Limpe com um Dodot

Passando a publicidade e admitindo que há produtos cujo nome é ultrapassado pela marca que o fabrica – como é, de resto o caso do rimmel, que na verdade se chama “máscara de pestanas”, mas que foi muito popularizada pela marca de maquilhagem inglesa Rimmel, nos anos sessenta, e acabou por se consolidar  assim junto das consumidoras – não levem a mal o título nem pensem que a marca me anda a pagar para escrever crónicas subordinadas. Entendam também que é mais fácil dizer que se limpa qualquer coisa com um dodot do que dizer “limpar com um toalhete húmido” porque aí já se entra na imensidão das gamas de produtos de limpeza do lar, e não é bem isso. É só um termo popular.
Quem tem filhos sabe que a vida muda depois do seu nascimento, mas também sabe que há coisas que vêm facilitar alguns processos, como é o caso dos dodots. Qualquer trapalhada, um dodot  resolve.
Olhando assim para o panorama do que está por vir com as legislativas de Outubro, chego à conclusão que a tradição oral de passagem de conhecimento não caíu em desuso e mais, que esta tradição se estende a todos os estratos sociais, dos mais ricos aos mais pobres, dos bonitos aos feios, dos gordos aos magros. É transversal! E o que eu gosto de coisas transversais não vos passa pela cabeça! É como se cada vez que descubro mais uma coisa que une extremos, me reinventasse e enchesse de uma esperança renovada na Humanidade.
O dodot é uma coisa que todas as Mães usam, marca branca ou preta, mas usam.
E os nossos politicos, pelos vistos, também.
Lendo assim de soslaio as parangonas que todos os dias são publicadas e povoam as fileiras coloridas dos quiosques e as páginas de Facebook de amigos e conhecidos, sei que os ainda nossos governantes estão completamente a par deste truque dos dodots.
Mais do que aquelas imagens jocosas que circulam na internet com a massa governativa a encarnar personagens de ficção associadas à amnesia (Will Smith e Tommy Lee Jones em Men in Black) ou ao consumo excessivo de estupefacientes, penso nos membros do nosso actual governo e naquilo que decidiram começar a dizer aquando da apresentação do seu pacote legislativo, e penso em dodots. Penso na eficácia discursiva dos pequenos toalhetes húmidos de microfibra e na sua acção rápida e eficaz no combate às manchas, à sujidade e aos dejectos. Penso que possa ter havido uma grande falha na transmissão de conhecimento por vias que não deixam rasto e fico preocupada: porque é que, se eles não foram mães, tiveram acesso a este segredo? Quem lhes abriu a caixa de Pandora? – Perdão, a embalagem dos dodots?
E sinto-me injustiçada.
Será uma espécie de sociedade secreta?
Barreto Xavier diz que foi na presente legislature que mais se fez pela cultura – olhem, até rimei, e quem rima sem saber, já sabem, não é? Passos diz que fez os impossíveis para evitar a emigração e que é um mito urbano essa coisa dele ter dito aos jovens que emigrassem. Pedro Mota Soares diz que Portugal deu a volta ao desemprego e também diz que o FMI está enganado quanto às suas previsões e que está farto de se enganar relativamente a essas previsões.
O nosso Governo em fim de legislatura não está em negação: descobriu os dodots.

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