mais uma pergunta sobre sustentabilidade

Na semana passada fui, mais uma vez, moderadora das FAST TALKS, da ModaLisboa, onde rolou uma conversa magnifica sobre impacto positivo e, naturalmente, sustentabilidade na Moda. 

Hoje em dia é impossível começar um debate sobre Moda sem que falemos de sustentabilidade, de impacto positivo, de upcycling, de reciclar roupa, de dar uma segunda vida à roupa, de customizar, trocar e evitar comportamentos de consumo que não respeitem o ambiente, que compactuem com marcas de fast fashion, só para dar alguns exemplos. 

E a dada altura, já a conversa ia pelos caminhos que os oradores conhecem tão bem, que são o excesso de responsabilização do consumidor e a tal impossibilidade falaciosa de combater os gigantes, quando alguém do público colocou uma questão relacionada, mais uma vez, com a responsabilização do consumidor. 

Faz parte do jargão da Moda em 2019 uma expressão que, de um modo geral diz que “para a tua camisola custar dois euros, alguém está a perder”, com o qual toda a gente concordou. 

A conversa terminou, eventualmente, de forma mais ou menos abrupta, porque os tempos têm de ser respeitados, e houve, como sempre, perguntas por responder e colocar. Depois da conversa surgiram mais mil conversas até que se fez silêncio e quando cheguei a casa comecei a pensar sobre isto da sustentabilidade e do impacto positivo, mais uma vez. 

Este é um tema que me atormenta desde tenra idade, o da ecologia, e sobre o qual comecei a educar-me com os meus dez ou onze anos, mas sem a angústia exacerbada da Greta. Este é um tema que quisemos tratar na primeira temporada do ARMÁRIO e que acabámos por tratar em dois episódios, organizados entre o caos e a luz. Ou as sombras e a luz. Ou o yin e o yang. Mas sim, entre o desespero e a esperança para o têxtil. E numa dessas entrevistas, Geert Van Der Keuken disse-me que era óbvio que o paradigma estava a mudar, porque as pessoas estavam a evoluir, a ganhar consciência, a querer ser melhores na forma como consomem, e que isso se começa a notar na massiva revisão dos padrões alimentares das populações. 

Não é novidade nenhuma que me interesso muito por alimentação e que sigo um regime flexitariano, sazonal e o mais local possível, e que o fiz desde sempre, porque fui educada nesse regime de consumo de produtos locais de origem sustentável/sustentada e sazonal, porque enfim, estando no campo, não se compram frutas e legumes em supermercados, etc… Acho que nunca comprei uma rede de laranjas na vida, e digo hoje isto com a consciência de que vivi/vivo uma vida de luxo. 

Posto isto, e porque desde que o meu interesse por cozinha se tornou público, primeiro numa fase inicial e softzinha, com o NHOM NHOM, e agora com as aparições em casa da Cristina, recebo muitas mensagens e comentários de pessoas que não consomem animais e seus derivados. 

São raras as pessoas que não consomem animais para fins alimentares que começaram o seu consumo de alimentos por seguir esse regime alimentar. Geralmente – e atenção que estou a generalizar completamente ciente de que cada caso é um caso, cada indivíduo é único e que é na diversidade que reside a riqueza – o que acontece é que, a determinada altura das nossas vidas, questionamos o porquê de consumir animais para nos alimentarmos. Eu já o fiz, já tentei ser vegan, depois percebi que não era possível e passei a tentar ser vegetariana, depois percebi que não conseguia e passei a comer muito menos carne, a aumentar o consumo de peixe e a fazer, várias vezes por semana, refeições completamente isentas de animais. Encontrei o meu equilíbrio lá pelos dezasseis anos, dezassete, motivada pelos sábios ensinamentos primeiro do punk, depois do hardcore. Mas cheguei lá. Depois vim para Lisboa e descobri mais culinária, fui para o mundo e descobri mais ainda e percebi que sim, nas cidades a coisa funciona de outra forma e que, para nos alimentarmos dentro dessa lógica luxuosa do campo, na cidade é preciso encontrar o nosso talho, a nossa peixaria e a nossa banca do mercado. É preciso encontrar o selo bio e mais uma série de denominações que trazem tanto conforto como um fato de treino de algodão orgânico feito a partir de fibras de algodão provenientes de fontes de agricultura sustentável, fair trade. A carne deve ser biológica, das vacas felizes e os ovos das galinhas que vivem ao ar livre. 

E estou a ser irónica porque aquilo que me flashou a meio das conversas da ModaLisboa, quando uma pessoa da plateia quis de alguma forma provar que é inevitável consumir fast fashion, porque é tentador e barato e exerce uma série de forças psicológicas da felicidade hipercapitalista, foi isto: é mais fácil criar empatia com as vacas do documentário das vacas do que com os trabalhadores das sweatshops que fazem as tais camisolas de dois euros.
O que me flashou foi perceber que, para que o ser humano consiga abdicar da lógica de hiperconsumo do turbocapitalismo, é preciso criar empatia.
Flashou-me juntar as peças todas e construir finalmente o puzzle que não estava a conseguir materializar: a sociedade é um lugar de hierarquia.
A lógica organizacional das sociedades humanas é hierárquica e tem de se manter assim para que os regimes económicos e políticos prevaleçam e se mantenha esta estrutura super século dezanove.
As redes sociais, em determinados contextos, vieram abanar as estruturas dessa ordem e só muito recentemente, em sectores como a Moda, se reconhece a importância dos novos players para o crescimento e criação de viabilidade para o sector, etc. Mas continua instituído um preconceito invisível que não reconhece aos influencers enquanto grupo, por exemplo, valor. Por causa, lá está, da tal noção de hierarquia social e laboral que se mantém e continuará a manter e veicular. 

