No café de uma praça de um bairro muito tradicional e ao mesmo tempo cosmopolita de Lisboa, entra um cliente habitual, que embora não fosse morador da dita praça, tinha ali estabelecido o seu consultório há umas três décadas. Embora tivesse sofrido uma valente remodelação temática (o tema era “jazz”) e dispusesse de uma situação geográfica privilegiada, o café continuava a ser utilitário pois não era particularmente memorável em nada. Não se pode dizer que tivesse uma especialidade pela qual a sua clientela fiel corresse. Muito menos se pode dizer que a remodelação temática tivesse atraído mirones. Nada. O movimento era composto por clientes habituais, pelo que era sempre muito notada a entrada de estranhos ao serviço.
Nessa manhã em que entrou pelo café adentro a figura central desta história, estavam estacionados nas mesas escassas, porém muito juntas como é habitual em quase todos os cafés de bairro portugueses, os mesmos clientes de sempre, cuja relação com o espaço é como a dos peões num tabuleiro de Catan: conquista a conquista, cada favinho pertence à persistência de cada jogador – e ai de quem o invadir!
– Bom dia, Doutor! – Ouve-se detrás do balcão uma voz excessivamente expressiva e vibrante, como os gomos de uma laranja muito cor de laranja e bem suculenta.
O Doutor, já com os seus sessenta anos, não era nada de se deitar fora e ainda arrancava suspiros um pouco por toda a parte, especialmente por causa da combinação fatal que é a sua farta cabeleira branca sempre muito bem penteada com a sua simpatia e cordialidade. Fazia-se acompanhar de uma jovem senhora, na casa dos vintes, alta, com umas pernas que lhe chegavam vertiginosamente até à cintura que ficava à altura do balcão refrigerador de bebidas e expositor de bolos, chocolates e pastilhas elásticas. Desprendia-se dos ombros que ficavam à altura da última prateleira do expositor das batatas fritas, um vestido preto, muito simples, porém demasiado curto para o tabuleiro de Catan. Olhos grandes e uma boca muito encarnada com muitos dentes muito brancos. Era disto que o Doutor se fazia acompanhar naquela manhã.
– Então e o que é que vai ser? – Perguntou a empregada que também não tirava os olhos da amiga do Doutor, na esperança de servir um pequeno-almoço delator em vez de um par de bicas.
– São dois cafés e duas garrafas de água, uma é natural. – Respondeu o Doutor.
O café estava tão silencioso que, embora fosse hora de ponta e lá fora o trânsito rugisse, lá dentro até se ouvia o som da queda rápida e seca dos cadáveres das moscas nos tabuleiros vala-comum que são as bases daqueles mata-moscas clássicos de lâmpadas roxas. A electrocução imediatamente anterior era então um barulho ensurdecedor.
Já estavam os pires com os pacotes de açúcar e as colherinhas pousados em frente ao Doutor e à mademoiselle, quando entra pelo café um outro cliente habitual, também ele Doutor, conhecido do Doutor Número Um. Tinha os modos de um homem de negócios muito importante com muitos negócios, mas deteve-se na bisga com que habitualmente vinha ao ver aquele par de pernas de collants pretos translúcidos às bolinhas em frente ao balcão. Ele que tinha lugar mais do que marcado num dos favos isolados logo em frente à porta, decidiu prescindir das mordomias que exigia normalmente para pedir ao balcão e inspeccionar a mercadoria.
Viu o Doutor Número Um e percebeu que aquilo tudo cheio de pernas afinal estava com ele.
– Bom dia, Doutor! – O tom do Doutor Número Dois era sumarento como o da empregada, só que muito menos astuto, com uma ressonância mil vezes inferior.
– Bom Dia! – Respondeu o Doutor Número Um.
– Então como está?
– Está tudo bem, obrigado.
– Isso é que é preciso! E os seus rins, aquele problema que tem, tem estado melhor disso?
– Sim, tudo óptimo.
– Graças a Deus, Doutor! É que isso é um problema crónico, não é? Mas não precisa de fazer diálise, pois não? Já foi operado duas ou três vezes? – Perguntava o Doutor Número Dois com a preocupação pública típica de um gesto vazio, típica de um igualmente Doutor, mais novo, mais magro e mais importante, só que sozinho àquela hora da manhã.
– Duas vezes, Doutor. É, mas isso agora já passou!
– Graças a Deus, Doutor! Graças a Deus!
– Oh, homem, deixe lá Deus sossegado! É Graças à Medicina!
– E a sua Esposa? Aí é que está uma santa! Sempre ao seu lado!… Na saúde e na doença! Sempre lá! E se essas complicações de saúde não deixam um gajo, pá…! – Continuava o Doutor Número Dois a monologar – Você é que tem sorte, qu’isto hoje em dia, como as mulheres andam, qualquer coisa… Pumba, é logo um divórcio! – o Doutor há-de saber!… Mas a sua!… Um exemplo de Mulher, sim senhor!
– A Maria do Céu está óptima, obrigado.
– Está lá para o Alentejo, não é? E os seus filhos? Todos bons? Todos criados, não é? A mais nova tem quê? Vinte e três, vinte e quatro, não?
– Já, já. Já estão todos criados. A mais nova tem vinte e três.
Era impressionante como com todo aquele silêncio era tão difícil ouvir, tal não era a ânsia de tirar os nabos da púcara.
Os cafés já tinham sido bebidos, a meia torrada aparada com pouca manteiga e o abatanado pingado do Doutor Número Dois já estavam pousados no seu favo, frios e moles.
Nos outros favos do café as abelhas nem zumbiam, na esperança que o pólen que o Doutor Número Dois estava a extrair lhes viesse a voar para cima para terem mel para o resto da semana.
– Ó Doutor, a sua torrada daqui a nada já não tem graça nenhuma – disse a empregada.
– Pois, olhe, ponha já aí outra meia a fazer, se não se importa, Bruna.
– Bom, quanto devo? – perguntou o Doutor Número Um, já de carteira na mão.
– É três e oitenta – respondeu a Bruna.
– Oh, e com isto tudo, Doutor – virando-se para a jovem – nem me apresentei à senhora, quer dizer, MENINA! – peço desculpa pela indelicadeza, que eu sou um homem muito cordial, Manuel Albuquerque, muito gosto, e a MENINA, agora sim, a MENINA é?…
Ninguém no café tinha conseguido ouvir a parte em que o Doutor Número Um, aquando da pergunta da idade da filha, respondera que aquela de quem se fazia acompanhar, era a sua filha, já com vinte e três anos, acabada de chegar de um estágio em Paris. Ninguém. Nenhuma das tísicas que até conseguem ouvir os textos das mensagens escritas tinha conseguido reter tal informação, pelo que este era o momento decisivo em que para qualquer resposta estavam já reservadas as interpretações pessoais de cada uma.
– Eu? – Respondeu a MENINA enquanto esticava o braço comprido e fino para lhe entregar, do fundo do pulso ossudo a sua mão cheia de dedos que pareciam palhinhas. – Sou a Amante de Lisboa.