Foi a primeira vez, no meu vasto curriculum vitae de luxações do ombro, que o desloquei para a frente.
Normalmente sai para cima ou para trás.
Nunca para a frente, pelo que estive em pânico uns três ou quatro minutos, pois não sabia como o recolocar e só pensava que ia ficar com o braço morto e sem movimento para todo o sempre.
(Dá bué medo.)

No Hospital foi tudo muito rápido e eficiente, graças a uns conhecimentos do Universo do Supérfulo.
O Ortopedista que me viu sorriu e disse que eu era muito magra e que não tinha músculos.
(TODA A GENTE TEM MÚSCULOS, OK?! Podem é não estar desenvolvidos…)
Perguntaram como aconteceu, quem pôs o braço no sítio…
Expliquei.
Expressões de pânico e terror.
Semblantes atónitos.
Quando se diz seja a quem for que esta é a décima primeira vez que desloco o ombro, ninguém se preocupa muito, ‘né…?!

Gosto do Hospital de São José.
É cool.
(E dão umas injecções que são um mimo!…)

Percorridas as escassas farmácias de serviço aos feriados, lembrei-me de onde poderia encontrar material ortopédico.
No Saldanha.
E assim foi: já com o drunfo em pleníssimo efeito, comprei o suporte para o braço com banda torácica, apliquei-o, e fui beber as ditas cervejas.
(Entretanto, o meu Amigo já deve ter ganho o céu.)

E pois bem…
Estes têm sido os motivos pelos quais muito pouco ou quase nada tenho dito.
Além de tudo me dar dores, fico demasiado impaciente com a decisão chata que tenho de tomar relativamente à operação ao ombro, etc, etc, etc…

Não é que não me tenham estado a acontecer coisas boas e que não tenha pequenos tesouros para vos mostrar…
Mas…
Santo Senhor!

Deixo-vos com uma das minhas mais recentes capturas de PhotoBooth, acompanhada de um velho e mui nobre Amigo, no dia em que o Homem responsável pelos meus objectos preferidos feneceu.
Steve, You Rule!


(Ah, entretanto hoje descobri que tenho formigas em casa…)
(E toda a intervenção no balcão Vodafone junto da Carina incluía já o braço imobilizado.)

0

Deixar um comentário

O seu endereço de email não será publicado.