FÉRIAS GRANDES

Odeio gatos e sei que ao afirmar isto estou a comprar um moitão de inimigos e inimigas, mas pronto, há riscos que vale a pena correr.

Ontem enquanto fazia pesquisas de atrasada mental na internet, encontrei essa imagem aí de cima e morri a rir. Pu-la no meu Instagram. Não aguentei. Porque foi das coisas que mais me fizeram rir nos últimos tempos, por causa do que me lembraram: as Mães nas Férias Grandes.

O cabeleireiro é uma coisa vagamente vulgarizada hoje em dia, tal como o gosto massificado por Moda, Fotografia ou Design. Mas há uns quinze, vinte anos atrás, uma ida ao cabeleireiro significava um investimento e uma armação capilar posterior que tinha de durar, pelo menos, uns três dias impecável. Há mitos urbanos que relatam histórias de senhoras que dormiam sentadas nos dois dias seguintes à ida ao cabeleireiro para não desmanchar o arranjo. Consta que uma tal Tia Sofia (que cheguei a conhecer), era dessas…! Os arranjos, se bem me lembro, eram normalmente permanentes carregadas de amoníaco, para secar com um difusor e carregar de produtos químicos (muito antes desta obsessão com os parabenos…) que as pusessem em riste. Palavra de ordem, volume. Havia as popas e as franjas ripadas e as franjas enroladas em onda como a da rotunda da Ericeira, e havia aquele pente que tinha dentes finos de um lado e cinco dentes metálicos do outro, saídos de faces com orientações opostas. Esse pente lembrava-me o Hellraiser e eu tinha medo só de o imaginar. Ainda hoje mexe comigo. O grand finale da ida ao cabeleireiro era a aplicação proeminente de laca, qual pulverização num milheiral. Em dia de cabeleireiro, os cabelos das Mães chegavam a casa uns dois segundos antes dos seus corpos, e aquilo não era para estragar. Não havia comentários depreciativos nem de natureza nenhuma, na verdade. Essa é uma manifestação do hoje e do agora. Antes não havia nada destas urgências opinativas do ponto de vista estético individual. Confiaríamos mais em nós?!?

Parte da programação da ida ao Algarve nas Férias Grandes passava pela marcação no cabeleireiro e do reforço extra no arranjo de cabelo, que teria de aguentar o máximo de tempo possível, porque nenhuma Mãe que se prezasse iria estar na praia com um cabelo mau, muito menos iria visitar um cabeleireiro que não fosse aquele que frequentava há, pelo menos, vinte anos.
Toda este logística implicava uma gestão difícil e incompreensível para todo o tipo de espectador, normalmente composto pelo agregado familiar, o qual aguardava paciente o regresso da Mãe em causa para “arrancar”. Ersta era uma coisa pessoal e intransmissível, apenas partilhada, talvez, pelas Avós, mas eram poucas as Avós que iam à praia e atentavam em toda esta encenação. Por isso, na bagagem, as Mães levavam o secador e a laca, uma escova de enrolar e o pentinho Hellraiser. Ao quinto dia de praia, caía a armação e era um vê se t’avias…!

Lembrei-me disto tudo por causa desse gato encharcado?
SIM!
E porquê?
Porque me lembrei da natação muito sui generis que a minha Mãe praticava para não desmanchar o cabelo, quer estivéssemos na praia ou na piscina: o pescoço completamente tenso e em riste proporcionava movimentos toscos dentro de água e uma deslocação algo deficiente, mas uma cabeça impecável – qual busto – esculpida, penteada, maravilhosa. Às vezes havia um lenço ou um turbante a proteger a obra de arte que a Francelina lhe fazia na madrugada antes de partirmos de férias. E se dentro de água aquilo me irritava porque destruía muitas das hipóteses de brincar com a Mãe que era a Mãe mais fiche de todas as Mães da Terra, do lado de fora, a imagem era a de uma Diva à qual só faltava caminhar sobre as águas.
A nossa diversão era, claro, chavascar o mais possível e tentar criar as maiores vagas na massa de água para destruir os capacetes das Mães e encetar então processos de brincadeira que implicassem o demolhar do escalpe. De cada vez que se molhava o escalpe de uma Mãe em Férias Grandes, morria uma sardinha. Tenho a certeza. A avaliar pela ira, pelo horror, pelo tempo perdido, por todo o tipo de má onda e pela não compra da bola de berlim com creme quando passava o senhor, uma Mãe em Férias Grandes era para não atazanar nos primeiros dias. E havia mil técnicas, mas essas só resultavam mesmo ao quinto ou sexto dia de Férias Grandes, porque o cabelo já não aguentava tanta humidade e sol e calor e salpicos e horas de almofada ou de bronze e as Mães acabavam por ceder.
Também a minha foi uma Mãe em Férias Grandes típica do final dos anos oitenta e dos noventa, com o cabelo arranjado antes da partida para o Algarve, mas era bastante mais descontraída e não se preocupava tanto com os salpicos nem com nada e as zangas duravam-lhe três minutos, se tanto, porque nós éramos óptimos todos juntos. Depois começámos a opinar e a ter uma Mãe super mega laid back e de repente mudou tudo.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

