Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

Uma Mente Bem Aberta | #trashediastoliyourlook

Encontrámo-nos no Le Chat, ali mesmo ao lado do Museu Nacional de Arte Antiga onde vive o nosso Sequeira, para o #TRASHEDIASTOLIYOURLOOK número quatro.


A Sara Medeiros Martins é a convidada de hoje.

Conheço- a desde que fiz 17 anos, altura em que vim morar para Lisboa, porque temos muitas amigas em comum, porque sempre nos cruzámos em todos os sítios e porque na verdade sempre simpatizámos uma com a outra. Nunca quis o destino que nos encontrássemos género combinação para ir passear ou curtir ou falar da vida, mas sempre beneficiámos das vantagens de viver no nosso tempo em que a Internet e as redes sociais dão um empurrãozinho. Acho que desde o Fotolog e o LiveJournal que sempre nos mantivémos próximas. Ou pelo menos cientes não (omni) dos nossos percursos.
Sempre gostei da Sara.
É inteligente e astuta. É divertida e mordaz. É ácida. Tem um sentido de humor maravilhoso. Tem um ponto de vista sobre as coisas muito racional e muito peculiar. Não é uma miúda evidente. Diria que é tragicómica, mas isto sou eu, que sou do Teatro.

Falámos de ser millennial, de ser do campo, de hip-hop, unhas e cenas de miúdas, de mentalidades e da importância das relações humanas, do amor e da amizade, mais concretamente.
A Sara é advogada, diz que isso não interessa nada, mas eu acho que o facto de ela ser advogada é o elemento diferenciador nela..

Como ela estava um bocado assim… Nervosa? Perguntou-me o que é que eu queria saber dela, e eu respondi que na verdade eu queria era que ela me falasse da chungaria hip hop que ela ouve e de como isso colide com a sua profissão. E ela achou meio forçado, por que raio?… E a conversa saltou para o meu Pai que é advogado e para os Açores e para o Sandro G.

– Oh, o Sandro G. é tipo… Hip hop pimba, se é que é hip hop… Os gajos que eu oiço (e que às vezes eu lhe peço para me mandar, porque gosto de hip hop mas não sei por onde é que se começar a ouvir e a gostar) estão todos presos por crimes violentos, tráfico de droga… Têm tipo 17 anos e só têm soundclouds e assim… O Sandro G. foi repatriado. 
E rapidamente me explica em que é que consiste o expatriamento.
Direito internacional.
– É que tens de fazer muita porcaria para seres expatriado para a terra de onde são originários os teus Pais ou Avós.
E saía-nos em coro Tu és uma galinha mamã nã que dá…
Mas ela não queria mesmo nada falar de Direito.
E continuámos.


A família materna da Sara é dos Açores e todos os anos ela gosta de passar umas temporadas no meio do verde e das vacas. Faz uns retiros muito sex XIX: purificastes e que a ajudam a organizar o que estiver a precisar de ser revisto. Na vida, enquanto estudava. Diz que era capaz de ficar eternamente lá na ilha, que não sente falta nenhuma da cidade, que às vezes tem medo de atravessar a estrada em Lisboa e que muito dificilmente viveria numa megalópole. Acha a vida da cidade muito extenuante, muito difícil, especialmente com as pessoas, porque as pessoas da cidade são muito desconfiadas, pouco amigas e pouco hospitaleiras. Com poucos costumes.

É millennial, mas considera-se um bocadinho excluída da delimitação sociológica do termo porque acha que os millennials padecem do mal de serem pouco responsáveis e de não levarem as acções até ao fim. A dificuldade está sempre na assunção do compromisso, quer seja ele pessoal ou profissional, porque em bom rigor a hiperactividade e tudo aquilo que são as possibilidades infinitas acabam sempre por ir dar àquele sítio onde as pontas ficam todas soltas.
A Sara é uma Mulher adulta e crescida, dentro do que podem ser as Mulheres adultas e crescidas de hoje. Tem um trabalho na área que gosta, não é DJ em part-time nem tem um blogue, muito menos alguma espécie de passatempo de contingência social. O namorado conquistou-a definitivamente no dia que lhe apareceu à frente uma hora atrasado, mas com  com duas garrafas de vodka (este artigo vinha mesmo a calhar, sem querer!).


Tem gatos com nomes betos e gosta de dinossauros.
Os millennials são assim: conquistáveis com pequenos gestos reveladores de grandes afinidades, do conhecimento de uma experiência partilhada num cenário pouco convencional. Se duas garrafas de vodka podem parecer uma frivolidade ou um gesto vazio, ou até uma prova pouco significativa, a Sara é capaz de falar dessa oferta como o derradeiro gesto, como a demonstração absoluta de amizade, respeito e conhecimento. Para ela todas as relações humanas começam na amizade, no respeito e no conhecimento.
Encontra nas melhores amigas tudo aquilo de que precisa e partilha com elas uma ideia de abertura de espírito essencial.
– Prefiro não me dar com pessoas a dar-me com pessoas de vistas curtas, porque é sempre pior. As pessoas vivem mais chocadas com a sinceridade que com o cinismo. Lisboa é uma ervilha… A sério, tantos downloads de séries americanas em que andam sempre todos engalfinhados uns com os outros, tantas fotos do livro da Lena Dunham no Instagram, tanto feminismo e ainda são todas umas meninas de coro? Tanta condenação!… Não tenho paciência. 
Acho que nem os tribunais condenam tanto em Portugal…
A Sara tem uma melhor amiga incondicional, com quem esteve sem falar durante um tempo, com quem partilha tudo. Enquanto estiveram sem falar, sentia-se muito menos completa, com muita coisa a menos, porque as relações existem por serem trabalhadas e é impossível mantê-las saudáveis sem nos dedicarmos a elas, sem nos debruçarmos sobre a sua evolução, sobre o que as alimenta. Tentam encontrar-se pelo menos uma vez por mês para jantar e tratar de pôr a escrita em dia. Aproveitam para experimentar um restaurante novo, ou qualquer coisa do género. Arranjam um pretexto para não ser um jantar de comer do prato no sofá.
Nem sempre é fácil.
Mas o importante é cuidar e tentar compreender os nossos.

sara stoli-029E o tempo passou a correr.
Esperámos toda a semana que passou para nos encontrarmos, evitámos a chuva e guardámos o #TRASHEDIASTOLIYOURLOOK para o único dia de sol. Chegámos quando o sol já nos aquecia as costas apenas muito suavemente e fomos embora depois de o vermos a pôr-se preguiçoso e a deixar de iluminar o rio.
Se não conhecem, deviam conhecer, porque o Le Chat é tranquilo. A única coisa que se ouviu para além das nossas gargalhadas e do sorver das palhinhas no final do Moscow Mule e do cocktail de Stoli com sumo de ananás e gengibre é o apitar do comboio da linha de Cascais.

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