BÉTNICA™

Afinal, em Agosto, o meu cérebro não parou, tal como desejei.
Aliás, é dia 21 e estou aqui a funcionar imenso, sem ter parado um instante.
Criei, portanto, um conceito.
Uma cena Nova.
Porque estou farta de cenas velhas, e o Velho, este ano, não se está a usar.
Como sabem, adoro estilos e padrões associados a estilos.
Um dos estilos que mais cobiço é o Beto.
Sem o “inho”, porque acho que o “inho” retira muita da potencialidade fonética, quer acústica, quer articulatória, ao termo em questão e só é utilizado pelos que, por força de variadíssimas circunstâncias, não estão, de todo, familiarizados com os verdadeiros holótipos.
Terminados os esclarecimentos, ‘bora lá.

BÉTNICA™

A Beta que pulou a cerca é a então identificada como Bétnica.
E há vários tipos de Bétnicas.
As minhas Bétnicas preferidas são as de Cidade, se bem que as há de Campo (brotam muito algures entre a lezíria Ribatejana e as planícies Alentejanas) e ainda as que se identificam como Bétnicas de Festival.
(É CLARO que me vou debruçar sobre a Bétnica de Cidade.)
A Bétnica é sempre giríssima e vem sempre com um talento qualquer de origem.
Normalmente gosta de arte e de coisas criativas em geral.
Têm, no entanto, de ser actividades exercidas com as mãos, qual artesanato, porque se há coisa que a Bétnica abomina, são computadores e tecnologia.
A Bétnica-tipo gosta, por isso, do passado.
De meter a mão na massa.
E é rebelde.
Sente-se única, incompreendida, invulgar.
É uma ilha até ao dia do Ritual de Iniciação.
O Ritual de Iniciação da Bétnica acontece por volta do início da adolescência e é quase sempre induzido através de uma Tia (das verdadeiras) ou de um parente menos próximo, o qual decide (porque consegue aproximar-se da ilha, numa jangada, com o coração nas mãos, por já ter sido assim, por se identificar, e por, finalmente, poder iniciar uma nova cadete, a sua primeira; o tribalismo implícito no Ritual de Iniciação da Bétnica é apenas possível porque nestes casos, os clãs são sempre muito alargados e porque a perpetuação dos costumes e do ovelhismo negro é um must nestas situações familiares) mostrar um álbum de fotografias mais x rated, abrir um baú com roupas malucas ou levar a sobrinha numa aventura de BMW ou Mercedes pela Costa Alentejana.
Depois deste Ritual, a Bétnica começa a existir.
Primeiro, é a cultura hippie.
Os hippies e ser hippie são a derradeira revolta.
A loucura que foram os anos sessenta!…
As fotografias, os colares compridos, os cabelos compridos…
Tudo!
Porque…
O que é que foram os hippes?!
Pessoas que procuravam a paz, a harmonia, a felicidade…
Sem conservadorismos.
A Liberdade total.
(Atenção, porque quando se fala de Liberdade no âmbito de uma Bétnica, há muito a ter em conta, em termos históricos, de linhagem, etc… Não esquecer a Reforma Agrária e o seu impacto. Porque… Bétnico sim, mas com aqueles limites…)
É da cultura hippie que se podem extrair os dois símbolos mais queridos da Bétnica: o Símbolo da Paz (aquele círculo dividido ao meio por uma linha recta, a qual, a cerca de três quartos da sua altura desprende duas outras linhas diagonais à esquerda e à direita, até à extremidade do círculo formando dois triângulos isósceles cujas bases são meio curvas) e a Hamsá, aquela mão naïf ou übertrabalhada, cujos dedos mindinho e polegar são simétricos, a qual é geralmente utilizada para afastar o mau olhado.
É através desta simbologia que podemos encontrar e identificar as linhas condutoras que definem muito bem o pensamento livre de uma Bétnica: a paz, a luta contra as guerras e os interesses capitalistas (a Bétnica vive sem pensar em dinheiro – porque normalmente esse não é um problema que a assiste, e bem sabemos todos que é a falta de dinheiro a maior causa das inseguranças do comum dos mortais; a Bétnica não se torna comunista; se se der o caso de isso acontecer, só acontece quando abandona a adolescência; até lá há muito em que pensar até chegar à política), a solidariedade implícita na alegria de se optar por um caminho livre de complicações e problemas maiores que impedem a verdadeira fruição de tudo o que as previne de ter uma boa pele: complicações.
A prova de fogo da tomada de consciência da Bétnica acontece sempre da primeira vez que vê um pobre.
É a reacção, o impacto dessa experiência que a vai definir como potencial Bétnica ou não.
Por volta dos sete ou oito anos, talvez.
Chega-nos depois o outro símbolo, muito mais interessante enquanto iconografia adoptada e o qual costuma ser descoberto depois de já se usar o Símbolo da Paz como amuleto por algum tempo (é de notar que a Bétnica mais doida vai tatuar o Símbolo da Paz; é uma questão de tempo).
É uma descoberta consequente.
A Hamsá.
Ora bem, a escolha de um símbolo ligado a uma cultura alheia (a Hamsá é uma cena do Médio Oriente), inteiramente pagão (porque de onde costumam vir, as Bétnicas são católicas apostólicas romanas praticantes, membros do coro da igreja onde aprenderam a tocar viola e a cantar; costumam também ser escuteiras e desenvolver um enorme gosto pela Natureza; é de notar que a Hamsá, tal como qualquer amuleto, está interdita pelo Alcoorão.) denota uma urgência na afirmação da Bétnica como defensora da pangeia, da inter e da intraculturalidade, da comunhão, dos valores da tolerância, da benevolência, do altruísmo.
