Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

TODAS AS MULHERES SÃO REAIS

Eu própria já caí na esparrela das “Mulheres Reais”.
E qual é a esparrela das “Mulheres Reais”? É uma das armadilhas do nosso tempo, talvez a mais perigosa de todas, que leva milhares de Mulheres a compactuar com uma ideologia exclusiva, binária, cartesiana, completamente fechada numa coisa, em detrimento de outra.
Fala-se muito – eu falo muito porque é a minha realidade actual e por isso acabo por estar mais sensível e desperta para esses temas – da figura da Mulher Mãe para ilustrar esta coisa das “Mulheres Reais”. Regresso àquele artigo que referi no post anterior, sobre a celebrity pregnancy, porque em bom rigor o social media got us all thinking que somx todx pessoas com uma mensagem a difundir para um número de seguidores ávidos por a receber. Love it (até porque a minha parte preferida da internet é que o conhecimento pode ser partilhado e difundido, sem validação central prévia, de acordo com os gostos de cada um). Só que essa mensagem adquire quase sempre duas únicas formas: a excepcional, a da Mãe atlética, que engorda seis quilos, o bebé nasce com três e o resto era líquido, não enjoa, não incha, não fica com borbulhas, cujo cabelo continua forte, e que depois de parir parece uma top model, porque ainda por cima o bebé dorme lindamente e ela nem sequer tem olheiras, e a outra, a da Mãe que engorda, que incha, que adormece em cada esquina, que enjoa e mesmo assim ganha trinta quilos porque não consegue parar de comer e tudo lhe sabe bem, que pese embora os cremes se torna uma estria com pernas e braços, que não consegue ter o cabelo decente e as unhas em dia e que não dorme porque o bebé chora imenso e que na vida real parece uma grande Mãe zombie. Yah. Só se pode escolher entre um modelo e o outro. E o primeiro modelo não está disponível. Porque a Mulher Real é a segunda. OBVIAMENTE.

Aqui há uns dias dei por mim com um drama pessoal para resolver: vinha para a praia e ainda tenho uma pequena pança aqui pendurada e afeiçoei-me de tal forma às minhas bermudas de celulite, que não há meio de as despir.
E comecei a escrever isto mentalmente há vários dias, mas guardei o documento porque… VIDA EM GERAL, e esta manhã, que acordei para escrever coisas e trabalhar um pouco, doem-me imenso as pernas e os braços.

No Domingo passado, num acto de enorme bravura, fui então tentar comprar um fato de banho. O meu bikini de eleição, da Osklen, às riscas branco e preto, de triângulos de lycra com cordelinho que ata os triângulos de lycra e prende aquela estrutura precária ao corpo está fora de questão por causa da tal barriga e das tais bermudas. Não me lembro da última vez que usei fato de banho na vida, em bom rigor acho que nunca usei fato de banho porque o fato de banho para mim sempre foi uma peça difícil por causa da disparidade entre o tamanho do peito (ou melhor, a falta de tamanho) e a largura da anca. Vai daí, bikinis destes dos triângulos com os cordelinhos, porque são bastante ajustáveis e me fazem lembrar aquelas bonecas de papel.
A minha primeira Filha, a Mercedes, nasceu em Novembro, pelo que a seguinte ida à praia não foi um exercício de auto-consciência física. O meu segundo Filho, o Álvaro, nasceu há dois meses, a praia é agora, com os Filhos e os Primos porque só assim é que o Verão é Azul, e dei por mim a precisar de ir comprar um fato de banho para alojar o meu corpo, esse dispositivo funcional da maternidade, que agora também se torna um dispositivo social.
A pressão à qual estão sujeitas as Mulheres é muito absurda. Através de comentários, olhares ou ideias que flutuam no ar, invisíveis, mas que acachapam, as Mulheres e os seus corpos estão sujeitos a níveis de preconceito tão elevados como os de radiação em Fukushima.

Mas ainda não vos contei: lá fui eu, não é, num instante, ali à secção de fatos de banho do El Corte Inglès, tão precária como o meu modelo de bikini favorito, de espírito bem aberto, tentar. Encontrei três fatos de banho que gostei. Experimentei os três, gostei dos três, comprei um, em tigresas, com um drapeado na zona da barriga (ilusão óptica), reforçado por dentro, que não comprime as carnes, mas que mas aconchega e mas tapa. Que mas esconde da socialização que o meu corpo tem de fazer com ele próprio.
Diz-me o meu Marido que estou louca, porque fui Mãe pela segunda vez há dois meses, e que ninguém está normal dois meses depois de ter sido Mãe, que estou óptima, que deixe de ser parva. Mas o certo é que dei por mim presa neste esquema que insiste em toldar a Felicidade que vivo.

