M is for MARQUES, A is for ALMEIDA

Ia escrever esta entrada em inglês, mas não.
Contra todos aqueles que acham que deveria escrever em inglês porque ia ter imensa visibilidade e quê, a minha resposta é: não consigo. É superior às minhas forças, porque na verdade isto só faz sentido em português.

Pelo seguinte:

Ontem foi o dia pelo qual mais esperei desta edição da ModaLisboa.
Pelo simples facto de haver, às sete da tarde, O desfile de uns Marques’ Almeida que ninguém conhecia, que ninguém ia ver, etc etc etc.
Gosto muito deles e da roupa deles e das colecções deles e reparei neles há algum tempo, enquanto procurava coisas para comprar na e-store da Opening Ceremony. Enviei um e-mail aos próprios e perguntei porque é que não vendiam em Portugal. Não vendem. Só vendem no estrangeiro. Fiquei vagamente zangada. Mas pronto. É sempre assim. Na verdade faz imenso sentido que a e-store da Opening Ceremony venda Marques Almeida, só não faz sentido é que a alfândega tenha a mania de reter encomendas vindas de tudo quanto é remetente extra-Europa e eu acabe por pagar o triplo do preço por uma peça. Não me compensa. Não compro. E fico muito zangada.

Ora bem, de todas as coisas muito eloquentes que posso dizer sobre a colecção, não vou dizer nenhumas.
Nem vou fazer um clipping piroso sobre os looks que mais gostei.
Até porque não sou fã de roupas em modelos, mas isso é outra questão.

Aquilo que vou fazer – e fiz – é outra coisa.

Cheguei ao desfile e sentaram-me na primeira fila, ao lado de uma Senhora de bengala que me fez lembrar a minha Avó Maria Joana. E até chegar ao momento em que percebi que aquela Senhora pertencia mais àquele desfile do que qualquer uma das modernas armadas ao pingarelho com camisas customizadas, looks neoromânticos e proto-góticos, mas em modo metal cristão – tudo combinado com Litas – foi um segundinho. E senti-me a pessoa mais sortuda do mundo por estar na primeira fila do desfile que queria ver e por ainda por cima me terem sentado ali, naquele mesmíssimo sítio.
No meio de tanta gente com tantas opiniões, ninguém abriu a boca, ninguém disse nada.
Foi como ir ver espectáculos com pessoas que se dizem amantes de tudo e que depois não estão à espera de nada porque não sabem nada; tudo isto, só que no melhor lugar, onde havia a melhor onda de sempre.

E percebi, finalmente, que Pais e Avós a verem as nossas primeiras vezes é a melhor coisa do mundo mundial.
Pais e Avós a verem qualquer coisa nossa é mesmo a coisa mais linda de sempre.
Por muito desenquadrados que possam parecer, eles são os únicos que podem entender tudo aquilo que por ali se passa, porque eles são aqueles que estiveram sempre lá, a aturar as nossas merdas (literalmente) desde que nascemos e demos para ali.

Lembro-me da primeira vez que a minha Avó viu um espectáculo meu.
Eu estava um bocado nervosa porque o espectáculo era doido demais para ela (achava eu) e porque tinha uma cena – comigo e com o Miguel Bonneville em que eu só dizia caralhadas do início ao fim.
E senti um constrangimento terrível por não só ser a minha pior cena de todo o espectáculo, como por englobar, também, um arraial de vernáculo do piorio.
Avisei a minha Mãe, para que ela acalmasse a minha Avó.
Estava, ainda assim, nervosa.
Foi no Teatro Municipal São Luiz.
Era o Demo, da Praga.
Enquanto nos preparávamos para a estreia, a minha Avó chegou com os meus Pais e eu estava super feliz com a chegada deles. Também estava nervosa e parva, porque o normal sempre é lixar a vida aos que mais nos amam e descarregar neles todo o nosso lixo e nervosismo pré-estreia.
O momento era muito delicado para nós: ainda nem três meses tinham passado desde a morte do meu Avô Amaro e estávamos todos tristes e ainda a habituar-nos à perda.
Especialmente a minha Avó.
E era importante uma experiência construtiva, não uma com caralhadas.
Tirámos fotografias, demos muitos beijinhos e eu fui jantar, com o maior nó de sempre no estômago.
Chegou a hora do espectáculo estrear e eu sabia perfeitamente onde é que eles iam estar sentados e vi-os e ouvi a tosse da minha Mãe, que ouço sempre, porque estes teatros têm todos carpetes e ela tem imensa alergia.
Até ao intervalo ia tudo lindamente, porque o chorrilho de palavrões era depois do intervalo.
Entrei em cena e fiz tudo horrivelmente como fazia sempre, porque essa cena é o meu maior cancro teatral de toda a História.
Depois acabou a cena das caralhadas e foi só amor até ao final do espectáculo.
Ainda assim, temi muito aquando da cena do vulcão.

