ENTREFOLHOS

Uma das minhas obsessões no que respeita a indumentária das gentes é a perfeição com que assenta no corpo – ou não – aquilo a que muito modernamente agora se chama o fitting.
Ora bem, o fitting é, em última instância, a única coisa que interessa verdadeiramente na hora de decidir usar a peça X ou Y.
No caso das senhoras, o cuidado deve ser permanente e crescer proporcionalmente à idade.
No caso dos senhores, tudo é mais desculpável, tendo em conta o que é a evolução do vestuário, etc, etc, etc.

Desejo muito debruçar-me sobre as escolhas femininas.
É sabido que a Mulher é menos firme que o Homem, que os corpos e as suas morfologias são muito distintas, que as carnes são muito mais baldonas e que há partes do corpo que se sobrepõem a outras quando menos esperamos.
A Mulher incha por natureza em certas alturas do mês e o seu corpo altera-se muito mais que o do Homem.
A Mulher tem ainda o peito para domar, o qual não vem só: vem com as costas e o resto do revestimento da caixa torácica, o qual gosta imenso de armazenar xixinha.
Ser Mulher não é muito fácil.
Até porque não se pode entrar no Universo da ginástica extrema, sob pena de se ficar com braços à la Madonna circa 2009.
Pode, no entanto, não ser conflituoso, tornar-se mais pacífico ou ser magnífico.
Não adianta o boicote próprio.
De nada.
A História oferece imensos relatos que o nosso quotidiano confirma: a Mulher sempre foi muito ágil a descobrir e encontrar formas de ser bonita e de corresponder a determinados ideais de beleza.
Para quê destruir tudo agora?!?!?!

A democratização da Moda tornou muito fácil o acesso a peças de estruturas, modelos e cortes mais complexos que os do pronto-a-vestir comum, os quais não se coadunam com os materiais de que são fabricadas. Isto é, há determinados modelos que, dependendo do material com que foram confeccionados, podem ou não resultar.
Grande parte do resultado dessas peças produzidas em modo barato passa pela aquisição de roupa interior adequada.
Isto porque a democratização da Moda, esse processo de fácil e muito acessível chegada do comum dos mortais à interpretação mimética da Moda passa pela reprodução em série e a baixo custo, o que implica um investimento inferior em acabamentos, materiais e revestimentos.
O resultado? As escolhas abraçaram o exterior e apostaram na anorexia massificada. O forro das saias e dos vestidos perdeu-se. Os materiais são translúcidos. As costuras notam-se. Os corpos ficam vincados. E é tudo mau.
O motivo pelo qual os vestidos e as saias, bem como algumas calças e a grande maioria dos casacos, têm forros ou revestimentos, é por causa da forma como os tecidos assentam, posteriormente, nos corpos ou em cima de outros tecidos. Está tudo relacionado com o resultado final.
O tafetá, tecido muito famoso, muito barato e disponível numa infindável gama de cores, foi em tempos o rei das boas quedas e dos melhores aspectos. Leve e maleável, fresco e obediente, o tafetá proporcionou às saias e vestidos deste mundo os melhores ares. Tudo porque estava lá, porque era um investimento seguro, um parceiro de confiança.
O que me tira do sério na Moda de hoje é precisamente a escolha da quantidade em vez da qualidade.
Porque corre quase sempre mal.
É quase sempre catastrófica, essa escolha.
Quem opta pela quantidade, regra geral, não opta pela qualidade.
O que significa que não opta pelo bom gosto e consequentemente pelo sucesso.
A taxa de sucesso que uma cueca certa, uma cinta, umas meias decentes ou um soutien tem por baixo de uma roupa barata é muito superior ao sucesso que a roupa barata fará sozinha. E por um motivo muito simples: defende a silhueta falível.
De cada vez que vejo um vestido a fazer tracção numa cueca ou a ser engolido por um elástico de soutien mais forte, morre um malmequer. Tenho a certeza. Fica tão mal, é tão deselegante…

Há dias usei uma T-shirt de grávida em tamanho XXL que costumo usar.
É de algodão, muito fresca e pendona.
Mas só é possível com uma combinação por baixo.
A combinação impede que a T-shirt-vestido se pegue ao corpo e às cuecas, impede que, quando nos sentamos e levantamos, ela seja engolida pelo rabo (o qual adquire novas formas aquando de todos os movimentos a que o submetemos) ou crie electricidade estática (mais estética, neste caso). A combinação, tal como o tafetá, está para os tecidos que se colam como o Guronsan para a ressaca: SALVA.

E é só isto que tenho para vos dizer, Senhoras.
Sejam Senhoras.
Comprem uma combinação e uma cinta, talvez também um body.
E usem-nos quando usarem vestidos menos consistentes.
Vão ver que, com as carnes seguras, ficam como a Lianor pela verdura.
Como tudo neste campo do parecer, o investimento vale a pena.
E com o interior certo, o exterior mais variado funciona perfeitamente.
Há que ter cuidado com as lavagens (o melhor é à mão e com água tépida e estendido dentro de casa) para que o investimento dure e seja rentável, mas sim, vão ver que vão os vestidos para o lixo e os entrefolhos ainda ficam!

Os meus conselhos de Mo(r)da são estes: de dentro para fora.

3 comentários a “ENTREFOLHOS

  1. Reflito no título. a entretela, aquele material que se coloca entre o folho e a fazenda, ou outros (a lã) e que está tão esquecido. Modistas há que já perguntam ao cliente: – quer entretela? agora há muito gente que não põe. – Verdade? – Verdade. Um dia colige estes textos e edita um “império do efémero” revisto. Thanks!

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