A FARDA

Vivo dias de profunda depressão.

Se quando era adolescente um dos maiores terrores da vida era pensar que teria de usar farda numa escola, porque isso poria a minha identidade em causa, hoje não sei viver sem a minha farda.
A minha farda é um perfecto Paul Smith que comprei há uns quatro ou cinco anos, não sei bem, e que me serve de segunda pele, melhor amigo, companheiro de aventuras e fiel confidente.
De tanto o usar, o forro do meu perfecto está… Digamos que… DESTRUÍDO e não sei o que fazer sem ele, porque o levei a arranjar.
O meu melhor amigo está no hospital.
Pôr um forro é uma coisa relativamente simples.
Mas demora, porque não existe nenhuma costureira que esteja impávida e serena, sentada numa cadeira, à espera do dia em que o meu casaco precisa de um forro.

Esta é uma história de amor sem fim à vista.
Foi em Barcelona que o comprei, numa loja no Born onde só entrava para babar para cima das jóias da Corpus Chrtisti e  dos óculos da Linda Farrow.
Num dos dias em que entrei nessa loja, vi este casaco e delirei porque havia o meu tamanho: XS.
Assentava-me na perfeição e tinha todos os detalhes que sempre quis num perfecto mais ainda a gola de carneiro branca amovível.
Rebentei, pela primeira vez na vida e sem pestanejar um segundo, o que restava das minha poupanças. Porque normalmente nestes casos, telefono à minha Mãe, que é uma espécie de Grilo Falante, e conto-lhe coisas incríveis, falo imenso, e depois disparo uma bujarda muito rápida do género voucomprarumcasacodedoismileurosnaofazmalpoisnao? e eventualmente acabamos por debater o assunto e terminar com o dinheiro não é teu? . A minha Mãe fala-me sobre as melhores peças que teve na vida e eu oiço e depois falamos as duas sobre como é bom encontrar aquilo de que andávamos à procura e depois eu sinto que já não há culpa em mim e prossigo para o desfalque.
O preço deste casaco foi obsceno, mas o uso que já lhe dei, compensou cada cêntimo.
Já tentei arranjar um de substituição, que fique no banco quando o meu number one precisa de descansar, mas nunca consegui.
O perfecto impôs-se, de há umas estações para cá, como peça chave e são poucos os que me apetece ter.
Na altura namorava o Rita, da Acne, mas nem a Acne vendia para Portugal, nem eu ia comprar um casaco sem experimentar, nem havia lojas Acne por toda a parte nem gente histérica com a Acne nem a Acne fabricava na China… As coisas mudaram e cresceram, e os perfectos estão por todo o lado em todo o tipo de cores e feitios, materiais e padrões. Mas não há nenhum como o meu. Porque não há. Nenhum que eu queria amar tanto como o meu.
Agora já não respondem por perfecto, são casacos estilo motoqueiro ou casacos estilo roqueiro e eu quero morrer na maior parte das vezes que tenho de ouvir ou ler tamanhas barbaridades…
Porque… Se o meu tem história, não quero contar-vos a verdadeira História do perfecto.
A verdade é que desde Domingo que não sei o que hei-de vestir. Que me custa vestir, porque me falta o meu casaco que é simultaneamente camisa, blazer, saia, calças, calções, ténis… É o meu mais que tudo longe de mim…!
Horrível.

Deixo-vos com as sugestões mais maravilhosas do mundo. Da esquerda para a direita: Lightning no. 402, da Lewis Leathers, Perfecto 218 da Schott e o Rita, da Acne.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *