Trashédia

YOU WILL BE HAPPIER WITH LOWER STANDARDS

Unidades de Medida

Não sei muito bem se este texto fará muito sentido enquanto texto, porque este texto são bocados de assuntos em que já pensei quando estive grávida pela primeira vez e aos quais regressei desta segunda gravidez.
Mas talvez agora soe melhor e eu consiga construir um padrão de repetições de acções/reacções sistematizável.
Não sei.
Ficam desde já avisadx.

O tempo de estar grávida e a noção de tempo da gravidez são conceitos abstratos para quem não está inserido na bolha. E por bolha não entendam apenas a barriga que se vê de fora, nem o útero, que é uma daquelas palavras que ninguém usa, porque… Útero é tipo, too much. Acho que deve ter sido por isso que uma das grandes obras dos anos noventa se chama In Utero.
A bolha do tempo da gestação é toda falada em semanas.
Vai sensivelmente das oito ou dez até às quarenta e duas, porque em bom rigor quase ninguém sabe antes das oito ou dez semanas que está grávida, e depois das trinta e seis, é melhor ter a mala pronta.
Mas sim, vá, falamos de quarenta e duas semanas.
Semanas.
Semanas é a unidade de medida dos namoros no ciclo preparatório.
Ora bem, semanas, que até às dezasseis são vistas do lado de fora como uma gordura acumulada que parece uma obstipação, mas ninguém pergunta porque não se pergunta porque pode ofender porque estar grávida ou gorda é, em qualquer dos casos, uma desgraça potencialmente constrangedora a evitar. Depois a partir dessas semanas é evidente que se está grávida e as pessoas que não sabem lidar com a gravidez ignoram a gravidez, porque a gravidez volta a ser uma expressão corporal tão silenciosamente escandalosa em sociedade, que não se fala sobre isso, a não ser que a grávida decida falar da gravidez.

Estar grávida implica várias coisas, sendo que a primeira é uma relação sexual.
Ou seja, tout court, estar grávida é o resultado de uma relação sexual.
Acho que vivemos num tempo em que se higieniza a sexualidade.
Pelo menos sinto isso muitas vezes.
E fiquei a pensar muito nisto tudo depois da Rita Canas Mendes me ter enviado um artigo magnífico sobre celebrity pregnancy, que vos deixo aqui.

Mas regressando às semanas, a partir da trigésima semana, quando já se tem uma barriga proeminente, do silêncio que rodeia as grávidas, passa-se a um ruído imenso produzido por toda uma horda de gente que acha que vais parir amanhã.
Das trinta semanas ao parto podem ir mais doze.
Semanas.
Quantos corações partidos em ciclos preparatórios?
Nem por isso o tempo das grávidas começa a abrandar, e é aqui que eu começo a pensar sobre o tempo da gravidez.

Sou millennial, nasci em 1985 e pertenço à primeira geração que beneficiou, desde o início, da internet, dos telemóveis e de todas as inovações tecnológicas que hoje são a base de tantos lares. Tive telemóvel com 11 anos, que é mais ou menos a idade com que hoje é “normal” ter telemóvel. Internet idem. Como boa millennial viajei para o estrangeiro sem pais muito cedo, fui a festivais muito cedo, fiz amigos no mIRC que me ficaram para a vida, chorei quando acabou o Napster e a primeira rede social em que me meti foi no LiveJournal. E depois no Fotolog. E depois no Myspace. Yah, estive lá na linha da frente do início do rant da internet. Dos haters. Dos trolls. Evitei ter hi5 porque era meio parolo. E há dias o Facebook informou-me que fazíamos dez anos. E o Messenger? Ufffff!… E tive um mail do Yahoo! que era A cena.
FDX! e tenho bué amor ao meu nick * faz assim com os braços e as mãos aquele gesto de quem mostra uma faixa imaginária com um nome gravado *
pausa
pausa
pausa
TRASHÉDIA.
Só me falta tatuar.