Mas…
Acho que já perdemos demasiado tempo com factos de índole interna, não menos importantes para a definição da forma orgânica e biodinâmica com que a Bétnica se posiciona socialmente.
É certo que é essa aquisição de iconografia posterior ao Ritual de Iniciação (já de si, muito pagão) que define grande parte do modus vivendi da Bétnica, porque o exercício de aculturação neste caso funciona como o Rio Mekong – ao contrário.
A Bétnica começa de fora para dentro.
A Bétnica precisa de uma mui sólida componente estética.
E os hippies são os melhores para isso!
Do que é que uma Bétnica gosta?
Tomei a liberdade de compilar uma pequena lista, a qual compreende: túnicas, calças à boca de sino, calças do cocó (compradas num festival de Verão ou numa viagem a Barcelona – cidade preferida da Bétnica, antes mesmo de Aljezür) estampados com cornucópias (às quais estão habituadas por causa das chitas que forram as arcas cheias de antepassados de ex-Bétnicos da família), colares compridos, brincos compridos, pedras semi-preciosas (as turquezas são um must), missangas, coisas em osso e marfim, quinquilharias de todas as naturezas, latões, pechisbeques, lenços, écharpes, pashminas, sedas, linhos, algodões, formas fluídas mas sensuais, rendas, bordados, artesanato de todas as nacionalidades menos português, sandálias, botas e mais botas, os quatro elementos, o sol e a lua, a shiva, wiccas, cores vivas e muito vibrantes, tons loiros, praia, conchas, areia… FLORES… e Feiras: feiras alternativas, feiras de oculto, feiras de segunda mão, feiras de cidade de zona costeira, feiras onde façam terérés, feiras onde vendam pratas… A Bétnica gosta de ir a uma boa feira e de regatear.
Enfim, a lista de coisas óptimas para Bétnicas é interminável!
E uma das coisas que as Bétnicas mais adoram e pela qual estou certa de que se rendem a esta cena é por causa do bronzeado.
Tenho quase a certeza.
Se para a Beta corrente é essencial passar todo o ano bronzeada, imaginem para a Bétnica!.. é mais do que essencial, é uma afirmação.
É viver na e com a Natureza, o ar livre.
É receber plenamente a generosa saudação do Astro-Rei, sem impedimentos.
É dizer às Bisavós que os tempos em que se ficava pálido eram incompreensíveis.
É querer ser uma uva-passa e não ter medo disso (até aos trinta anos, porque depois é tudo em toxina butolínica).
É ser LIVRE.
A afirmação da Bétnica em sociedade é muito simples e baseia-se na manutenção de um estilo de vida alternativo q.b. onde possa comungar do melhor de dois mundos.
Embora aprecie caril e açafrão, a Bétnica nunca perde os seus hábitos de higiene com produtos maravilhosos.
Mais uma vez, é apenas depois da independência pós-puberdade que se começam a desenvolver as obsessões de cariz biológico (as quais descambam, geralmente, em aulas de ioga e compra de incensos) no que respeita a higiene e a limpeza, até lá, continuam a cheirar a Tommy Hilfiger e a Ralph e a lavar cabelos com shampoos carregadinhos de parabenos.
A Bétnica é caracterizada pelos seus familiares como uma “miúda muito original”, “giríssima”, “com um jeitinho para a pintura” ou “queda para as artes”, “gosta imenso de música, toca viola”, “lê imenso”, “agora veste-se assim como nós nos vestíamos há vinte anos”, “descobriu lá em casa da avó um baú e só veste a roupa que era minha”, “gosta imenso de teatro, hoje foi ao TEC”, “no outro dia foi ao Chapitô”… etc.
No que diz respeito à música, a Bétnica gosta de tudo.
Porque ser Bétnica é gostar de tudo.
De Vanessa da Mata a Janis Joplin, TUDO É POSSÍVEL.
E é por isso que a Bétnica vai a festivais.
Porque a Bétnica sabe curtir.
Se há coisa que a Bétnica sabe, é curtir.
Com miúdos giríssimos.
Muitos!
Mas CAUTELA!
É comum que uma em cada dez Bétnicas apareça grávida durante a adolescência.
Porém, para a família da Bétnica, isso nunca é encarado como uma desgraça, senão como uma bênção.
E também… há sempre uma criada com menos para limpar, que bem se pode encarregar da criança…!
Amigas, Amigos,
A Bétnica é uma das espécies que nunca se vai extinguir.
Sei disso porque toda a sacralização de que essa cultura está prenhe não deixará de existir.
Tudo isto porque a Bétnica é a única espécie do reino das espécies que é educada, quer sim, quer sim, com um rígido e bem fortificado sistema de valores morais, sociais e económicos bastante conservadores, os quais se arreigam de forma contundente na sua vida desde que esta começa.
Basta ir ao Careca do Restelo para uma observação rápida e muito esclarecedora enquanto se deglute um óptimo palmier e se é vítima dos olhares mais Bétnico-intolerantes de SEMPRE!
É esta a minha Mensagem de Domingo.

नमस्ते

(namastê)

3 comentários a “BÉTNICA™

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *