Eu é mais Outro Tipo de Cenas

Recentemente, por causa de um trabalho, foi pedido às pessoas envolvidas que cantassem uma música tradicional portuguesa. Instalou-se um silêncio muito silencioso naquele que era um ambiente de trabalho altamente descontraído. Não sabiam nenhuma música tradicional portuguesa do início ao fim. Pronto, tudo bem, adiante, então pediu-se que cantassem um fado. Também não sabiam nenhum fado. Depois então pediu-se que cantassem uma música pimba qualquer, mas também ninguém sabia uma música pimba, nem sequer um refrão, até que se desistiu da ideia e pronto, assim se ficou, até que algum dos presentes justificou o facto de não saber nada assim dentro do que lhe foi pedido por estar mais voltado para outro tipo de cenas.
Terminado esse trabalho, vim para casa a ouvir um dos meus fados preferidos de sempre, A Casa da Mariquinhas, na versão do Alfredo Marceneiro.
Costuma dizer-se que nunca se dá muita importância àquilo que temos mesmo debaixo dos nossos narizes, que essas coisas que estão mesmo mesmo enraízadas no nosso quotidiano, são aquelas às quais damos menos impotância.
Concordo.
Porque de headphones, com A Casa da Mariquinhas a ribombar-me tímpanos acima, prestei finalmente atenção à letra de Silva Tavares como nunca tinha prestado. Vinda então daquele contexto de vacuidade popular, a coisa bateu-me e desejei por momentos voltar atrás umas horas e argumentar com quem me disse que a cena que curtia era outra.
A Casa da Mariquinhas, um fado com alguns setenta anos, é uma canção do agora.
É indie, “(…) É doida pelas cantigas | Como no campo a cigarra (…)” como todos os jovens que são super indies e que povoam todos os festivais de Verão onde vão tocar mil bandas que ninguém tem tempo para conhecer. É emo “(…) Se canta o fado à guitarra | De comovida até chora (…)”. É o retrato da Mulher indepentende e livre “(…) Vive com muitas amigas | Aquela de quem vos falo | E não há maior regalo | Que vida de raparigas (…)”; é tão Senhora do seu nariz “(…) Ri das muitas, coitadinhas | Que a censuram rudemente | Por verem cheia de gente | A casa da Mariquinhas (…)” que chega a parecer feminista.
É alternativa “(…) No vão de cada janela | Sobre coluna, uma jarra | Colchas de chita com barra | Quadros de gosto magano | Em vez de ter um piano | Tem na sala uma guitarra (…)”.
A Mariquinhas é tão alternativa que “(…) Para se tornar notada | Usa coisas esquesitas | Muitas rendas, muitas fitas | Lenços de cor variada. (…)” que a ajudam a destacar-se da multidão normcore.
E é tão pobre e tão precária como os jovens de trinta anos, que se não fosse a casa alugada com mais não sei quantos amigos, as cantigas e as noites de tertúlia, estavam bem amanhados “(…) P’ra guardar o parco espólio | Um cofre forte comprou | E como o gaz acabou | Ilumina-se a petróleo (…)”.
A Mariquinhas é, afinal, actual. É uma personagem de 2015, cantada já há umas décadas, imortalizada por Alfredo Marceneiro. É o retrato de uma Mulher boémia e livre, portuguesa, que não terá mudado assim tanto. Que vive a vida que quer viver, que não tem de prestar contas a ninguém e que deseja a modernização dos costumes de bairro, que a impedem de ser quem é sem ter de dar cavaco a ninguém. Porque morar numa rua “bizarra” tem destas coisas “(…) mesquinhas | Passam defronte as vizinhas | P+ra ver o que lá se passa | Mas ela tem por pirraça | Janelas com tabuinhas (…)”.
No lusco-fusco daquela tarde de Maio, a Mariquinhas pareceu-me tão contemporânea que até me fez impressão, tornando a análise deste poema muito adequada ao tempo e ao espaço evocados nesse dia, mas também aos exames nacionais que teimam em por à prova as capacidades interpretativas dos nossos jovens, que não gostam de nada do que lhes é imposto, mas que, bem vistas as coisas, até eram capazes de vir a gostar. É tudo uma questão de forma. E longe de mim o paternalismo da evangelização das gerações!

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