IVÂNIA ou GONE WRITE

Em resposta à pergunta “Mas tu não ganhas dinheiro com o blogue?!?!?!?” sai-me sempre “Não… Eu pago o meu blogue…” e pronto, a partir daí há sempre umas considerações e frases e tantas outras coisas que me fazem pensar no quão péssima devo ser na capitalização dos meus recursos, os quais são, aparentemente, incríveis.

O Fashion Blogging é um exercício estético demasiado complexo para mim.
A criação e veiculação de cartilhas estéticas que considero duvidosas faz-me rir imenso, mas é só.
Depois fico com muita pena daquilo tudo, daquelas encenações, porque nenhuma delas é real, se é que existe real. Isto talvez seja eu a falar sobre como amo e duvido do processo de mimetização do real que as plataformas de criação de conteúdos (Youtube, Wikipedia…) proporcionaram ao comum dos mortais, munindo-os de ferramentas de veiculação de novas verdades absolutas, de novos cânones e de novos arquétipos. E também das redes sociais (Facebook, Instagram, Twitter…), que também amo, e as quais permitem, através dos mesmos processos miméticos, a criação de um universo ideal, o qual é a projecção da noção de ideal de cada um. Ou seja, a questão aqui é de natureza semiótica e bastante complexa, quando analisada, mas passemos adiante.

Há dias pus um status na minha página de Facebook que dizia (UAU, eu a citar-ME!…): “não instagramo os dias em que a minha láif não tem style“. Quer isto dizer que há dias em que, nem que tente muito, consigo fazer com que haja alguma coisa na minha láif worth picturing.

Há uns dias – e porque mantenho aquilo aberto, tal como isto aqui – fiz um outro post na minha página de Facebook com o link daquilo que penso ser o blogue antigo da Ivânia Diamond.
Deu merda, claro está.
Ela viu e ficou irritadíssima, foi lá comentar e tudo.
Por um lado entendo, mas por todos os outros, não.
E é precisamente por aqui que vou.

O carácter autodidacta do universo do Fashion Blogging é de louvar: a gestão de recursos, o investimento em material didáctico, a capitalização de coisas inacreditáveis, a comunicação, a angariação de leitores e clientes, etc.
E perdoem-me todos os puristas, mas olho para a Ivânia como um caso que merece que nos debrucemos sobre ele.

O post era de um link que foi horas depois desactivado, o qual creio ser o blogue antigo dela.
A Ivânia – que não conheço pessoalmente – é uma Mulher do Norte que ama a Moda.
Como ela há milhares de mulheres e raparigas e miúdas pelo mundo fora que também amam a Moda e que se aventuram neste universo tão aparentemente fácil que é o de criar um blogue de moda.
A primeira pessoa que criou um blogue de moda nem imaginava o que estava a fazer. Espero que não esteja arrependida, como o Mikhail Kalashnikov. E que ao menos tenha patenteado alguma coisa. Porque… Essa pessoa criou a receita que todos os bloggers seguem por este mundo fora e que consiste me fazer produções de moda caseiras através da recriação da ideia de “estilo” por meio da combinação de peças de roupa próprias num look “próprio”, fotografado onde der, numa pose também ela muito “própria”. Completa-se o post com a legenda do que é que se tem vestido e esperam-se milagres. Este é o modelo que se segue em termos universais. A linguagem não requer grande aprumo, muito menos a prosa. Escolhe-se normalmente o inglês para comunicar e fazem-se links para todas as marcas que interessam.
Ganhar com a Moda nunca foi tão fácil.

Ora bem, para mim, a Ivânia é um caso de sucesso.
E aquele post, que fiz em tom irónico e jocoso e satírico e super WTF, é a prova provada disso.
Admiro a capacidade que neste caso específico a Ivânia teve de singrar num universo tão perverso como é o da filha bastarda, mas muito poderosa, da Moda, o blogging.
A batalha entre bloggers e pessoas que trabalham mesmo na indústria da Moda tem vindo a agudizar-se em alguns campos e a atenuar-se noutros. É certo que no estrangeiro alguns bloggers têm ganho muito território através dos seus blogues e da forma como comunicam a Moda. Mas são ligas diferentes, tal como no futebol. Porque um blogue é um espaço de comunicação quase que renascentista, onde a figura do criador, criativo, fotógrafo e pensador estão quase sempre concentrados na mesma pessoa, onde não existe uma edição externa, muito menos um processo qualquer de censura ou rectificação. O blogue como espaço editorial sem rede é um perigo para quem não é jornalista ou comunicador ou escritor ou fotógrafo de moda. E por algum motivo existem profissionais e não profissionais, entendidos e amadores. Em tudo. O blogging é, em suma, amador, e por isso é que as várias guerras que constituem esta batalha não auguram um fim à vista. Porque uma das coisas que as bloggers reclamam é reconhecimento. Mas… Como reconhecer pessoas sem qualquer noção de critério, sem gosto ou sentido estético, munidas de desejos não desejáveis? Se o Scott ou a Leandra são neste momento pequenas empresas com dois ou mais assalariados, isso deve-se ao conhecimento de uma série de coisas e ao acesso a essa série de coisas que a maioria dos bloggers não tem.  O mundo é injusto, é verdade, mas às vezes é bom separar o trigo do joio. No casso do blogue da Anna Dello Russo, por exemplo, a coisa é diferente, porque o blogue dela não é nem nunca foi amador, etc, etc, etc. E por agora, por cá, temos o blogue da Cristina Ferreira, o qual é altamente profissional (tem uma equipa de produção envolvida), um peso pesado que é uma clara tentativa de fazer dela uma pessoa com uma voz num mundo ao qual só pertence por causa do seu fantástico poder de compra e visibilidade mediática. UAU.

