Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

TRUST NOBODY ou A Gravidez é GENIAL!

Não sei quantas vezes é que vou ter de engolir as minhas próprias palavras, mas a verdade é que dizem sempre que não faz mal, porque reconhecer o erro demonstra grandeza e quê.
Pronto, vou deixar-me levar por aí e acreditar nessa “grandeza” de espírito que afinal possuo, mas que não sabia.

Que fique claro que acho que o tema da maternidade e da gravidez é demasiado pessoal para poder ser abordado de forma leviana, porque cada Mulher vive a sua gravidez de forma diferente, condicionada pela sua contingência, pelo que deseja, pelos seus medos, ansiedades ou desejos, e tantas outras coisas que não sei ainda enumerar, porque ainda a procissão vai no adro.
Foi mais ou menos por estes motivos que sempre achei – mesmo antes de estar grávida ou de sonhar vir a estar – que a experiência da gravidez é individual, portanto muito tendenciosa, uma vez que não partilhamos todas o mesmo corpo, a mesma mente, a mesma vida, e sobretudo o mesmo metabolismo e hormonas.

No entanto, e porque quando o assunto é a barriguinha “suspeita”, parece que toda a gente tem uma opinião, opinião essa que é normalmente uma narrativa interminável, pejada de detalhes sinistros sobre partes do corpo que nunca convém tornarem-se públicas senão até àquele então e sobre um sem fim de más experiências que só quem vive para depois poder contar é que é minimamente credível. Nem sequer podem ser tratados como episódios insólitos, são os piores episódios do mundo, porque quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto, e nesta grande epopeia vale tudo.
Eu que até sou uma pessoa do negativismo, dessa corrente tão mais divertida que aquelas em que as pessoas que passam a vida em celebração permanente, e que adoro tudo o que o negativismo proporciona a qualquer texto ou forma de pensar: sarcasmo, ironia, tenacidade, fico extremamente surpreendida com esta ânsia de partilhar os horrores da gravidez, especialmente com as que esperam o primeiro bebé.
Acho muito mal.
Já que a taxa de natalidade é a miséria que é, os apoios e incentivos à maternidade são a miséria que são e as contas se fazem sempre do ponto de vista do capital paterno, é óbvio que à mínima história de merda, quem ainda não foi Mãe e está levemente a pensar ser, fica horrorizada e arrepia caminho.

É uma questão de tempo até as abordagens tétricas começarem a chegar.
No meu caso foi algures no fim de Maio, por alturas do aniversário do meu Pai, quando tinha ainda uma pequena barriga que não deixava perceber se estaria grávida, com prisão de ventre, ou se andava a abusar das minis Sagres.
Ora se por um lado as Senhoras mais afoitas se precipitavam em rasgadíssimos parabéns seguidos de um ou outro apontamento não-verbal mais veemente na escala dos suspiros, as Senhoras mais acanhadas olhavam só para a minha barriga com olhos de pena.
E tive a minha primeira experiência aterradora nesse fim de Maio, em casa dos meus pais, num almoço com muitos convidados: cheguei cedo para fazer a sobremesa preferida do meu Pai, Apfelstrüdel, o único presente que ele quis que lhe oferecesse. Cumprimentei toda a gente, e fui para a cozinha fazer a massa para a por a descansar enquanto tratava de laminar as maçãs e de as misturar com o resto dos ingredientes.
Os convidados foram chegando, casal a casal, cientes que estavam de que a Joaninha estava grávida.
Manda a Natureza que os Homens fiquem na rua a conviver com os outros Homens enquanto se debatem os grandes temas da actualidade, e as Mulheres tratem das coisas. Lá em casa nunca foi bem assim, mas pronto.
Senhora a Senhora, foram vindo à cozinha muitíssimas Senhoras mexer-me na barriga (que na gravidez se torna propriedade pública, não vale a pena ser-se mal educada por causa disso) e dar-me os parabéns, que depois saíam para fazer o reconhecimento do território, mas rapidamente se fartavam e voltavam a entrar, porque havia calor e cães, uma combinação letal para quem se vestiu em modo Barbra Streisand attends a country lunch.
Na rua estava calor e as Senhoras, começaram a vir, uma a uma, para a cozinha, até a tornar num verdadeiro gineceu onde as escalas de agudos perfuravam os tímpanos de todos os animais da quinta.
Eu continuava impassível a confeccionar a dita sobremesa na bancada cheia de farinha, completamente no meu mundo, que é, diga-se de passagem, muito fiche.
Até que duas das Senhoras entraram em diálogo entre si e consequentemente comigo.
Das frases soltas, vazias e tranquilas que ia apanhando entre mais uma rotação da massa no pano de linho, para ter a certeza que a estendia com o rolo bem fininha, para depois a preencher com o recheio, apercebi-me que de uma espécie de diálogo tranquilo tínhamos passado a uma disputa feérica sobre quem sofreu mais com a gravidez, o parto e o pós parto, para depois passarmos à fase das mazelas, para depois eu mandar uma mensagem à minha Mãe que dizia apenas “tira-mas daqui”.
De forma muito elegante, a minha Mãe reconduziu as Senhoras vestidas de Barbra Streisand até à rua, com umas bebidas novas na mão, azedas que estavam uma com a outra porque na escala de sofrimentos maternais, não havia vencedora.

