Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

SUPREME X LOUIE V.

No ano dois mil, a Supreme, com seis anos de vida, fazia uma coisa incrível e super fixe, pré-era da viralidade na internet, mas muito possível para a viralidade na internet, que foi a apropriação do padrão monogramado da Vuitton. Alterado, verdade seja dita, de forma subtil, sem correr riscos judiciais ao nível do roubo da propriedade. Foi apenas um exercício de apropriação cultural, típico dos movimentos artísticos da guerrilha urbana da street art. Tudo simples, tendo em conta que a Supreme começa na cabeça de uma pessoa que vem do UK para os USA.

A Supreme começou em 1994 pela mão de James Jebbia, um inglês que se mudou para Nova Iorque na década de oitenta e que sempre esteve associado ao comércio de retalho e à cultura do skate.
A Supreme é prima-irmã da Stüssy, mais nova, mas prima irmã. É mais conceptual, muito mais exclusiva, e tem uma política de chegada ao público super completamente anti mass market. Vai daí, não consigo entender a surpresa tamanha que tem levado tanta gente, por esse mundo fora, a dizer que por causa do passado dia 18, a Supreme morreu. Não. A Supreme não morreu. A Supreme kickou ass.

Enquanto marca, a Supreme nunca foi uma marca de streetwear, por muito que custe a engolir. Nunca foi acessível de nenhum ponto de vista, ou em qualquer dos seus sectores; é uma marca independente com uma política de exclusividade mais refinada que as próprias políticas da “verdadeira” indústria de luxo. Basta pensar que a primeira loja Supreme, na Lafayete St. em Nova Iorque, foi pensada de forma a que qualquer skater pudesse lá entrar de skate, sem esbarrar nos objectos expostos.
A Supreme, enquanto marca, oferece aos seus clientes uma experiência de exclusividade cuja fórmula é aparentemente simples e se defende desde o seu nassimento com colaborações com grandes vultos como Damien Hirst, Dash Snow ou Terry Richardson.
O logotipo básico é a chave da confusão: se por um lado a Supreme parece simples e barata, por outro é profundamente complexa e surgiu conceptualmente muito antes do seu próprio tempo. Melhor: veio suprir necessidades de consumo específicas dos anos dez do novo milénio, em 1994. É muito avançada.

Depois temos a Louis Vuitton, cuja história é muito muito muito conhecida, e cujas rivais serão a Hermès e a Goyard. Sendo que a Hermès apresenta uma linha de vestuário muito diferenciada da Louis Vuitton, e que a Goyard nem sequer está voltada para o comércio de trapos. Enquanto marca, a Louis Vuitton experimentou um enorme salto quantitativo durante os anos noventa, quando a cultura emergente do Hip-Hop, R’n’R e Rap norte americana se apropriava lentamente do património Vuitton esquecido algures nos sótãos das avós de alguém.

No ano dois mil, como já disse no início deste artigo, a Supreme apropriou-se, como de resto é muito comum no universo em que se insere, do padrão monogramado da Louis Vuitton e criou um número de peças muito limitado, o qual teve um eco enormíssimo por esse mundo fora. A Vuitton sorriu e a coisa deu-se encerrada por ali. Umas T-shirts e uns decks altamente coleccionáveis e valiosos.

A colaboração entre a Supreme e a Louis Vuitton é apenas e só, na lógica da cronologia da Supreme, um breve momento de revivalismo de marca, desta feita sem fugir à polícia.
As peças são feias, já li, e também já li que são muito caras. Oh. Que espanto. Meo Deos.
Zero espanto. As peças não são feias, as peças são conceptuais, são mais arte que roupa, são coleccionáveis, são objectos de design. São caras. Pois são. Porque se juntarmos à carestia básica da Supreme, a carestia dinástica da Louis Vuitton (e muito provavelmente o número limitado de peças que irão para produção e consequente venda), estamos perante um fenómeno ao qual poderiámos chamar “arte para revenda”, por assim dizer.

Tudo me leva a crer que a Supreme e a Vuitton estão atentas à emergência e estabelecimento do deliberadamente “feio” que vem a tornar-se cada vez mais exuberante através das direcções criativas de marcas como a Vêtements, por exemplo, e de personalidades como a stylist russa Lotta Volkova, o designer também russo Gosha Rubchinskiy, ou do georgiano que está a virar a Balenciaga do avesso, Demna Gvasalia (que também era Vêtements). Isto para me poupar a incluir todo um grupo de modelos, fotógrafos e make-up artists que procuram uma nova forma de dialogar com o luxo através das suas origens de não-luxo. É uma “nova” geração que ainda demorará a implementar-se, a tornar-se transversal e a chegar ao grande público, porque ainda não é evidente que não se caia de uma dinastia familiar na direcção criativa de uma marca própria apoiada pelo mesmo grupo, ou na direcção criativa da marca de família. Ainda não é claro que possa chegar-se a qualquer lado com uma dialética queer, bender, trans, fetichista ou inspirada em cosplay ou furry fandom. Ainda não é claro que o white trash fabricado na ásia seja uma influência válida, apesar de pertencer ao universo tangível com mais força e impacto que a fantasia do luxo canónico. E se o luxo for imutável e eu quiser habitar esse luxo sem abandonar as minhas origens?  É uma “nova” geração que não sucumbe ao belo canónico, que é amplamente conceptual e  que surge de uma ontologia do leste pós queda do muro de Berlim e reorganização do que foi a União Das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

O que é que concluo desta colaboração entre a Supreme e a Vuitton? Que a Vuitton revela, mais uma vez, um óptimo sentido de oportunidade, e que a Supreme chega pela primeira vez a uma passerelle com um conjunto de peças que eleva a ideia de colaboração com marcas mainstream que já mantinha previamente. Revela que a Supreme continua óptima de saúde e super irónica. Revela uma atenção magnífica a tudo o que é o universo parisiense e às suas ramificações. Revela que a Supreme está a apurar uma coisa que fez há dezassete anos. Revela um revivalismo super evoluído no contexto do luxo. Revela que o comércio de retalho é a única fonte de conhecimento válida no ramo da fashion.

É, no entanto, possível, que a internet destrua esta colecção ao espancar as imagens ad infinitum até que os objectos cheguem às lojas e se tornem obsoletos antes do período de venda, que é a colecção pre-fall. O maior faux-pas é que não possa comprar-se tudo já. Mas aí deixaria de ser a Supreme e deixaria de ter feito sentido o desfile.

Não sinto nada mau em relação a esta colaboração, sinto tudo de bem e tudo consequente.

E sinto que preciso disto na minha vida hoje mesmo. supreme-louis-vuitton-fw17-closer-look-1

e do fanny pack, já agora. MTQ0NDU5NzcwODg2MTA0OTg3

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