Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

Teremos Sempre Paris

Os meus feeds de redes sociais contam com contribuições muito variadas, sendo que das mais comuns são, inevitavelmente, pessoas relacionadas com o mundo da Moda.
Naturalmente, como se trata de redes sociais e de um modelo de negócio muito novo para alguns, conhecido para outros, a ideia de que o show must go on foi fortemente criticada nos comentários aos posts de Sábado e Domingo passados de algumas dessas pessoas da Moda que mantém negócios activos nas redes sociais.
Paris e o mundo ocidental estão de luto.

Os locais de peregrinação parisienses semelhantes aos que foram atacados estiveram encerrados no Sábado e ontem também e também parece que hoje ainda abriram portas a medo. Os que abriram.
Quem conhece Paris ou viveu ou visitou a capital francesa, sabe que nunca nada fecha e que as portas dos nossos desejos estão sempre abertas.

Mas Paris fechou.

Os nossos corações também fecharam e estamos muito tristes.

Tinha na calha um artigo sobre o desfile da Victoria’s Secret que decidi adiar.

Também tinha uma visita a Paris para a próxima semana que foi suspensa até nova marcação.

Diz-se que a maior forma de demonstrar resistência ao terrorismo é não baixando os braços; diz-se e defende-se por aí que o ideal é continuar com a nossa vida como se nada fosse, porque isso é que enfurece o terror e o chuta juntamento com o medo para canto.

Dadas as severas críticas a quem combateu o terrorismo continuando com a sua vida – neste caso as pessoas da Moda – não posso acreditar em tanto trinta e um de boca.
Aquando do 11 de Setembro, nos eventos que se seguiram aos terríveis atentados, Angelina Jolie destacou-se numa gala (não me lembro qual) por usar um vestido cinzento em sinal de contracção perante a nova ordem mundial imposta pela política belicista do recém chegado à cadeira do poder George W. Bush, e pela sua declaração de guerra ao terrorismo.

Aquela que viria a ser embaixadora da Boa Vontade do Alto Comissariado da ONU, foi a primeira a emitir um comunicado através desse vestido cinzento, na primeira gala que se realizou imediatamente após os ataques.

A roupa como reflexo das contracções e expansões do que acontece no Mundo que nos rodeia?

Sim!

Ora então por que é que a Moda ou qualquer outra manifestação não deveria continuar?
Fez-me muita confusão quando li comentários ou senti esta repreensão tão católica, mascarada de respeito pelas vítimas e pelas suas famílias.

Paris é a cidade da Moda. Da Luz.
Paris é a cidade onde todas as frivolidades têxteis podem ser satisfeitas!
Paris é a cidade que mais e melhor celebra a comunicação não-verbal que é o acto de se vestir.
Não.
Paris não pode morrer nem ser aniquiliada, muito menos pode amainar ou parar.
Pelo que os fãs de Paris não podem deixar os seus negócios ou convicções estacionados até que os filtros bleu-blanc-rouge caiam em desuso e pareçam só tremendamente out.

A Moda olha para o terrorismo e sente-o.

Senão, vejam:

  1. O que tem aconteceu às paletas de cores, que gradualmente têm vindo a abraçar os tons do deserto e dos camuflados militares (vem-me assim de repente à cabeça muito do que faz a Balmain e do que o Kanye também anda a fazer, mas também me vem à cabeça a Hermès ou a Givenchy e o Rick Owens, entre tantos, como ainda por exemplo a Balenciaga) para as peças de sempre, em detrimento do uso do preto, tão conotado com uma identidade de Moda e não de revolução silenciosa; até porque as paletas de verdes e tons terra remete directamente para a ideia de uniforme, para a ideia de preparação bélica, mas também para a ideia de exército urbano, de pequenos gangues;
  2. As Modelos, que já não são as figuras etéreas, banhadas na lividez da perfeição gélida de cabelos loiros e longos; cada vez mais se escolhem modelos pelas suas piores características (das sobrancelhas espampanantes de Cara Delevigne, por exemplo), por serem miúdas tangíveis e capazes de ter emergido do cenário mais improvável para um fairy tale cujos contornos não são todos em cor de rosa ou flores (basta olhar para Kasia Jujeczka);
  3. O crescente número de posts de Modelos a praticar desporto e a consequência directa dessa prática nos físicos cada vez mais atléticos, nos corpos cada vez mais musculados e secos (pensem na fresh face alemã Anna Ewers), preparados para o combate;
  4. A recente revalorização da cintura, que à partida pode parecer só uma forma de evidenciar a silhueta feminina, mas que da forma como tem sido utilizada (em Michael Kors ou Philip Lim ou Creatures of The Wind, por exemplo), é claramente a afirmação de uma zona forte, de poder, de concentração da força no centro e do desvio da atenção das belezas do busto, que surgem tapadas para empoderar o que vem sendo o core;  ter também em conta que os novos recortes por onde se vê pele se concentram no zona da barriga (sob a forma de crop tops ou de recortes em cruzamentos (DKNY ou Alexander Wang);
  5. A crescente redução de elementos e resquícios de barroquismo e a adopção de uma ideia qualquer de eficácia aliada à limpeza dos excessos de outrora (o pronto a vestir minimalista tem ganho muitíssimo mercado), contrabalançada pelo reforço das estruturas;
  6. A reintrodução ou repescagem (Yamamoto já faz disto há que tempos!…) do calçado desportivo em desfiles de alta costura, que teve o seu reinício em Raf Simons, aquando da sua colecção de Primavera/Verão 2014 para a Dior;
  7. O regresso aos anos setenta e ao que os anos setenta simbolizam (não creio que será necessário explicar);
  8. As silhuetas: as pernas das calças agora querem-se amplas, como se as pernas precisassem, de um momento para o outro, de estar mais disponíveis; e o mesmo com os braços, que agora cabem em mangas cada vez mais amplas, que lembram kimonos (Thakoon, Marc Jacobs, Hervé Leger, Carolina Herrera… é só ir à procura da Vogue Colecções e está tudo lá, mas agrupado por estética e não por ética);
  9. O regresso em força da mochila;
  10. O regresso aos casacões fortes e pesados e à prova de chuva, vento, frio e neve, em materiais cada vez mais resistentes (Rodarte, Lacoste ou Coach, por exemplo);

