FARDA MADRINHA

Tenho duas FARDAS:
FARDA 1: Perfecto Paul Smith, T-shirt a)de bandas; b)de uma só cor; c)de riscas, calças justas (preferências sobre April 77 e Acne) e Vans Sk8Hi ou botas.
FARDA 2: Vestido e botas.

A FARDA, termo pelo qual a minha Mãe começou a designar os meus combinados quando ainda era criança (desenvolvia obsessões por combinados que ainda hoje se mantêm), é a forma mais eficaz de sentir que estou sempre bem para qualquer ocasião.
Seja ela qual for.
A FARDA – tal como qualquer outra forma de nos vestirmos – é o meu escudo em sociedade.
E não podia confiar mais nas minhas FARDAS!…

Esta é a história de como a minha FARDA um dia me salvou de mim própria, da minha vergonha e da minha timidez.
É a história de como a minha enorme cautela sobre o que é que a minha roupa comunica provou a sua eficácia.
Os intervenientes desta história são muitos, mas vamos reduzi-los à Kim Gordon, ao Teatro Praga e à minha Mãe.

Decorria o início do ano de 2008 e eu vivia entre Barcelona e Lisboa.
Tinha acabado o meu primeiro trabalho profissional no TNSC e estava em casa dos meus pais a passar uns dias, antes de regressar – ou não – a Barcelona.
Nessa altura achava o máximo viver entre dois sítios, quase como se fizesse parte de uma certa canção dos Heroes del Silencio.
Estava em Montemor.
Estava a ficar em Montemor porque o Teatro Praga ia apresentar O Avarento lá e eu queria muito ver.
Também queria ver o Turbo Folk, em Lisboa, pelo que, qualquer partida para a Catalunha seria sempre posterior a isso.
Prioridades.

Era hora de jantar, e os meus pais já estavam sentados à mesa à minha espera.
Olhei pela porta e vi que a Praga estava toda sentada a jantar.
E tinha de atravessar o restaurante.
Fiquei starstruck.
Foi um momento horrível.
Os olhos da minha Mãe a ver-me e a abrirem-se ao máximo, aquelas pessoas ali e eu, atrás do vidro da porta, imóvel, starstruck.
Na minha sala de refeições estavam as minhas pessoas de sonho, que eu não conhecia, que queria conhecer e que estavam mesmo ali.
Era tudo tão simples.
Aparentemente simplicíssimo.
Mas isso implicava eu a falar com pessoas que não conhecia.
E morri mil vezes.
Quase abdiquei de jantar naquele dia.
Mas quando os olhos da minha Mãe, esbugalhados ad maximum, lhe começaram a escorregar para dentro do prato da sopa, não tive outro remédio senão entrar pela sala e sentar-me à mesa.
O meu lugar era de frente para a mesa da Praga.
Que ainda pior.

Cheia da coragem necessária, empurrei a porta de vidro.
Estava com uma T-shirt de Sonic Youth, calças cinzentas, Vans Sk8Hi.
Tinha o cabelo muito curto.

Passados cinco minutos, e atenta que é, a minha Mãe levantou-se da mesa para a sua dose de charme habitual: ver se estava tudo bem com a Praga, se faltava alguma coisa…
Eu queria enfiar-me pela cadeira abaixo, derreter debaixo da mesa e fundir-me nas chamas da lareira, atrás da cadeira do meu Pai e desaparecer, pronto.
Era o que eu queria.
Não tendo sido isso possível, tive de ir à mesa da Praga, onde a minha Mãe já tinha dito que eu tinha andado no Conservatório e que estava em Barcelona e que tinha acabado de fazer a ópera do Emanuel Nunes…
E eu só queria morrer.
Ela abraçou-me ao lado da mesa, deu-me os beijinhos e as coisas normais da minha Mãe, e eu senti-me uma não-pessoa.
Pronto.
Nessa noite fui para casa e pensei que estava tudo acabado.
Ainda assim, ia ver O Avarento.
Ia morrer feliz.
Valia-me isso.
Fui então ver O Avarento.
Saí de fininho, direitinha a casa…
… onde liguei o computador para lhes mandar um mail – LOSER STYLE.

E começou tudo aqui.
Troca de emails com Pedro Penim.
O PEDRO PENIM.

Eles convidaram-me para ir ver o Turbo Folk ao São Luiz.
Eu fui.
Eles queriam que eu ficasse no fim para beber um copo.
Mas eu estava tão envergonhada…
Ainda por cima estava lá o André e. Teodósio e o Andres Lõo…
Quer dizer…
Aceitar significava que ia morrer de AVC aos 22 anos.
Ainda assim, fiquei para O copo.
Devo ter aguentado uns cinco minutos sentada no Jardim de Inverno do S. Luiz.
Saí a correr e a fazer de conta que ia fazer alguma coisa importante (à meia noite, CLARO) e apanhei um táxi para casa… De onde… Lhes mandei um novo e-mail… (LOSER x ∞)
No email pedia para assistir a ensaios.
Só para ver.
Eu não queria mais nada.
Só queria ver.
E eles disseram que sim.
E eu fui.

Seguia-se a residência criativa do espectáculo Conservatório em Montemor, no Espaço do Tempo.
E eu podia ir, porque era de Montemor.
E fui.

E no primeiro dia, chovia muito.
A minha Mãe insistiu levar-me até ao Convento.
Eu não queria.
Já não bastava ser a pessoa mais atrofiada do mundo, ainda tinha a Mãezinha a levar a Menina ao primeiro dia de ensaios – QUE VERGONHA.
Ela insistiu e eu não tive maneira de dizer que não.
A minha Mãe não aceita um não.
Nem merece.
Pedi-lhe que me deixasse não à porta.
Apanhei um bocadinho de chuva, e mesmo assim estava a suar das mãos.

Cheguei.
As pessoas que amava eram reais e estavam ali.
A Patrícia da Silva estava no computador, do lado esquerdo, a Cláudia Jardim no quarto, o José Maria Vieira Mendes noutro computador, na mesa, o Pedro Penim na mesa, no seu computador e o André e. Teodósio no sofá com a Rita.
Sentei-me no sofá com Ele.
Só Deus sabe como é que cheguei ao sofá sem desmaiar.
Sentei-me.
A Rita lambeu-me toda e sentou-se ao meu colo.
E começámos a conversar.
O primeiro assunto foi a T-shirt de Sonic Youth.
E o que ela lhes disse.

Nesse dia cheguei a casa e agradeci à Kim Gordon.
Sempre a achei divina.
Sempre confiei nela e no que ela poderia fazer por mim, tal como fez com a Kathleen Hanna.
Sempre ouvi esse álbum em casa quando quis ultrapassar as dores da adolescência, as dores de ser croma votada à solidão.

E ontem cheguei a casa e li este artigo sobre a Kim Gordon.
E fiz share no Facebook.
E hoje recebi um email lindo de uma pessoa com uma história maravilhosa sobre a Kim Gordon.
E porque cada vez mais acredito em sharing is caring, pensei: ai, vou partilhar a minha cena com eles (que é platónica!…)!…

Por isso, aqui está a minha história com os Sonic Youth, tendo a Kim Gordon como Farda Madrinha (sim, porque ela é tudo aquilo e ainda é um Mulherão cheio de estilo. Irrepreensível.) e figura central disto tudo!
Se forem ouvintes da Radar, podem ouvir-me a dizer “T-shirt de Sonic Youth” num dos jingles – é um excerto da minha entrevista no Fala Com Ela, da linda Inês Meneses, onde contei esta história pela primeira vez.

E porque a realidade é melhor que a ficção…

 

3 comentários a “FARDA MADRINHA

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