Mais um anúncio com Mulheres Reais todas feitas num oito e Mães Reais que têm a casa suja e tenho um colapso.

E eu com o meu fato de banho ali dentro do saco dos triângulos verdes, pretos e brancos, a contar os dias para a tão temida chegada à praia. Tirei-lhe logo as etiquetas de papel e as que parecem um código de barras mais a protecção higiénica para não o ir devolver e assumir o compromisso de pelo menos estar habilitada a ir, dentro de um escudo de conforto em tigresas, tomar aquele banho de mar que refresca e purifica, que a água salgada é muito mística. Especialmente a do Atlântico.

Hoje doem-me as pernas e os braços porque ontem foi o primeiro dia de praia. Ao saltar da cama, vestir logo o fato de banho, para o pequeno-almoço ser já todo lycrado. Antes de sair de casa, tudo devidamente besuntado com o protector solar. Chapéus nas cabeças. Sandálias do peixe-aranha. Sacos de rede como as francesas usam cheios de forminhas e baldinhos. Fomos cedo. Já estava calor e a água estava a vinte graus. Carreguei crianças ao colo, os sacos de rede como os das francesas, lanches e águas. Tudo sem perder o tino ao cartão do parque. Assentámos arraiais e o meu sobrinho desafiou-me para um sprint até à água. A maré estava bem vazia, a água lá longe, nós ainda na areia seca. O sprint eram metros de areia seca, metros de areia húmida, metros de areia molhada e água pelo joelho a perder de vista. Ele vai fazer 12 anos, eu vou fazer 32. E sem dizermos nada um ao outro, desatámos a correr. Eu não corria há quase um ano.
taca taca taca
As passadas eram rápidas e os meus braços estavam assim dobrados, as mãos fechadas como pás. O mar como único objectivo, cada vez mais próximo.
A meio da areia húmida pensei que tudo isto era arriscadíssimo e que a qualquer segundo poderia cair e desconjuntar-me, tal não era a velocidade a que corria, perna direita a seguir à esquerda, lançadas no ar, os braços a ajudar-me a puxar o universo para trás, pessoas a desaparecerem. Sem cair, cheguei à areia molhada e depois à areia mole, as passadas mais difíceis de dar depressa, com velocidade ou com graça. A água rentinha ao chão nem sequer tinha temperatura. Cheguei à água primeiro que o Xavier, mas ele foi o primeiro a mergulhar, porque mergulha com facilidade nas ondas que rebentam no joelho, e a Tia Joana, que ainda é mais alta (deve ser questão de esperar até ao próximo Verão), precisa de mais profundidade para não rebentar com a cara no fundo do mar.
O primeiro mergulho do ano foi em sprint até à água.
Ficámos a fazer carreirinhas e a flutuar, a ver as ondas que eram boas e as que não, a mergulhar tipo focas e leões marinhos. Eu a dizer ao Xavier que ia pintar o cabelo, ele baralhado porque nunca sabe se estou a inventar ou a dizer coisas a sério.
Depois, contruções e viagens à beira mar para encher o balde com água.
Mais uns banhos.
Administração de lanches.
Mais uns banhos.
Secar e recolher, porque o Sol começa a ficar muito quente para as cabeças mais jovens.
E neste tempo todo, nem uma única vez pensei na barriga e nas bermudas. Não observei outros corpos que não os dos meus Filhos e Sobrinhos: corpos ideiais com peles lisas, barrigas para fora e preguinhas rechonchudas, de onde é difícil tirar toda a areia.
Corpos que nunca são julgados.

Cada corpo encerra uma história que é um aglomerado de mil histórias. Cada corpo é o conjunto das consequências de realidades individuais ou colectivas. Cada corpo opera no seu dispositivo próprio de realidade. Cada corpo é um corpo. Cada corpo não é mais do que o que está do lado de fora de um cérebro, de uma cabeça, ossos, músculos e nervos e cartilagens e veias e artérias. Alma e espírito para os crentes. Cada corpo opera na sua própria realidade, pelo que cada corpo, pertença a quem pertencer, é real.

Eu com o meu, de barriga e bermudas de celulite, estou muito bem, obrigada. Se tive dois Filhos e consigo carregar um de cada lado, os sacos de rede como os das francesas, os lanchinhos, os baldinhos e as forminhas, fazer sprints e ainda ganhar, resta-me então concluir que o meu corpo é o de uma Mulher REALmente incrível, e que não preciso de mais.

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