Das hemorróidas à tiróide, passando pelos clisteres, pelo colostro, pelos pontos, pernas inchadas, estrias, dilatações, diabetes, os trinta quilos a mais, os baldes de gelado a meio da noite, o pano, os mamilos gretados, a subida do leite, as privações, a toxoplasmose, as insónias e o enfraquecimento dos cabelos, um Muito Obrigada a Todas as Mães e Avós com quem já me cruzei nestas 31 semanas de gravidez! Um Grande, Grande Beijinho a Todas! Tem sido uma viagem incrível pelo vosso Oceano de Adversidades, mas ainda não enjoei!

Acreditando verdadeiramente que a minha capacidade de compreensão do próximo em termos práticos é grande, ainda não consegui entender por que raio é que as Mulheres insistem em impingir-me a ideia de que todo o processo até à maternidade é o fim do mundo, que é nojento e mau e uma seca e uma porcaria e um horror pegado.
Não entendo de onde vem a ânsia de partilhar más experiências e de enaltecer o seu sofrimento para alguém se validar socialmente e sagrar mártir – perdão! – mãe de uma criança que não lhe pediu para nascer.
Sim, porque no final de todo o tipo de narrativas que já tive de ouvir, os filhos continuam a ser “a melhor coisa do mundo”. Sendo assim… então porquê estes chorrilhos de horripilância? Para testar os limites da grávida? Para atormentar os meses que estão para vir? Para desencorajar a grávida do milagre da maternidade? Para a fazer duvidar da sua capacidade de entrega? Para quê?

De tudo o que teria para dizer sobre a minha gravidez até à data, apetece-me encorajar todas as Mulheres que estão na dúvida, porque é genial. Pelo menos para mim tem sido genial! Tem sido maravilhoso ver a pança a crescer! Tem sido maravilhoso descobrir a profundidade de determinados sabores que não conhecia tão bem por achar que não gostava muito assim de determinadas coisas, tais como pêssegos. UAU! Já escrevi uma ode aos pêssegos desde que estou grávida! Que sabor complexo e profundo! Que textura! Que maravilha a rigidez do pêssego, a acidez, às vezes a textura gomosa, quando estão maduros, quase como um figo prensado! Ou por exemplo, temperados com azeite e manjericão!
E quem diz a descoberta dos pêssegos, diz a descoberta do quão incrível é descobrir que o corpo é muitíssimo mais inteligente do que a mente, porque o corpo sabe realmente o que pede e quando pede!
Já para não falar do estreitamento dos laços entre a grávida e o seu parceiro, ou entre a grávida e os pais, por exemplo.
Ou de como a barriga é um excelente ice breaker social!
Ou de como nos sentimos gloriosas e poderosas por estar a dar o corpo ao manifesto!…

Há um sem fim de coisas incríveis na maternidade, e se é da felicidade que andam todos à procura, como já canta o SEBEM desde que Angola ainda estava em guerra civil, então por que raio é que uma das coisas mais lindas do mundo tem de ser encarada como a condensação das catorze estações da via sacra, mas elevada ao cubo, que é para ser ainda mais dramática?

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7 Discussions on
“TRUST NOBODY ou A Gravidez é GENIAL!”
  • Pêssegos é uma das grandes descoberta da gravidez, junto com o corpo, húmus com pepino, sopa com batata doce, e a generosidade das pessoas à tua volta. E também de algumas histórias de horror, porque a maternidade é abnegação e sofrimento, é porque as mães são mártires e sofrem imenso, mas vale tudo a pena porque, no final do dia e como dizes, os filhos são o melhor do mundo. Tiveste sorte porque não ouviste mulheres, sobretudo as tuas, a dizerem que se não enjoaste e passaste tão bem, é porque esperas um menino com certeza. Ainda bem que voltaste.

  • Após ter passado pela experiência há muito pouco tempo ( há 4 meses) concordo com todos os clichets desta sociedade! Não há de facto coisa melhor! Relativamente a tudo o resto, cada um é como cada qual e o mesmo se aplica aos bebes!
    Recomendações: cadeira trip trap da stoke, carrinho bugaboo, comprar apenas um soutien de amamentação e só depois do parto,quando estiver tudo como vai ficar por uns tempos, adquirir os restantes! Bodies da jacadi e petit bateau ( n são tugas mas são óptimos).

  • Parabéns! Pelo “estado de graça” e pelo maravilhoso texto! Também sempre me fez confusão…e nunca liguei a nenhum desses terrores relatados até à exaustão e em tom de “quem te avisa teu amigo é”. Até prova em contrário, vou continuar a acreditar que estar grávida deve ser uma das melhores coisas pelas quais uma mulher pode passar. E sim, vou adorar poder ser gorda por nove meses! É o milagre da vida, já o dizia o Rei Leão 😉

  • Joana, aqui das minhas 30 e muitas semanas (em “gravidês” – a língua, não o estado) – e depois de ter ouvido muita coisa sobre as quais preferia ter continuado na santa ignorância, e a leitura desse seu post foi catártica. Genial, obrigada.

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