De repente, parece que afinal, a Moda, o que vem e vai de Paris, reflecte perfeitamente o momento confuso e tumultuoso que vivemos, momento esse em que parece querer preservar-se o corpo são e confortável para qualquer eventualidade (já que estamos em guerra, como insistem os nossos líderes em declarar sempre que se assomam a um púlpito com microfones), envolto apenas em tudo aquilo que nos faz falta por forma a preservar a nossa individualidade e manter acesas as nossas necessidades estéticas mais permentes.
Se o corte nos acessórios o corte parece radical, pensemos em Karl Lagerfeld e na quantidade de pequenos porta-smartphones que insiste em desenhar para as casas Chanel ou Fendi. Ou pensemos nos seus desfiles temáticos, carregados de significado.

Aquando do desfile da Victoria’s Secret, sobre o qual ia escrever, mas que não escrevi porque me aconteceu demasiada vida e demasiada morte nos entretantos, pensei nesta ideia de mediatismo da Moda e dos desfiles e da forma como se vive e comunica o vestuário hoje em dia, muito centrado na figura do emissor secundário, como que armado cavaleiro de uma marca e nas suas redes sociais (de que, de resto, a Victoria’s Secret é mestra), muito mais que nunca, de forma muito exuberante.
É como se as marcas quisessem cada vez menos emitir uma mensagem clara e oferecessem as suas criações a um séquito de segundas figuras que se encarregam de clarificar essa tal mensagem através da forma como utilizam os produtos e, elas próprias, os comunicam.
É como se houvesse uma demissão voluntária do acto de reflectir uma colecção por parte dos seus verdadeiros cérebros. Em prole de uma disseminação que oferece uma retribuição mediática e económica mais eficaz e personalizada, perdão, adaptada aos desejos das massas.
Se é isto que está a cavalgar (vejamos as novas super qualquer coisa que são celebridades filhas de celebridades, cujos corpos não são os de modelos, mas que lhes fazem as vezes, e estando a escrever isto penso em Gigi Hadid ou na Kendall Jenner), então não devemos esperar menos do que uma espécie de esquecimento e consequente regresso à frivolidade graduais. Não devemos esperar mais que isso dos portadores de boas novas, neste caso endorsers de marcas e coisas do género. Porque é só um post. A última memória do público é o seu último post. E se o último foi sobre Paris, o próximo é sobre umas férias de sonho compactadas nos arpalhões da Vuitton, que outrora já tiveram os Coppolas retratados pela Annie Leibowitz, mas que agora têm outras emergências.

A Moda reflecte o que somos.
Os arquivos de Bill Cunningham explicariam não verbalmente (tal como a Moda) tudo aquilo que vos digo hoje, nestas linhas: explicariam como o vestuário se adaptou a cada década e a cada momento, a cada contracção, a cada pequena expansão.
A Humanidade já atravessou muitos momentos de caos e Paris esteve sempre lá. Os bastiões do que foi criticado nas redes sociais mantiveram-se firmes e adaptaram-se, tal como agora, às necessidades dos consumidores.
Desde que a Eva comeu a maçã que nunca mais andámos despidos e que nunca mais não prestámos atenção ao que vestimos, quer seja um acto meramente utilitário, de defesa, de afirmação, ou um negócio.

O show goa on, mas o figurino altera-se para mais essencial.

 

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