DE DENTRO

Em resposta aos inatingíveis padrões de beleza ocidental caucasiana normativa que se têm difundido ao longo das últimas décadas, a indústria decidiu dar tréguas à exausta Mulher e começar a vender uma nova ideia que viria derrubar os tais padrões de beleza inatingíveis. 
Desde há já muito tempo que ouvimos falar muito nesta coisa de que a beleza não tem de ser isto ou aquilo, isto é, a beleza não obedece a regras pré-estabelecidas por ninguém a não sermos nós próprias, e que a verdadeira beleza vem de dentro. 

É agradável, de facto, ouvir ou ler isto. 

Porque é. 

Relativamente à relação com a indústria da Beleza, a Mulher passa a ser soberana de si própria, o que é extraordinário e profundamente inédito. Do ponto de vista comercial, melhor ainda é que isto da beleza vir de dentro vem mesmo a calhar para uma sociedade que se quer a evoluir muitíssimo no sentido de esbater cada vez mais cânones binários e identidades de género estanques. 

Nada é mais fluído e abstracto que a ideia de “dentro”, verdade? 

Das muitas publicações acerca destes caminhos de mudança “desde dentro” que existem por aí, confesso que possuo bastantes e que as li de fio a pavio. Das mais incendiárias às que têm como objectivo reabilitar a ideia de “eu”, passando pelas hiper-radicais, portuguesas, estrangeiras, hemisférios norte e sul, já fui a um pouco de cada uma. Porque estou muito empenhada numa questão que me atormenta, sem tirar o sono (e isto é mesmo importante referir aqui), que é esta: se a beleza vem de dentro, o que é que temos de ter dentro? 

Começo por dizer que sou e não sou permeável ao marketing, porque acho que consigo escolher os momentos em que me deixo levar e os que não. 

Acho. 

Ora bem, se lermos o rótulo enquanto estamos sentados na sanita (um hábito que se perdeu para o scroll no Insta…), vemos que “Beleza” enquanto conceito comercial possui marketing na sua composição, vai daí decidi reunir os elementos que uma pessoa tem de ter dentro para que a beleza se percepcione por fora, e esmoreci. 

Assim muito resumidamente, a pessoa tem de ter por dentro coisas concretas e abstractas, portanto dois conjuntos de coisas. Umas que se compram, outras que também se podem comprar, mas que em bom rigor uma pessoa tem de trabalhar para ter dentro. 

Das coisas concretas, a lista é mais ou menos fácil de elaborar, e até é divertida. Começa-se sempre pela alimentação, que se quer saudável e cheia de antioxidantes e vitaminas e sais minerais. Com mais peixe e menos carne, de preferência sem carne, de preferência sem carne nem peixe, sem lacticínios, sem glúten, sem açúcar, paleolítica, com café ou sem café, com muito chá verde ou sem. Com acelgas e kale, definitivamente. Espelta, muita espelta, frutos secos, baixo teor de sal, óleo de côco e azeite virgem extra. Biológico, tudo. Com ovos, mas também sem a gema, só com a clara. Gengibre e curcuma à descrição, água com limão, quente e à temperatura ambiente, com hortelã e beringela, mas também com pepino, com ananás ou qualquer outro elemento altamente diurético que ajude a drenar e evite a retenção de líquidos, porque retenção de líquidos não é bonito de se ver, não Senhora. Evitar alimentos processados a não ser que sejam suplementos em pó que depois se transformam em panquecas ou outras coisas para comer e manter uma alimentação e consequentemente, corpo saudável, o que em si é um contra-senso, mas que é assim que se empacota e “vende” nesta quimera das coisas palpáveis que fazem parte da lista de coisas concretas da busca beleza desde dentro. Não esquecer o jejum intermitente de doze a catorze horas, mas também, não se esqueçam de comer de duas em duas horas, sempre snacks saudáveis, mas nunca em excesso. 

Esta lista pareceu-me absurda até começar a elaborar a lista das coisas abstractas para alcançar a beleza desde dentro. A Felicidade. Paz de espírito. Noção absoluta do eu, do que se é enquanto indivíduo, daquilo que se gosta, daquilo que faz feliz e triste, do que dá prazer e não, do que alimenta e faz crescer, do que é tóxico e não contribui para o crescimento interior. A partir dessa percepção do eu, é essencial conquistar uma existência plena de harmonia, capacidade de respeitar o eu e de trabalhar o eu com o mundo. Na vida, no amor, no trabalho, no ginásio, na praia, na piscina, no sunset, no café, no supermercado, na feira biológica, nas redes sociais, no ecoponto. Por dentro é preciso que haja espaço para meditar, capacidade infinita de perdoar o próximo, vontade de ser cada vez melhor, de aceitar a vida como é, o destino como surge e de sorrir. É preciso ter a capacidade infinita de sorrir com as coisas pequenas, de superar as agruras quotidianas, de estar acima dos problemas menores; é preciso olhar para o sol e agradecer a sua luz e calor diários. É essencial dormir bem, pelo menos oito horas, durante a noite, que começam idealmente hora e meia depois do último contacto com um dispositivo electrónico, o qual deve sempre ficar longe do quarto, porque o quarto deve ser o santuário do sono limpo e puro e reparador. 

Pronto. 

Assim muito resumidamente, é isto que faz falta uma pessoa ter dentro para se ver bela e despojada por fora. Dois parágrafos que propõem uma forma de estar fracturante para com aquela que conhecemos até hoje, porque tudo aquilo que andamos a fazer está errado. Porque a beleza não é de aplicação tópica, mas sim uma construção utópica do estar a ser. 

Quem apregoa assim que a beleza vem de dentro e que está ao alcance de todos e que é fácil levar a cabo essa mudança não está a ser honesto e não nos está a ajudar a combater o marketing violento que povoa o imaginário das últimas décadas e consequentemente a construção dos tais ideais de beleza inatingíveis. Aliás, aquilo que se está a vender é que a tal beleza que vem de dentro é, mais uma vez, exclusiva e impossível de atingir, por razões óbvias. Isto ainda me parece mais perverso se pensarmos que esta ideia está subjacente a uma série de produtos que nos são apresentados todos os dias com o intuito de nos ajudar a cultivar o interior, para que se veja por fora. E vou sempre mais longe para ir sempre à procura de mais uma pergunta: se é “por dentro”, porquê a obsessão com o “por fora”? 

Como estão os vossos interiores? 

PS – Recomendo ouvir estamúsica das TLC.

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