As Sete Saias do Rafael

Escolhi esta fotografia para ilustrar este texto porque acho absolutamente simbólico que a Joacine e o Rafael não estejam a pisar a carpete vermelha. Foi a primeira coisa que vi quando comecei a ver esta imagem circular e continuo a olhar para isto e a pensar como é simbólica.
A imagem é de MIGUEL A. LOPES/LUSA.

Agora o texto.

Eu já sabia que o Rafael ia de saia na sexta-feira.

Não é para me gabar, mas o Rafael, que me chegou por via do manamorado André, tornou-se, desde que o conheci, numa pessoa muito importante para o debate das minhas ideias de mim comigo. Além da simpatia que tive por ele de imediato, adoro a sua forma de pensar, adoro que o Rafael seja directo e interessante e inesperado e culto. Cultíssimo. Vasto em ideias e referências e interesses e cultura popular. O Rafael faz parte de uma curtíssima franja de pessoas capaz de fazer smoothies de ideias e referências do bom e do mau, do pós e do pré, do alto e do baixo. Sempre airoso, sempre fierce. Sempre surpreendente. 

O Rafael é isto tudo e aqui há dias disse-me, depois do resultado das eleições, que a Joacine o tinha convidado para ser seu assessor. 

Para além do orgulho imenso que senti por ele, pensei: é óbvio! É claro! Tens de aceitar! E ele respondeu que nem pensou duas vezes e que aceitou logo. 

Eu sou assim, propõem-me fazer uma coisa que nunca fiz e que acho que pode ser incrível fazer? Nem penso duas vezes! Partilhamos isto, e por isso amo tremendamente o Rafael e a sua forma de estar na vida.

Sexta-feira de manhã vasculhei várias vezes a internet, logo desde cedo, para ver se via imagens, relatos e tudo o possível sobre a tomada de posse da Joacine, com o seu brilhante Assessor, o Rafael. 

O que aconteceu nas horas seguintes, nos dias seguintes e que terá culminado hoje com a ida do Rafael ao Você na TV, já vocês sabem. Saíram também artigos em imprensa internacional e um artigo interessante, no Público, não sobre a escandaleira, com sumo. 

E as piadas políticas que podem fazer-se acerca deste assunto também já terão sido todas feitas pelos humoristas e demais comentadores que sabem fazer essas piadas. Para além de não saber fazer esse tipo de graças, não tenho graça nenhuma e esse não é o ponto de vista que me interessa nesta questão da saia do Rafael.

Se calhar até já vou tarde, mas não posso deixar de comentar aquele que foi, para mim, o maior acontecimento estético do ano, no que vai de ano, no nosso país.

Começo por dizer o que me parece óbvio: o Rafael Esteves Martins é Assessor de Joacine Katar Moreira, Deputada do LIVRE.
O nome do partido político é LIVRE. 

LIVRE. 

Para quem possa estar com menos atenção, em googlando “livre”, surgem duas definições que passo a citar: 

LIVRE adjetivo de dois gêneros

  1. 1.
    que é senhor de si e de suas ações.”l. para decidir”
  2. 2.
    que não está sob o jugo, que não é escravo de outrem.

Isto para além do que vem descrito nos estatutos do próprio partido, que podem consultar aqui

E numa das declarações que fez, quando questionado acerca da sua saia, o Rafael respondeu ao DN aquilo que continua a parecer-me óbvio, mas que, passados cinco dias, continua a ser uma escandaleira. 

“Não tenho que fazer comentários sobre as minhas escolhas. As escolhas sobre o que visto são minhas e eu não respondo pelas minhas escolhas que estão dentro da lei.”

Básico. Muito bem respondido. Elementar. 

Esta é a parte em que eu acho que é tudo evidente, que tudo faz sentido, que não há nada de mal a acontecer, que está tudo bem como a música do L’Artiste com a Carolina.  

Agora vamos à parte sobre a qual me apetece reflectir convosco.

Quando compilámos o episódio do ARMÁRIO sobre o Corpo Feminino, falámos com muitas pessoas, uma delas Pê Feijó, via Skype, e a conversa foi incrível. Uma das coisas debatidas na conversa foi o vestuário feminino e aquilo que este não permite fazer. Uma das partes da conversa foi sobre saias e sobre como a saia, que é tão libertadora e fluída e permissiva para quem a usa, também é este elemento horrível do atribuído ao vestuário dito feminino. Muito curta é isto, muito comprida é aquilo, não se pode abrir as pernas porque se vê as cuecas, yadda yadda yadda. 

A saia é um problema. 

A saia, que é a evolução do pano atado à cintura para prevenir que se mostrem as partes, é uma das peças de vestuário mais antigas da História, que terá sido eliminada do trajar ocidental, mas que se mantém como peça de vestuário de muitos homens em muitas culturas extra-ocidente. 

E encontro aqui o meu primeiro problema com o problema da saia do Rafael: um problema da ausência de mundividência. A saia num homem, esse escândalo, é uma anedota por si só se deixarmos de pensar na definição de “homem” e de “saia” ocidentais. É urgente deixar de pensar nesta ideia unívoca de mundo e de centro, porque – HELLO-OH, já não há apenas um centro! E isto deve custar muito, especialmente em tempos e templos de cristalização de seres e estares. 

Depois gostava muito de explorar o facto da Joacine se afirmar como feminista e do seu Assessor, no primeiro dia de hemiciclo, estar de saia. Estar de saia, aqui, é um acto político. Não há dúvida disso. Mas é um acto político e revolucionário que nada tem de afirmação excêntrica ou provocação vazia. O acto político em si é uma ode à liberdade que o LIVRE defende e advoga, mas é também uma forma do Rafael demonstrar a profunda solidariedade que tem para com a luta feminista. É queer e ainda bem que o é, porque, e atendendo à brutalidade que foram os resultados destas eleições legislativas, atendendo a que quem ganhou foi a abstenção e nenhum partido nem candidato, é preciso entender que quem votou na Joacine foi um grupo de pessoas que não se sentia representado dentro de um sistema que parece ignorar minorias, que parece ignorar quem não se vê representado em sistemas de valores arcaicos e arcaizantes. É essencial entender que quem elegeu a Joacine não espera menos que isto dela nem do seu grupo de trabalho. É essencial que se entenda, de uma vez por todas, que não são apenas os animais que precisam de um partido que os defenda e represente. 

Também era essencial entender que o Rafael é Assessor da Deputada do LIVRE. 

E lá está Portugal a fazer o que melhor sabe fazer, que é misturar alhos com bugalhos. Porque a saia, que é então este elemento altamente simbólico, foi o centro das atenções por todos os motivos menos pelo mais importante: pelo seu poder afirmativo enquanto elemento essencial no combate ao status quo

Outra coisa em que ninguém parece ter reparado, é que o Rafael levava meias verdes e sapatos Doc Martens. Os sapatos Doc Martens são, por excelência, os sapatos dos trabalhadores ingleses. E o Rafael é investigador na Faculty of Medieval and Modern Languages da Universidade de Oxford.  

Uma saia não é só uma saia. 

Não é só uma provocação.

Não é um poke do Facebook, não é um double tap do Instagram. 

É mais do que isso. 

Uma saia, bem vistas as coisas, a saia do Rafael, é LIVRE e carregada de memória e significância, é símbolo de solidariedade e de luta, é afirmação queer no entanto completamente inserida num código de regras invisível como o comprimento, a cor ou o modelo, por exemplo, totalmente aceitáveis e até um pouco conservadores, se usadas por uma mulher; é afirmação política clara porque não cede à pressão exterior (que requer um homem de fato no início do hemiciclo, claro), é a extensão de uma forma de pensar e de estar a ser. É a celebração de uma conquista extremamente importante, a conquista da Joacine, primeira mulher negra, cabeça de lista de um partido político numas eleições legislativas em território português. 

E já agora, porque a saia do Rafael é plissada e o plissado é a memória de um tecido, sim, a saia do Rafael é História, e eu sou uma humilde e feliz espectadora deste lindo espectáculo.  

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