Cabeça no Cepo

Querida Moda,

Porque é que não me enviais goodies a mim?
Não entendo…
Sei que não sou uma montra ambulante, que não fotografo estilismos banais, que não sigo as tendências, que não compro desalmadamente e que sou completamente contra todo o tipo de consumo desenfreado e que não sirvo de fonte de clipping gratuita, mas… Já vinha um presentinho, não?
Ou não compro o suficiente?
Ou melhor: não mostro o suficiente?

Recentemente descobri, através de uns artigos online, postados pela própria lesada (aprendam), que uma das miúdas mais cool do universo dos blogues internacional (a Jane Aldridge) não passa de uma espécie de produto fabricado por uns pais divorciados em que o macho é endinheirado e a fêmea é ex-modelo.
Reza a lenda que a menina gostava muito de sapatos caros e, com 13 ou 14 anos, os pais pagaram um startup muito simples: 10 000,00 USD$ dos quais metade foi para a compra do domínio, design e comunicação (através de uma agência) do blogue, e a outra metade serviu para comprar designer shoes e dar assim início a um blogue, na altura, insólito.
Segundo a Jane, apaixonadérrima por moda, os sapatos são aquilo que se pode facilmente possuir de um designer de moda, porque o resto é sempre muito muito caro…
Yeah, right… A miúda anda sempre montada de tudo e mais alguma coisa…
DIY my ass! 

Em Portugal, não há moda.
Não há.
Há criadores inventivos e divertidos, muito criativos, exímios na escolha dos materiais e com confecções muito mais delicadas e exclusivas que a maior parte das que se compram por preços piores, porém, em minha opinião, às vezes domesticados pelos consumidores pouco afoitos e com tendência para seguir a carneirada.
Furar é difícil, mas o caminho faz-se caminhando.

E por mais pretencioso que isto possa soar, é a verdade.

Não existem lojas de marcas, as que existem são muito poucas, ficam ali na Av. da Liberdade, e entrar nas ditas cujas é pior que cair de saia e salto alto no meio da rua e ficar com o rabo de fora.
Espero que já tenham tentado entrar nas lojas a que me refiro e tenham experimentado essa sensação tão desagradável de ser avaliada pelo aspecto à primeira pisadela no soalho reluzente de qualquer uma.

Aconteceu-me, numa dessas lojas, ser chamada à atenção por uma funcionária por estar a tocar num vestido de seda, porque teria as mãos potencialmente sujas – CLAAAAAAAARO!…
Procurava um vestido para uma ocasião muito especial: o casamento da minha Mãe. Ouvi este reparo e fiquei verde.
Mas queria mesmo um vestido especial.
Continuei.
Mais adiante na loja, voltei a pegar noutro vestido, desta feita pelo cabide, por causa das comichões.
E os olhos maus foram novamente lançados sobre mim: faúlhas de raiva.
Mas eu estava super feliz na minha bolha indestrutível de felicidade extrema a passear pela loja sob o olhar atento e desconfiado da dita Senhora.
Parei o meu passeio quando vi a mesma Senhora, atrás do balcão, a comer um pastel de bacalhau embrulhado num bocado já amarfanhado de papel de alumínio.
E antes de começar uma conversa longa, peguei nas pernas e fui-me embora.
Também nunca mais lá entrei.

Quando se é patego, não há volta a dar.
E em Portugal, infelizente, não há mesmo moda.
Embora já seja possível ver umas senhoras de Birkin aqui e ali, outras de sapato Louboutin na calçada portuguesa e uns salpicos de boa joalharia, é raro ver algum grau de ousadia ou de genuinidade.
E parece que foi tudo comprado no piso de marroquinaria do El Corte Inglès.
Uma depressão.