Como millennial, a dada altura, na minha primeira gravidez, pensei que o meu tempo estava completamente desajustado do tempo biológico da gravidez.
Das quarenta e duas semanas.
Pensei que a gravidez deveria ser mais rápida. Menos longa. Menos semanas.
Porque dependendo do ponto de vista, tudo na gravidez são impossibilidades.
Aquela coisa de me encostar e aproveitar para saborear a gravidez, enquanto millennial com todos os constrangimentos inerentes à condição de millennial, não existe. Isto só para não dizer “Recibos Verdes”, que é tão piroso como ter tido um hi5. Trabalhar enquanto se está grávida sem o conforto de curtir ali uma baixa paga para esticar as pernas mais pró inchadote sem remorsos é uma condição pouco provável para um millennial, mas que abracei já duas vezes com um sorriso daqueles que duram para sempre. Desta segunda vez com um sorriso redobrado, porque já o conservo desde a primeira gravidez.
Todos os dias são mesmo muito melhores com os meus Filhos.
Mas desenganem-se, porque a frase de cima soa a chavão de grand finale, mas não é.
A dada altura, a gravidez pede ao corpo que sossegue um bocadinho e que seja, por favor, só assim uma espécie de incubadora de uma nova vida que está lá dentro à espera de vir cá para fora.
Eu deixei assim mais ou menos que isso acontecesse, mais para o menos do que para o mais.
Porque a minha vida lá de dentro se alimenta muito da de cá de fora.

Depois a vida de lá de dentro sai cá para fora.
De qualquer uma das formas que assume para sair, é punk. É gore. É thug.
O corpo, millennial ou não, tem ali umas horas para se preparar para a nova vida se efectivar. E o corpo de quarenta e duas longas semanas deixa de ser a preciosidade, para passar a ser o corpo útil à nova vida. O corpo continua a ser essencialmente funcional e utilitário, só que dividido em dois, e severamente menos protagonista.
*~Adelaide Ferreira~* O Papel Principal *~Adelaide Ferreira~*
Lá fora, o tempo continua, cruel, a passar.
E não pára.
Enquanto o meu corpo se oferece ao outro e o faz crescer, enquanto o meu corpo se cura e se transforma em alimento e cama e colo, os uploads no Instagram continuam a cumprir as suas rotinas e a atingir os seus picos.

O meu segundo Filho, o Álvaro, nasceu no dia com mais acontecimentos de 2017.
Ao meu lado, Ele.
E uma televisão que me dava conta dessa sucessão de acontecimentos.
E o iPhone a iluminar-se.

A vida não se detém quando nasce um Filho.
A vida começa.
E é maravilhoso que assim seja.
Mas o tempo é um filho da puta que não consegue parar.
É um filho da puta que não consegue deixar de aglutinar acontecimentos exclusivos.
“Exclusivos” as in que te excluem a ti – a mim, neste caso – porque tiveste um Bebé.

Como se isso fosse mau.
LOL

Não é o Bebé que está mal.
Não é o Bebé que tem de crescer rápido e de uma vez só por causa do Tempo.
Porque não é o Bebé que está mal no tempo.
É o Tempo que está mal. Para o Bebé, para a gravidez e para a maternidade.
O Tempo, e aquilo que se faz com e do Tempo, é que não cria espaço físico, social, psicológico ou laboral para a grandiosidade do acontecimento que é (agora sim substantivado) a Maternidade.

E quando me perguntaram, desta segunda gravidez, se ainda não “tinha tido”, género estava gravida há três anos porque a Mercedes ainda não tinha nascido, ou quando me disseram que “estava sempre grávida” ou que “mesmo grávida” (preencher a gosto) ___________________ , nunca, por um segundo que fosse, me senti diminuída.
Porque mesmo com o Tempo todo a andar por aí, não me sinto excluída, não padeço desse complexo, não sofro com todas as versões filtradas de pores do Sol na praia que estarei a “perder”.
Porque posso ver o por do Sol todos os dias, acompanhada por duas crianças incríveis que a essa hora estão em cima de mim, a transformar-me em plataforma que ocupam na totalidade, quer do espaço, quer dos afectos, oferecendo ao meu corpo uma significância única. Com o bónus de ainda ver todos os dias o nascer desse mesmo Sol, como uma Ménade.

De dentro da Maternidade activa, porque eu sou millennial e nunca pude parar verdadeiramente, posso dizer que o Tempo às vezes corre para se enfiar em bocas que te oferecem comentários impiedosos e opiniões menos felizes, mas que nada disso é suficiente para se sobrepor à magnificência da Maternidade.

A pausa voluntária para viver a Maternidade é a manifestação mais anti-establishment, a maior guerrilha que se pode fazer ao Tempo.
A este Tempo.

a fotografia é do meu Marido, Carlos Pinto.

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