blogging from the underground

SINTO-ME NA CRISTA DA ONDA.
OK, também me sinto pertíssimo do descolamento de retina, esse grande mito com que sempre se atormentou quem gosta de ler em viagens protagonizadas por veículos motorizados.

Amigas, Amigos, estou a bloggar desde o meu querido iPhone 4, através da aplicação que o WordPress tem disponível para o mesmo, em pleno usufruto da internet Wi-Fi que a Rede Expressos disponibiliza a bordo dos seus autocarros. Moderno, no mínimo.

Ora bem, faço com frequência viagens até ao Alentejo, mas ainda não tinha realizado nenhuma após a migração do blogger para o joanabarrios.com. Isto porque, na ausência de tempo para escrever (a qual se deve, em grande parte, à ausência verdadeira de tempo e ao sol) e ler e fazer essas actividades do foro do estímulo intelectual, aproveito as viagens de transportes para arrumar esse departamento e posso até admitir que bloggava e escrevia muito no computador, e mais recentemente no iPad, sempre que fazia viagens iguais à que fiz hoje. Acedia, no entanto, ao falecido Blogger e ao actual WordPress pelo browser. Mas também me começou a dar um bocado de preguiça, por causa do peso na mala… E uma vez que raramente uso malas…

A partir de hoje, e dependendo de como correrá esta experiência, será diferente.
Parece-me muito que sim.

O que mais amo quando viajo de um lado para o outro, nestes dias aos quais devia chamar do demónio, é o tempo todo que me sobra para praticar people watching, ouvir música, ler, escrever sem que ninguém me interrompa… Porque, verdade seja dita, sempre adorei um certo barulho de fundo aquando da realização de tudo isto.
E também devo dizer que sim, que adoro a ideia de me estar a deslocar.
E adoro os não-lugares.
Pronto… Gosto de todas as fases do passeio: desde acordar a uma hora indecente, ao gel das unhas da menina do guichet dos bilhetes em Sete Rios (que já conheço e cumprimento com alguma intimidade – afinal já ando para trás e para a frente há uns 12 anos e nunca me rendi a viajar de carro), às discussões provocadas pelo facto do assento escolhido pelo passageiro diferir do número que o bilhete marca, à tenebrosa chegada à estação de Montemor e ao café Pólo Norte, à carrinha da minha Mãe estacionada em frente à escada e a todo o entorno com que o dia conta. A ida ao Monte Alentejano encher o bandulho com um opíparo segundo pequeno almoço….
Por exemplo, nunca houve um dia em que a minha Avó dissesse que estava bem vestida. Nem um. Hoje disse-me que gostava do cabelo à Beatriz Costa. Passado o embate inicial e as críticas ao que levo vestido, a minha Avó faz o que todas as Avós fazem: enche-me de comida, porque também estou sempre muito magrinha. A minha Avó tem um sentido de humor muito especial e pouco simpático.

Costumamos dar um salto a Badajoz. Hoje gostava de ter ido, porque quero imenso comprar a autobiografia da Ana Obregón, mas fica para depois. O regresso é sempre atabalhoado e corro sempre o risco de perder o autocarro. A sorte é que sei o número da estação de cor e quando ligo a marcar bilhete, o mesmo senhor de sempre diz que não me preocupe. O certo é que nunca fiquei em terra. E hoje descobri o nome dele, porque tinha uma placa de identificação acabada de fazer, pendurada ao peito: Luis Passe Bem.

Isto de bloggar no caminho e desde o iPhone é muito interessante para mim, que nasci e cresci no meio do mato e nunca me senti aprisionada precisamente por causa dos gadgets que o meu Pai ama e por causa da internet, que sempre tive. Quando me mudei para Lisboa, vinha muito a Montemor. Passava cá quase todo o tempo livre de ESTC. Depois fui embora e vinha pouco. Agora quase nunca venho. Montemor, como todo o Alentejo, é (uma cidade (?!?)) fantasma. Não tem comércio, não tem iniciativas, não tem serviços, não tem nada… Só tem caras conhecidas do liceu nos poucos postos de trabalho que há disponíveis. E isso para mim é muito triste, porque embora nunca me tenham sido queridos e queridas, sempre pensei que iríamos fazer coisas, porque todos iríamos ser felizes, porque todos éramos especiais. Merda a mais para a biblioteca e para o Rousseau.

Esta ideia de bloggar em andamento consegue encapotar mais ou menos a tristeza que me dá vir ver o Alentejo.
No autocarro, a melhor coisa é SEMPRE o motorista. O de hoje é novo e modernaço. Enverga um óculo de sol máscara colorido, para fugir à monotonia e uniformização da farda. É a sua independência. Aquele óculo de sol é o seu grito de Ipiranga. Calculo que agora seja obrigatório ter o rádio sintonizado na Renascença, porque há já muito tempo que não tenho o prazer de ouvir assim um mix caseiro ao gosto do Rei do Asfalto. É, no entanto, muito interessante ouvir Radiohead seguido de Amor Electro e Rita Guerra. É de pedir aos céus. Clemência.

O melhor do dia é regressar a casa com um pão do Escoural meio ratado das investidas que sofreu no caminho e dormir que nem um cachalote logo às nove da noite.

Agora já estou a chegar a Lisboa. Dói-me ligeiramente a cabeça, mas estou a amar esta aplicação! YAY!!!

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E tentei adicionar uma foto no post, e deu! Esta arte de Photochop consiste em mim, no meu cabelo e no meu óculo Miu Miu na Fontana Di Trevi.

3 comentários a “blogging from the underground

  1. Adorei.
    A minha experiência a caminho da minha terra mãe é muito parecida,desde o acordar a horas indecentes, ao “nunca trazes uma roupa decente” e até mesmo a tristeza que sinto ao ver o deserto que se tornou aquela terra .

    A franja (a verdadeira franja)? Não é uma questão de moda, mas de personalidade, não é para todos!

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