No caso dos Homens, devo dizer que fico altamente espantada quando vejo um bem vestido.
Porque é difícil.
Além de que pouco ou nada têm para comprar a não ser online.
E são raros os que pensam pela sua própria cabeça, na hora de vestir.
Copiar estilos é muito mau.
E o estilo sport-chic nas variantes profissional liberaljovem executivo ou empresário cool, é de morrer.
Já não há paciência para rapazes de calçado confortável, blazer à Sá Pinto e Levi’s Engineered.
É que nem quando o Emilio Aragón era o apresentador d’El Gran Juego de La Oca e usava all star brancas com smoking era fixe, quanto mais hoje…
E depois também existem os géneros lenhador da cidade nas versões beta e alternativa e o macho séc. XVIII, que são divinais.

Sofro.

Com a pouquíssima dedicação (?), originalidade (?) ou talento (?) que o Português revela, aos dias de hoje, para a moda.
Nós que temos dos melhores alfaiates do mundo…!
No comprendo.

Tudo isto para voltar à ideia inicial dos patrocínios e dos blogues e quê.
Alguma vez alguém se deu ao trabalho de ver os arquivos dos blogues de moda mais badalados?
Nem a Anna Dello Russo era tão over the top como é hoje.
(AMO a Anna Dello Russo.)
E não é preciso ir muito longe em datas.
Basta recuar até 2006 para entender duas ou três coisas básicas, que damos por adquiridas hoje em dia.

Quando o Scott Schuman começou o Sartorialist, as fotografias eram de pior qualidade, o blogue também, e o estilo das pessoas era muito menor.
Não se descobria fashion sense em qualquer esquina, e a moda propriamente dita era para e dos que nela trabalhavam, ganhavam dinheiro e se movimentavam.
As modelos não tinham estilo e não havia uma 2:55 ao ombro de cada menina queque.
Não havia.
O fashion blogging, propriamente dito, ganha nome e começa depois.
No início era bem pior.
Porque os veículos de escoamento de um determinado look, eram ainda as páginas impressas das revistas da especialidade. E não havia uma stylist nem uma make up artist debaixo de cada pedra. E o street style era uma coisa muito Californiana, por causa dos verdadeiros amantes de vintage.
Enquanto hoje um par de wayfarer de plástico na tromba de uma jovem borbulhenta dona de um blogue que se chame qualquer coisa como amodaelinda ou eusoufashion ou polkadotqualquercoisa é descrito por uma so-called fashion insider (de qualquer parte do mundo) como vintage sunglasses, há coisa de seis anos esses mesmos óculos tinham um valor de mercado x ou y de acordo com o ano de fabrico: a partir do momento em que começaram a ser feitos na fábrica da Luxotitca, perderam o interesse para qualquer conhecedor. Isto é básico. E fico muito doente quando vejo tanta gente tão sabedora de moda em tanto blogue, quando na verdade não sabe nada e só compra se for barato ou se já tiver visto alguém.
O fashion blogging, bem como o boom das publicações online, tem caminhado a par e passo com esta emancipação dos que se vestem (toda a gente).
E é muito simples: a partir do momento em que as colecções chegam aos olhos dos pretendentes no espaço de, vá… uma semana (e estou a dilatar imenso este espaço, porque, se seguirmos as pegadas da Anna Dello Russo numa semana de moda qualquer, no fim dos desfiles ela vai ao backstage, traz os looks de passarela que lhe apetecer, fotografa-se com eles no desfile seguinte e posta no blogue dela nesse mesmo dia), é impossível estancar a produção e abrandar a chegada de inúmeras peças novas aos mercados a um ritmo alucinante (isto é, semanal).
É óbvio que a internet se tornou um meio de comunicação e escoamento de produto muito rápido e eficaz, e que o contacto diário com os meios de comunicação e com o elefante branco dos quinze minutos de fama, fez com que a manutenção de qualquer fenómeno underground seja uma quimera e que se assista a essa grande depressão que é a uniformização do estilo e o abrandamento das excentricidades…

Isto tem-me deixado muito triste.
Não é novidade nenhuma que vejo mil blogues e que a minha diversão de quando tenho os olhos em bico de ler e estudar, é ver blogues.
Portugueses, estrangeiros… Tanto faz.
Tanto nuns como noutros há muito bom e muito mau.
E depois há os medianos, que são péssimos. Piores que os muito maus. Porque com os muito maus, ainda consigo rir. Mas com os merdianos…
E fico piursa com certos fenómenos cá do burgo.
Pergunto-me se as pessoas não visitam blogues e sites internacionais.
Porque anda por aí muito decalque com papel vegetal e lápis de muita coisa que existe já há mais tempo e noutros países.
Será que ninguém vê?
Ou sou só eu que vejo?
Com tanta gente matriculada no IADE, não sabe já todo o mundo mandar três larachas em Photoshop e webdesign?
É que acho que tanta semelhança não pode ser coincidência…!?!
É que se for só a escolha dos templates
Pá, até há bem pouco tempo, eu usava um template do blogger. Sou uma naba e admito e não fui eu a fazer o meu novo blogue.
Agora é que me atirei para um joanabarrios.com e tenho um logotipo e quê…
Mas foda-se, tento fazer a minha cena.
E estou constantemente a servir a minha cabeça num prato a quem quiser.
E tenho consciência disso.

Custa-me é chegar à conclusão que são as próprias marcas que não têm uma visão muito alargada/astuta da [correcta] noção de product placement.
E dói na alma ver que o radicalismo extremo das campanhas não passa de uma mera encenação dirigida a quem quer mas não sabe, a quem quer mas não pode, a quem deseja o espírito da marca, mas não tem, ela própria, espírito.
Dói.
Porque houve alturas em que cheguei a pensar que haveria gente que queria estar sempre do contra e continuar na cena do anti-establishment e não sei quê.
Mas enganei-me.
Afinal o pessoal cabulou nos exames e, naturalmente, reteve, ZERO (the world is a vampire).

Afinal anda mas é tudo em busca de um lugar onde, pelo menos, não chova.
E de uma vida aburguesada com muito sorriso amarelo.

No fim de tudo isto, tenho de dar os meus parabéns à única blogger fixe deste país, que faz a cena dela sem se armar aos cucos.
Maria Guedes.
Felicidades, porque és óptima e tens um blogue bem feito e sabes escrever português e não queres o que toda a gente quer.
E porque foste Mãe e te manténs pragmática e desempoeirada.

Quanto a mim, não espero ovações e reduzi as minhas escritas só ao meu blogue.
Faço, finalmente, como a plebe acusa: para os amigos.
Não dissemino mais.

3 comentários a “Cabeça no Cepo

  1. Tu escreves bem. A Maria Guedes não sei. Vou saber daqui a pouco, admitindo que colocaste o link. O texto, para o meu gosto,passeia-se demais por ruelas de frivolidade indefinida…para mim. Mas é agradável ler-te. Poderias bem ter evitado o palavrão. Mas enfim… eu sou suspeito. O do costume. Gostei das mãos potencialmente sujas na compra do vestido porque, indirectamente, também lá estou. Continua, if you please.

  2. Joanita, escreves bem para c****** (desculpe Dr. Barros, não encontrei melhor medida para quantificar), e devoro sempre os teus posts. Confesso é ter ficado triste com a tua admiração pela Maria Guedes….beijinho

  3. Nunca comentei num blog, mas como leio o teu com alguma assiduidade achei que deveria dizer qualquer coisa. Antes de mais parabens, farto-me de rir(no bom sentido) e identifico-me com inumeras posts.
    Relativamente ao tema, sempre foi mais facil copiar/adoptar/importar do que fazer algo de novo, pensado e estruturado. E a coisa nao se aplica só à moda. Penso que o defeito possa ser do nosso Portugalinho, espero estar errada! Obrigado

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *