FASHION F – Y’ALL

Este post é um bocado de uma resposta a uma entrevista à qual respondi, para a tese de mestrado de uma Leitora.
Pus-me a pensar imenso sobre algumas das perguntas que me foram feitas.
E de repente, decidi partilhar convosco a resposta à pergunta: “Actualmente diz-se que “gostar de Moda está na Moda”. Concorda? Se sim, atribui este fenómeno à Internet?” e alongar-me em alguns pontos de vista.

Cá vai:

Gostar de Moda é sintomático do nosso tempo, ou seja, é um produto da globalização e da hiper estetização do que é o tempo em que vivemos.
A Moda por si só não existe; existe quando acompanhada de uma série de outros eventos paralelos.

Ora bem, embora menosprezada por quase todos os que se dedicam a estudar, mas outras coisas, a Moda é uma das indústrias mais rentáveis do Mundo e uma das que movimenta um maior número de pessoas e que emprega outros tantos milhares.
É apresentada como um trabalho de sonho, ou agradável, ou seja lá o que for.
É bem apresentada.
É tratada como uma filha bastarda pela academia, mas é a filha pródiga da emancipação social do indivíduo.
É claro que a Moda como fenómeno de massas se deve muito ao aparecimento e popularização de meios de difusão de informação proporcionados pelo aparecimento da internet; basta pensar que há quinze anos o circuito de circulação de uma colecção entre passerelle e revistas demorava cerca de quatro vezes o tempo que demora hoje. E que as coisas tão interessantes como o street style ou o product placement eram reservadas a franjas muito exclusivas de um público muito menor do que o de hoje.
Sendo um evento de Moda um evento de natureza comercial e que está voltado para compradores e profissionais da área, o circo em torno de uma Fashion Week cresceu devido à popularização dos vários passos do mesmo processo e do maior número de pessoas envolvidas nesse mesmo processo. Se antes quem se preocupava com isto quase exclusivamente era o Bill Cunningham, hoje em dia há várias variações do mesmo género de “jornalismo” um pouco por todo o mundo.
Sim, a internet contribuiu para que a Moda crescesse e se multiplicasse muitíssimo.
O gosto massificado pela Moda é, no meu entender, o casamento entre um desejo de perfeição estética no acto da supressão de uma necessidade básica – que é a de cobrir o corpo – e o crescimento desmesurado de uma indústria cada vez mais complexa, desigual e monstruosa, alimentada por amadores e profissionais, por estudantes, artistas e curiosos.
Por contar com uma produção cada vez menos dispendiosa e pelo facto de estarmos a tratar de uma razão comercial básica entre oferta e procura, sim, é possível dizer que a Moda está na Moda. Basta pensar simplesmente que, se cada marca precisar de produzir um lookbook, esse lookbook vai precisar de, pelo menos, um modelo, um maquilhador, um cabeleireiro, um fotógrafo, dois assistentes e um stylist… Multipliquemos cada uma destas pessoas por uma família e vejamos quantas pessoas estão envolvidas nisto: imensas.
A noção de espectáculo é altamente transversal e sim, contribui para o crescimento e popularização da Moda.
A Moda é bacteriológica: está ao alcance de toda a gente e toda a gente está exposta a dispositivos difusores de Moda, pelo que é muito fácil que se alastre cada vez mais e que chegue a muito mais gente.

Isto tudo para concluir que a Moda está definitivamente na Moda e que é nesta altura que isso salta mais à vista.
E porquê?

Também me intriga muito a cobertura dos eventos de Moda por parte daquela espécie reivindicativa que são os bloggers. A sua grande ansiedade em obter passes de imprensa e backstage, a sua ânsia por estar, aparecer, ir ao photo call e receber o goodie bag.
Uma raça híbrida, o blogger não é nem modelo, nem celebridade, nem stylist, nem opinion maker, nem trendsetter, nem nada. É tudo e não é nada. É uma espécie que reivindica um lugar e direitos, que em alguns casos já os conquistou, mas que é incatalogável. Pelo menos por agora.
Ainda assim, não me intriga do ponto de vista do interesse que os bloggers queiram participar nos eventos, intriga-me antes o facto dos bloggers pretenderem uma cobertura exclusiva, cujo ponto de vista interessa apenas ao seu círculo de incidência.
Porque parte de ser blogger resiide na criação e manutenção de um círculo de seguidores e fãs que seguem uma personalidade que não é nada, mas que é, no fundo, tudo. Está identificada a arma de um blogger.
O ponto de vista do blogger num evento de Moda é o seu mesmo ponto de vista de sempre, daí que a cobertura de um evento por um blogger só interesse se o seu ponto de vista do for realmente interessante e desperte novas questões semânticas, hermenêuticas, estéticas… Não sei… Digo eu!… Porque… É claro que, se for para disseminar colecções, não recorro a um blogue e às más fotografias tiradas da third row com péssima luz. Prefiro ver no style.com. No entanto, se consultar um blogue interessante, com coisas interessantes, com comentários e uma opinião verdadeira sobre as colecções e o evento em si, acho óptimo. Nesse caso sim, o blogger, figura-chave naquilo que são as Cruzadas da Moda, pode ter sido um dos grandes responsáveis pela pergunta que a Leitora me fez. O blogger como pregador, como pastor amador de uma religião. Sim. Acredito muito nisso e na forma como a figura híbrida do blogger pode evoluir para empresário, ou  para tantas outras profissões que derivam de um percurso.
E também acredito que o tipo de jornalismo de alguns bloggers tenha feito com que algumas publicações de Moda, secções de Moda e afins, pareçam obsoletas, desinteressantes e pouco interactivas; mas lá está, cabe a quem tem mais recursos que um blogger, suplantá-lo. Ainda assim, o blogger tem a liberdade de expressão e a possibilidade de veicular a sua persona no exercício da actividade informativa, coisa que o jornalista não tem, pelo que estamos sempre perante um jogo muito desequilibrado entre imprensa convencional e bloggers.

É por isso que às vezes me interpretam mal, e não posso não compreender essa parte da má interpretação.
Os bloggers são provavelmente os maiores porta-estandartes da ideia de que a Moda é global e para todos.
De forma muito errada.
Só que, mesmo na condição de blogger, o indivíduo tem de saber qual é o seu lugar na cadeia “Moda” e posicionar-se de forma inteligente, destacando aquilo que tem de melhor e de pior.
O Olimpo dos blogues está longe da realidade portuguesa, onde lamento, mas não consigo acreditar no blogue da Cristina Ferreira, no da Pipoca ou no da Mini Saia. Lamento mesmo. Porque não são de opinião, são meramente informativos. São passatempos, cópias de press releases ou tomadas de posição com pouca profundidade de conteúdo, pelo que não me interessam.
Também não consigo entender os blogues de retratos de indivíduos em produções de Moda caseiras, porque… Pronto… Não dá… Até porque a natureza híbrida do blogger aniquila imensas coisas à partida e destrói, consequentemente, o virtuosismo da Moda.

A internet é tramada neste campo.
No das decisões.
E por isso é que, para a Moda continuar a ser Moda, mesmo que global, é necessário estar muito atento à internet e ao que circula pela internet.
É interessante ver blogues e ler blogues.
Entender as opiniões e as pessoas que existem por detrás dos blogues.

D&G S/S14 

2 comentários a “FASHION F – Y’ALL

  1. Mas o que o comum dos mortais menos quer é ouvir a opinião de quem está por detrás do blog, entender essa opnião, ou mesmo entender essa pessoa – maioritáriamente, quer mesmo é DESentender essa pessoa e a sua opinião, que é para abrir o barraco, esculhambar, mal falar e ostracizar se possivel – a não ser em casos já de status quo, de “grandes bloggers portugueses” com “grandes blogs” que dizem 3 ou 4 baboseiras e são aplaudidos de pé como se tivessem contraposto em equações a teoria da relatividade. O que o comum dos mortais quer é a papinha mental toda feitinha e dizerem-lhes o que devem pensar e não questionar muita coisa, carneirar ao máximo. Aliás, viu-se nestas eleições. Foram o retrato do país, e podem ser aplicáveis a toda e qualquer área que não seja casas dos degredos e bigues brêdas.
    http://fashionfauxpas-mintjulep.blogspot.pt/

  2. Olá Joana,

    Acho que era interessante saber que blogues são esses que tu gostas, segues e acompanhas, bem como mulheres/raparigas que te digam algo sejam conhecidas ou não, seja em estilo, atitude ou personalidade! 🙂

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