Tudo isto para chegar à Ivânia.
A Ivânia tem evoluído e ganho território e espero que esteja muito orgulhosa do que fez, porque sim, ela está a construir um império.
Suponho que não venha de um background semelhante ao de uma Pipoca e por isso admiro-a muito mais: pela persistência, pelo empenho e pelo investimento. Pela remota localização geográfica, pela constante exposição pública, pela forma inconsequente e talvez inconsciente de se por em risco perante um público altamente desconhecido. Pela quarta parede.
Ainda assim, tudo isto tem o seu retorno, e a Ivânia está, muito lentamente, a colher os frutos daquilo que começou a plantar nesse blogue antigo, em que as fotografias do post que escolhi revelavam uma pessoa na praia, com um fato de banho não muito bonito, num corpo que não é o de uma Giselle, em posições que a Tyra jamais permitiria. Um post, para mim, embaraçoso, para ela, frutuoso.
Tudo uma questão de critério.

Não duvido que todas as minhas partilhas de Facebook de fotografias e posts da Ivânia lhe tenham trazido mais visitantes, embora não tenha assim em tão grande conta a minha faceta de opinion maker.
O certo é que tanto eu como ela sabemos quem somos, só que ela acha que a detesto, quando na verdade a admiro muito.
Porque o motivo pelo qual não ganho dinheiro com o meu blogue é precisamente o motivo pelo qual ela ganha dinheiro com o dela.
E assim é.
Cada uma no seu lugar.
Eu no meu, a Ivânia no dela.
O meu é este, o dela é aquele em que há goodie bags, presenças e aparições em eventos indiscriminados, ofertas de marcas, fotografias de um lifestyle que não existe, conjuntos desadequados a qualquer hora do dia ou da noite, fotografados em paisagens e ambientes insólitos, experiências e narrativas que não me fazem sonhar e desejos que não tenho.
Mas que afinal muitas Mulheres têm.

E a culpa de eu não ganhar dinheiro com o meu blogue é minha e só minha.
Porque é claro que não sei seguir a Moda nem sei do que é que as Mulheres gostam, afinal.

Uma das coisas que me falta para que o meu blogue dê dinheiro, é assumir-me como marketeer de mim própria dentro dos padrões que Portugal aceita, requer, valoriza e precisa. É ceder.
No meu mundo, sou muito mais fiche que a Ivânia ou que a Pipoca, mas com uma diferença: não digo, não fotografo, não me exponho assim dessa forma tão imediata.

“(…) Mrs Cooper: Now you listen here, I have been telling you since you were four years old, it’s okay to be smarter than everybody but you can’t go around pointing it out.
Sheldon: Why not?
Mrs Cooper: Because people don’t like it. (…)”

in The Big Bang Theory, Series 1, Episode 04 – The Luminous Fish Effect, Outubro de 2007.

Parece-me sempre ridículo pedir a alguém que me fotografe para mostrar o quão óptima sou. Parece-me só ridículo, porque nem sequer sou muito gira. Recorro ao photobooth  com temporizador e a uma pequena corridinha para mostrar os meus outfits à única pessoa que sempre compreendeu o que visto, a minha Mãe. Mas talvez devesse fazê-lo e difundi-lo para o mundo, não?!
Porque há dias em que me sinto super L’Oréal e penso que também mereço

4 comentários a “IVÂNIA ou GONE WRITE

  1. Hear hear. Se por um lado me chocou a “marcação cerrada” que fazes á Ivânia – se calhar apenas e só pela razão que apontaste sobre o background de onde ela vem – não posso deixar de concordar em muito com o que dizes. Principalmente quando dizes “Uma das coisas que me falta para que o meu blogue dê dinheiro é assumir-me como marketeer de mim própria dentro dos padrões que Portugal aceita, requer, valoriza e precisa. É ceder.” não podia concordar mais com isto. E não podias ter descrito melhor o que sinto ahahah.

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