Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

THIS IS HER!

No ofício de chegar ao consumidor, vale tudo menos tirar olhos. Dito assim é capaz de parecer um bocado agressivo ou demasiado afirmativo, mas é a verdade. Para confirmar esta afirmação nem precisamos de reflectir muito acerca da nossa qualidade de consumidores. Só precisamos de admitir que somos manipuláveis, com maior ou menor facilidade, porque é assim mesmo. Porque a sedução é um jogo que se joga com a diponibilidade e a oferta de mais qualquer coisa.
Ora então nesse ofício de chegar ao consumidor, há muito tempo que as marcas gostam de jogar com um dos sentidos mais evocativos e abstractos que possuímos: o olfacto. Porque é verdade que temos olfacto e associamos determinados cheiros a determinadas experiências, a memórias a recordar com maior ou menor afecto.
Uma das marcas que mais recorre a esta ideia dos cheiros inconfundíveis é a Apple, que nunca admitiu ter trabalhado esse cheiro propositadamente. O cheiro de um produto Apple acabado de abrir é muito característico.

Não sei se alguma vez entraram numa loja Zadig et Voltaire, porque a sensação é a mesma: o cheiro da Zadig é único e inconfundível. É aquele. Cheira a Zadig quando lá entramos e quando lhe passamos à porta.
Esta noite serão lançados em excluisvo na Zadig et Voltaire da Avenida da Liberdade, os perfumes THIS IS HER e THIS IS HIM, as mais recentes criações da casa francesa.

O meu primeiro contacto com THIS IS HER foi incrível pelo simples facto de sentir a familiaridade do cheiro caracteristico da Zadig, mas com um twist.
Foi como se de repente estivesse a cheirar uma nova versão, mais evoluída, da Zadig que já conheço e reconheço em todas as que entro por esse mundo fora. E ainda mais surpreendentemente, essa sensação foi óptima.

Comecei a cheirar e a tirar notas e apontamentos sobre o THIS IS HER ontem à tarde, quando o recebi. Escrevi nas notas do telemóvel que era doce e profundo, que não era enjoativo e que se fixava de forma contundente. Escrevi depois à noite, quando as notas mais leves se dissiparam ligeiramente e a base se instalou sem tanta pressa, que o que ficava era um aroma madeiroso e floral, altamente delicado, só que impositivo. Assim de uma espécie de sublime muito francês, que parece que se instala numa combinação de sorrateiro e à socapa.

Aprendi a apreciar perfumes quando fiquei com olfacto (uma das mil coisas que mudou no meu corpo após o parto da minha Filha), e para isso inventei um jogo que consiste em cheirar e tentar reconhecer e identificar as notas dos perfumes antes de ler alguma coisa sobre eles. É um jogo que requer perícia e prática e que me leva a deter e cheirar coisas em sítios. Afinal de contas são 28 anos sem cheirar nada. Tornei-me das poucas pessoas que não fogem dos promotores que costumam aproximar-se com amostras de perfume, por exemplo.

Este artigo deveria ter saído ontem, mas não me foi possível entender o THIS IS HER assim de um fôlego. Precisei de o sentir a entranhar-se na pele e de o voltar a sentir no casaco, esta manhã.
É um pontapé francês, inesquecível e indissociável. É idiossincrático e certeiro. É aguçado. É doce daquelas doçuras que fogem à inocência e à meninice e aos dedos indicador e médio a fazer enroladinhos no cabelo enquanto se morde o lábio inferior. O twist é uma nota de pimenta rosa. A base é de sândalo e as notas intermédias são castanha e baunilha, e as superiores são jasmim e pimenta rosa.
Percebi a dada altura que é a castanha torna THIS IS HER um perfume decididamente francês. A castanha, elemento muito presente e predominante na gastronomia europeia desde a Idade Média, é muito popular em França, que a consome sob várias formas desde o Renascimento, época em que surge o marron glacé. De tal forma é o consumo da castanha uma tradição francesa, que aquando das invasões do séc. XIX, a popularidade do fruto aumentou exponencialmente.
Quando identifiquei a nota de castanha, tudo ficou claro para mim.

Por ser adocicado e poderoso, este perfume é uma lufada de ar fresco no universo dos últimos que me têm chegado às mãos: não quer ser consensual, não quer ser delicado, não quer ser floral e fresco e leve. Quer ser assim, o que é, sem pedir desculpa.

Imagino que a Marie Laforêt pudesse cheirar naturalmente assim. Este perfume é a visão Zadig et Voltaire de Paris. Traduz num frasco a cidade e as miúdas do rock francês. Sei que há uma Paris que cheira assim. E o que é mais maravilhoso neste perfume e nesta imagem icónica da Zadig et Voltaire, é que consegue captar da forma mais simples e minimal a cena francesa que nasceu dos ripados e do eyeliner e que encontrou a sua identidade sem recorrer a revivalismos ou glórias passadas. É o requinte do agora, é a percepção do “cool” e do “francês”, que é mais ou menos fácil de perceber através do design eficaz confeccionado em materiais nobres. Isso tudo está também, agora, num perfume.

Outra nota importante, muito muito importante, é o design do frasco: com uma assimetria que o encaixa com a versão masculina, um vidro grosso e semi opaco que deixa ver o liquido transparente. Um frasco branco para a versão feminina, preto para a masculina. Tão eficaz e despretensioso como toda a marca.

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