De alguma forma, esta nossa era da imagem, do culto do self e da importância da aparência, é também a era da falta de empatia. O ser humano, que tanto teme o avanço tecnológico da inteligência artificial, não é capaz de ser empático para com os outros seres humanos. Crescem os crimes de ódio. Escala a violência de género. O bullying é uma realidade quotidiana nos espaços escolares. Faz-se troça de toda uma comunidade LGBTQI+. Apertam-se fronteiras. Cavam-se fossos cada vez mais profundos entre seres humanos. A ilusão da proximidade que as redes sociais oferecem ao indivíduo higieniza comportamentos. 

“Intimidade sem proximidade”, dizia-se no JÂNGAL, do Teatro Praga, em 2018. 

Quando aquela rapariga queria que lhe disséssemos como é que ela haveria de evitar a fast fashion, foi isto que me flashou: a falta de empatia. A falta de criar discurso empático para com o próximo. E porquê? Porque, tal como não é suficiente apenas separar o lixo, porque não é quando se atira o saco de plástico cheio de papéis para dentro do papelão que se resolvem os problemas, as coisas não se resolvem porque desaparecem da nossa vista. Assim em frases feitas muito famosas que já não sei quem disse, acho que foi a Kim Kardashian, ou assim, “nada se perde, tudo se transforma”.  

E a tal camisola de dois euros, quando depositada no contentor das roupas, não desaparece. 

O documentário das vacas fez aos padrões alimentares o que a Moda não está a conseguir fazer aos consumidores: criar empatia. 

Ver as vaquinhas a tremer e a espumar da boca é horrível. Saber o que se faz às vaquinhas para que produzam leite ou engordem depressa, às galinhas… que horror. “Nunca mais como carne de vaca”. 

Mas saber o que se faz às pessoas que produzem a tal camisola dos dois euros não faz mossa nenhuma. Não faz confusão. Porque Deus nos livre de abraçar uma pessoa que não conhecemos, toda suada, com as unhas sujas e as mãos calejadas.

Por isso estas palavras todas são sobre isto: o que falta à sustentabilidade é a abolição da lógica social de classe. O que falta à sustentabilidade é a criação de empatia entre o consumidor e toda a natureza do objecto que consome. É criar espaços de visibilidade na cadeia da criação do objecto, porque continua a haver mais preocupação para com a forma como se produz o algodão ou se tingem as fibras, do que para com quem é que fez as roupas. E em que condições. E não bastam os movimentos da Fashion Revolution. Não. Não é suficiente o #whomademyclothes . É essencial criar empatia. E também não são as acções de marketing que vão salvar as empresas. 

Costumo dizer que aplico os ensinamentos do punk àquilo que faço, porque é a verdade. Há um conjunto de ideias que o punk cristalizou, que é possível pôr em prática todos os dias. Também me sirvo de todas as doutrinas às quais fui sendo exposta (anos de catequese, por exemplo) e das quais retirei o que me interessava, para viver a vida da forma mais sustentável possível. 

Enquanto trabalhava no restaurante dos meus pais, na cozinha ou no atendimento ao público, enquanto faço a monda na quinta onde cresci, quando trabalhava em lojas em Barcelona ou dava explicações, fazia bolos e vendia, ou trabalhava à porta do Lux, senti muitas vezes essa prepotência sobre o facto de eu estar a ser, profissionalmente, uma pessoa que serve o próximo. E cada um escolhe, se puder, a forma como está a ser trabalhador; pela perspectiva turbocapitalista da coisa, tens de ser um bom trabalhador para fazeres o dinheiro que o teu patrão te vai pagar ao fim da jorna, pela perspectiva mediada pelo punk, embora possa não parecer, estás ali a combater o sistema, de forma subversiva, a mudar o que for possível, quando for possível. Estás a espalhar a tua boa nova. E nunca te podes esquecer, quando estás do outro lado, de não fazer aos outros aquilo que não gostas que te façam a ti. 

Por isso antes de comprar uma roupa ou de me vestir num styling, olho para as etiquetas, faço perguntas, sou chata como tudo, mas tento. Nem sempre consigo. Falho muitas vezes. Falho a toda a hora. Mas não sou a única responsável. O consumidor é a última paragem do comboio da Moda. Vai daí não pode ser o único responsável. Mas pode ser o único a criar empatia. Pode ser quem boicota, quem faz perguntas, quem faz as perguntas cujas respostas são O desconforto. Não é a culpabilizar o consumidor que vamos lá. É a criar empatia. É se nos considerarmos todos iguais. 

Como diria RuPaul, “we’re born naked and the rest is drag”.
Profissões que definem seres humanos? Não. É ao contrário. 

E é isto. 

Empatia. 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *