ELAS DEPOIS DÃO DE SI

É uma das maiores armadilhas de sempre e já todos caímos nela, pelo menos uma vez.
Tal como as frases do Yogi tea, em dias de compras tendemos a acreditar em balelas, em vendedores e nas suas palavras, esquecendo por completo a relação de anos que temos com o nosso corpo, com as nossas preferências, com os nossos complexos e com a nossa figura.

Quantas vezes não nos aconteceu já experimentar um número que não nos serve e não admitir e viver mal com isso?
Quantas?!
Milhares, não é verdade…?
Pois bem, e quantas vezes, em lojas onde se pratica uma espécie de venda assistida, não tentámos já enfiar as carnes num número impossível até ficarmos vermelhos de esforço e ouvir o crack típico de quem acaba de rebentar um fecho ou destruir uma ilhós porque fomos demasiado orgulhosos para levar o número acima para o provador?
Porque é que nunca experimentamos coisas que nos ficam grandes?
Porque é que o acidente descamba sempre para o embaraço?

Ontem decidi vestir aquelas que são as minhas calças preferidas e lembrei-me desta história, a qual estou segura que encontra primas e parentas um pouco por todos os armários deste mundo:

Berlim, Münzstrasse, seis da tarde de um Setembro.
Entro na loja da Acne e quero apenas e só comprar mais um par de needles em preto.
Mas é no momento em que as procuro que vejo as calças mais perfeitas que alguma vez vi: ganga clara, moles, sem elastano, super mega skinny. Emocionada com esta descoberta, pergunto à rapariga com quem já falei muito e muitas vezes, se posso experimentar as needle em preto e aquelas também.
E o tamanho?
As needle que eu levei eram um 26, mas as outras… Não sabia… E ela disse que o 26 também seria a escolha acertada; que me trazia um 27, mas que tinha a certeza absoluta que eu era um 26.
Ter a certeza absoluta de eu ser um 26.
Comecei por experimentar as needle, que tinham um problema com o tecido que era um tormento duro e stretchy que comprimia as carnes mais do que o necessário e/ou permitido por lei. Um tecido duro que só visto, género alcatrão para vestir, meio encerado, que criava sulcos onde as pernas não fazem ricochete e cuja resistência causava ligeiras náuseas. Entre o 26 e o 30, nenhumas needle pretas me estavam a fazer sentir divina e encostei-as à box.
Passei para as outras, já muito vermelha e muito pouco paciente ou passível de convencer.
Peguei nas calças em negação pura e comecei por enfiar as duas pernas nos dois cilindros de ganga que constituem as pernas das calças até aos joelhos. Rezei cerca de três terços inteiros em menos de um segundo, respirei e peguei no cós inteiro (nunca nas ilhoses, não vá o Diabo rompe-las) para empreender o meticuloso trabalho de enfiar o rabo nas calças e tentar fechá-las com algum sucesso.
O milagre deu-se e eu entrei nas calças sem esforços de maior.
Eu na altura estava muito magra.
Agachei-me e levantei-me para testar a capacidade de me movimentar dentro das ditas cujas e saí do provador, para encontrar a rapariga, que estava à minha espera quase com uma banda e majorettes, para me comunicar que estava óptima, super gira, que estas calças pareciam minhas há dez anos e que eu parecia a Patti Smith. E eu que nem nunca fui muito fã da Patti Smith, ou dei grande crédito a pessoas alheias à minha pessoa, não sei por que raio acreditei naquilo, deixei-me encantar e quando dei por mim já estava na Potsdamer Platz a caminho de casa, com um saco cor de rosa na mão e menos três dígitos na conta.
“Elas alargam. Alargam pelo menos um número.”
E ali estava eu, em frente ao Sony Center, a pensar para os meus botões que credibilidade teria a rapariga da Acne para me dizer que eu parecia a Patti Smith… Sim, porque se vês uma pessoa de casaco de cabedal, podes sacar referências assim e completar uma venda. Eu sei!… Eu já fui vendedora numa loja onde ganhava à comissão! E sei que a cultura geral é maravilhosa para ajudar nos processos de conclusão de uma venda satisfatória. Sei disso tudo. Mas também sei – e sabia – que não uso calças de ganga clara porque acho que tenho um rabo enorme e que isso só me vai desajudar no processo permanente de o disfarçar!!!
MAS ONDE É QUE EU TINHA A CABEÇA?!?

Até hoje, nesta relação entre mim e as flex, a única coisa que alargou fui eu.
As calças nunca alargaram, e não foi à falta de as vestir e de tentar mexer-me imenso com elas.
Nunca foi por aí.
Ontem vesti-as.
Passado um quarto de hora já estava a ter ataques de pânico.

E pensei em quantas pessoas terão sido engrupidas por tanto vendedor por este mundo fora por causa de umas calças que eles prometem vão alargar, porque o tecido dá sempre de si.
O tanas!
É certo que as fibras mudaram, que os tecidos hoje em dia são diferentes e que é possível que, devido à qualidade inferior dos materiais, tudo dê de si, agora… Entrar miraculosamente num 26 e achar que é possível praticá-lo na vida real… Isso já é mais complicado!…
E compreendo que há momentos de fraqueza em que queremos muito ser um 26, porque um 27 já é quase obesidade mórbida, mas não é possível acreditar em tudo o que nos dizem e muito menos nos espelhos das lojas.
Fica aqui este momento MÃO AMIGA, este momento em que podem partilhar também as vossas aventuras na terra dos números da roupa e falar daquele dia em que compraram com o intuito de motivar uma dieta, ou pelo preço apetecível, pela incrível proeza de vos ter servido ou pelo simples facto do crack se ter revelado impossível de disfarçar.
Mais do que um blogue, isto é  um espaço de reflexão e auto-ajuda conjunto.

BOM FIM DE SEMANA.

3 comentários a “ELAS DEPOIS DÃO DE SI

  1. Com roupa não me lembro de isto me ter acontecido – tenho tendência a levar para o provador tamanhos BEM grandes e depois fico lixada por ter de voltar a vestir-me e ir buscar numeros abaixo. Mas com sapatos e com botas, ui ui. Ah e tal, o cabedal depois dá de si, eles aumentam sempre um tamanho, ah isso com um ou dois dias de uso vai ao lugar… bom, era ver-me a cair na conversa como se não houvesse amanhã. Felizmente já me deixei disso, e no Verão até me aconteceu o contrário: a comprar um sapatinho da nova colecção, depois de ter passado uma hora a calcorrear ruas e ruelas, o 37 parecia-me um nadinha apertado “Ah mas isso alarga, a pele do sapato dá de si.” diz a vendedora, e eu, chica esperta burro velho toca de ir buscar o 38. Resultado: como tenho um pé maior que o outro, no direito a coisa aguenta-se, no esquerdo, a cada passo que dou o sapato fica pelo caminho de tão grande que está…
    http://fashionfauxpas-mintjulep.blogspot.com

  2. Pessoalmente sou uma vítima recorrente da “incrível proeza de vos ter servido”; tamanhos análogos aos que descreves mas comprimidos em (imagino) menos meio metro de altura, o que exacerba o efeito “um 27 já é quase obesidade mórbida” (neste momento a minha solução é uma dedicação às calças de pinças. Em 27)
    Mas queria falar de outro assunto inteiramente diferente: como é que uma pessoa que escreve tão bem como tu tem um link para o seminário sol?? No outro dia li uma revista do dito e todas as páginas tinham erros gramaticais – todas. Sem excepção. Uma incrível proeza ainda mais deprimente do que as skinnies todas no meu armário.
    No mais, parabéns pelo espaço de reflexão; adoro visitá-lo.

  3. Revi-me neste post.
    No meu caso não foi um erro de tamanho mas sim de corte, cor e … onde é que eu estava com a cabeça, senhores?!
    Quando a maldita pergunta nos bate na cabeça antes sequer de termos chegado a casa, é certo que já não há volta a dar… aquela peça nunca vai resultar. (até rima!)

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