it’s the SAME – old – SUNG over and over again

Ontem vi os vídeos da campanha da Samsung Portugal todos de atacado, porque não invento aquelas coisas de ai, não consigo ver… Sou um bulldozer da informação e do lixo, pelo que consigo ver TUDO. É uma das minha habilidades favoritas. Sou como uma galinha ou um porco (reminiscências de uma vida no campo) – papo TUDO.

Não refiro nomes, não me apetece, porque é tudo claríssimo, vou só falar do que me deixa profundamente triste nestas coisas.

As marcas que gostam de dar voz aos seus clientes ainda não perceberam que os clientes só o são porque foram patrocinados?
E que de outra forma, comprariam o que está na moda, ou o que outras pessoas têm?
Ou melhor, será que as marcas ainda não perceberam que as pessoas que escolhem não têm discurso?
E que isso é o maior perigo de sempre?
Quer para a marca, quer para a pessoa que escolheram?

Exemplo: a Fátima Lopes tem mesmo prisão de ventre? Nunca saberemos. Mas é boa artista. Convenceu-me sempre que tinha muitas dificuldades com o ritmo dos seus intestinos por causa de um estilo de vida intenso. E é verdade. O ritmo de vida absurdo pode dar prisão de ventre. Se calhar… Ela tinha mesmo prisão de ventre, hein?!…

É aqui que reside o maior problema dos patrocínios das marcas aos embaixadores ou bloggers ou lá ao raio que os parta.
A fragilidade extrema em que assenta o estabelecimento dessa relação.
Eu que sou contra todo o tipo de coligações de conveniência, mas que não me amofino muito, estou estupefacta com isto.
Não há ninguém que faça uma direcção criativa?
Que supervisione?
Que faça uma espécie de damage control antes deste género de coisas sair para a rua?
Não existe um cálculo de risco?
OK, existe ainda a hipótese da mega encenação, porque é sabido que a publicidade negativa gera ainda mais publicidade e procura.
Fica a dúvida?

O que me choca não é a falta de noção da realidade do país ou o discurso sobre sapatos e malas.
Isso não me interessa e por aqui tenho sido muito clara relativamente à minha reticência na continuação deste blogue.
O que me choca é que lhes chamem “especialistas em moda” e que eles se deixem vestir e maquilhar para fins desta natureza, absolutamente dependentes do que projectam através dos seus blogues.
Mil vezes a Ivânia.
MIL.
Prefiro muito mais ver a honestidade de uma rapariga assim, do que a construção de uma meta-realidade absurda e que nem sequer pode ter espaço para existir aqui neste país.
Quero acreditar que estas pessoas não pertencem a estas casas, a estas vozes, a estes corpos, a estes desejos e a estas maquilhagens…! A sério… Os rapazes perderam expressão e as raparigas entraram no ano com as sultanas deslocadas… Em vez de na boca, puseram-nas nos olhos (parece que lhes esfregaram ameixas nas pálpebras) e tiveram de pedir os desejos em vídeo.
Um especialista que se preze, não questiona a sua autonomia no exercício da especialidade.
Por isso, jamais seria concebível (na minha cabeça, claro está) deixar que alguém me vestisse ou dissesse o que é que tenho de usar como maquilhagem para falar dos meus desejos…
Porque para falar dos meus desejos, não só peço à bruta (Crida, tanta modéstia no pedir dá pena… Ensinaram-me que a pedir e a sonhar, nunca se é modesto… Tomo aqui a liberdade de partilhar este ensinamento consigo. Modéstia no que não se tem é coisa de pobre), como peço sem me sentir condicionada – aqui está o PESO da marca e o motivo que faz com que não queira nada do que podem querer dar-me.
Voltando ao especialista, não vou à minha dermatologista – que é especialista – dizer-lhe o que é que ela tem de fazer…! Não só respeito o que faz, como acato.
E tudo isto para dizer que o styling não devia ter existido nestes vídeos, muito menos a maquilhagem.

Estou-me a borrifar para o discurso.
Basta ler os blogues destas pessoas para saber que nenhuma delas tem discurso, que não podem ter discurso e que dificilmente será interessante ouvi-las.
Basta LER.
Porque depois das fotografias do egotripanço do dia X e do clipping roubado do style.com da colecção Y, há sempre legendinhas muito mal escritas, com errinhos ortográficos e gralhinhas tremendas, sobre assuntos que não interessam e cuja profundidade é equivalente à de um charco.
Já falei de algo semelhante aquando da escolha da Ivânia para o evento da H&M com a Anna Dello Russo.
De como as marcas se estão nas tintas para quem é que escolhem.
E o bloguismo está na moda e o de moda então, ainda está mais.

Se produzem os ambientes e a aparência dos interlocutores, produzam-lhes também os discursos.
Há tanto criativo e tanto copy estacionado na agência à espera de uma oportunidade para escrever, que acho que vale muito a pena dar-lhes essa oportunidade com mais frequência.
Especialmente nestes casos.

E já agora, Crida, a mala chama-se 2:55 – DOIS CINQUENTA E CINCO!
Se quiser também a ensino a acender a lareira e recomendo um bom desmaquilhante.

 

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