E depois, claro, porque passei o dia nos serviços públicos deste país, pensei em como para as Mães, uma ida ao cabeleireiro era uma coisa tão sagrada, em todos os sentidos, quando éramos pequenos. E em como as coisas mudaram. Porque, se hoje a vontade é a de ir ao cabeleireiro e que – POR FAVOR – não se note que lá estivemos, há vinte anos não era nada assim: tinha de se notar, tinha de ser evidente que era possível ir ao cabeleireiro, porque, antes de mais, a ida ao cabeleireiro era uma questão de estatuto social. O cabelo arranjado era poder. A ninguém era concedido o direito de opinar sobre absolutamente nada no âmbito daquela obra de arte (?!?) e ai de quem fizesse um comentário depreciativo. As coisas de Mulheres eram o Santo Graal da vida doméstica e ninguém sofria de SPM nem nada parecido.
O que é que mudou?
Porque é que queremos tanto fugir do espartilho feminino, mas passamos, simultaneamente, a vida à procura de uma aprovação qualquer do lado masculino? De que é que os Homens foram munidos ao longo de duas décadas para sermos susceptíveis às suas opiniões? E pensei, sentada num banco da Segurança Social, que a libertação feminina já era, porque nos últimos vinte anos, a libertação tem sido a masculina.

E sim, GOSTO DO MEU TEMPO.

5 comentários a “FÉRIAS GRANDES

  1. eu este ano fui uma dessas mães à conta de um alisamento. as minhas filhas consideram que eu não tomo banho na praia apesar de lhes gritar ” olhem para aqui estou ou nao estou dentro de água?” cabeça de fora não conta. evitei nadar era demasiado humilhante. acabei o verao com o cabelo liso. e com umas saudades imensas de um bom mergulho e da sensaçao de agua fresca na cabeça. parva mesmo parva.

  2. Epá há 20 anos atrás – no final dos 80, inicios de 90 – eu ia semana sim semana não ao cabeleireiro para manter o meu super bob á lá Louise Brooks impecável, e não me alembra nada dessas cenas tristes. Mas sim, recordo-me da existência delas no final dos anos 70, principios de 80, quando era eu cachopa. A minha mãe não fazia dessas, que só começou a frequentar o cabeleireiro depois de velha, mas lembro-me das mães das amigas e das vizinhas quando íamos em bando para a praia – sim, pá, cresci na linha, passavamos o tempo á beira mar. – e elas faziam essas ginásticas. Diria eu então que na verdade essas situações devem ser é ciclicas, porque se tu te lembras delas há 15 anos atrás, já eu deito-lhes 30 anos em cima. Mas gostei muito de uma coisa que disseste: “Porque é que queremos tanto fugir do espartilho feminino, mas passamos, simultaneamente, a vida à procura de uma aprovação qualquer do lado masculino?” achas mesmo? É uma pergunta genuína, atenção, não estou nem a ser irónica nem provocativa, apenas quero saber se é essa a tua opinião e se te apanhas a ti mesma a caír nessa, porque eu tenho uma teoria bem diferente acerca da libertação da mulher e da sua procura por aprovação… mas olha, enfim, se não me ri com o post do Halloween – coisa que celebro desde os 10 anos de idade, vê lá tu para o que me havia de dar, sem máscaras nem doces, apenas com enxurradas de filmes e livros de terror – com esta descrição fiquei om um sorriso nos lábios num dia que tem sido para lá de mau!!

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