Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

TOKIO KUMAGAÏ

Sempre que alguém diz que as criações da Charlotte Olympia são inacreditavelmente virtuosas, um leitãozinho bebé é transformado no bacon que uma empregada que era a rainha da popularidade na escola secundária serve num diner americano à la fifties a um cliente redneck vestido entre o caçador de patos e o cowboy.

Hoje venho falar-vos de um Senhor inacreditável, chamado Tokio Kumagaï, responsável pela criação de quase todos os objectos de por nos pés que mais fazem sonhar e que mais têm servido de decalque desde há trinta anos.

Tokio Kumagaï, contemporâneio de Kenzo, Issey Miake e Rei Kawakubo, não experimentou o sucesso internacional dos colegas japoneses porque não teve tempo de esperar até lá chegar. Morreu vítima de SIDA demasiado cedo. Em 1987, em Paris, aos 39 anos.
Porém os seus últimos seis anos de genialidade tornaram-no ainda mais imortal, comparável apenas a Paul Poiret.

Assim que saíu da escola de Moda de Tóquio, a famosa e prestigiada Bunka College of Fashion, foi trabalhar com Yves Saint Laurent e com, em Paris. Desenhava roupa e acessórios. Terá dado nas vistas de tal forma que Elio Fiorucci o convidou para trabalhar também consigo, para a marca italiana homónima. No início dos anos 80, Kumagai era o designer mais desejado e o que mais trabalhava para mais sítios.DE1140384
É por volta de 1981 que funda, em Paris, a sua marca de sapatos, Tokio Kumagaï, e que se assume como o criador de calçado pop por excelência. Um descendente óbvio e claro de Elsa Schiaparelli, não a copia nem ao seu imaginário; serve-se apenas da abertura de horizontes daquela que dizem ter sido a grande rival de Coco Chanel. Nunca percebi porquê.
Em contacto com a elite europeia, especialmente a artística, Kumagaï cria apenas em cinco anos objectos inacreditáveis que ficariam para a História, mas dos quais a História parece não se lembrar. O que é estranho, porque foi Kumagaï quem pegou pela primeira vez em objectos quotidianos, neste caso nas comidas de plástico japonesas para as transformar em sapatos (os sapatos de bacon e os de doces, por exemplo), ou porque foi ele quem, pela primeira vez optou por dar formas de animais a sapatos, em vez de os decorar, apenas, com tiques art nouveau.

Enfim, não desmerecendo da Charlotte Olympia, porque eu própria já me babei para cima de coisas das que ela faz, é preciso às vezes saber que as criações da menina Dellal não caem do céu por não ter unhas, e que vêm de um sítio muito concreto.

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