Quando saí para vir agradecer aos meus maravilhosos Pais aturarem a minha vida de artista precária, a minha Avó abraçou-se a mim a chorar e a dar-me beijos.
A Mulher que nunca compreendeu muito bem o que é que eu fazia disse-me que eu era maravilhosa, uma Elizabeth Taylor. Disse-me que o meu Avô teria amado ver-me e que eu afinal era igual à Liza Minnelli.
Chorámos as duas um bocadinho.
Até que eu lhe perguntei pelos palavrões.
E ela, com o sorriso mais Avó Maria Joana do mundo e aquele olhar dos segredos entre Avós e Netas disse: “Ai, filha, nem dei por nada!…”

Ontem quando vi o desfile ao lado desta Senhora não pude deixar de lhe dar os parabéns e de lhe dizer que ficasse muito feliz, porque estava tudo maravilhoso e que eu vestia tudo, caso a ela isso lhe interessasse ou fosse relevante.
E ela deu-me a mão e um par de beijos e agradeceu e perguntou se os conhecia.
E o Luís, que estava comigo, tirou uma fotografia a esse momento.
E eu adorei tudo.
Porque é a mais pura das verdades.
E tenho a certeza que adorei ainda mais porque me sentei ali ao lado e estive, muito fémina, muito frique, a deixar que a emoção daquele momento se apoderasse de mim e me fizesse arrepiar tanto como quando vi o Turbo Folk e passei uma hora a chorar porque era aquilo que queria fazer para o resto da vida e não sabia como é que faria para isso se tornar realidade. (E eu quando amo muito uma coisa, fico doida impotente e depois isso passa e fico só impotente. Depois passo só a doida e depois, no caso da Praga, fiquei pior, porque o amor foi retribuído.)

O melhor de um espectáculo é quando ele me faz isto.
E o que aqueles meninos fizeram foi construir um espectáculo.
O melhor é quando não preciso de justificar racionalmente a minha afinidade para com o objecto.
É óbvio que o posso fazer, mas não quero, porque aquilo tudo que eles os dois fizeram é AMAZING por causa disto mesmo que me está a fazer: não querer ter palavras.

Pelo menos para mim isto é assim.
Este momento é super BFF (love you, HON), mas eu sou assim: não temo DECLARAR O MEU AMOR AOS (MARTA) MARQUES E (PAULO) ALMEIDA.
E espero que eles não me levem a mal, mas PRECISO DESTAS CALÇAS e das camisolas da colecção que apresentaram ontem à tarde e do conjunto de ganga de abertura. E dos sapatos-bota brancos e ainda do casaco branco.

Esta foi a fotografia que tirei à fotografia que o Luís me tirou e pus no instagram.

E já agora, obrigada pelo loop de abertura do espectáculo e pela música inteira no final.
Drinking in L.A., Bran Van 3000.
Ando a ouvir isto desde 28 de Outubro do ano passado, quando fiz 26 anos e estava a fazer não sabia bem o quê em Lisboa.
E continuo a não saber e a perguntar, sempre que acordo: “(…) what the hell am I, doing drinking in L.A. at 26? (…)” . Porque na verdade, não sei. Mesmo. E com a conjuntura actual, não sei porque é que insisto em ficar. Quando nem sequer posso comprar a roupa deles…

6 comentários a “M is for MARQUES, A is for ALMEIDA

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