para a Maria

As melhores conversas do Universo Fémina que tenho são sempre ou quase sempre com a Maria Coutinho.
Maria, MIL OBRIGADAS POR TUDO, ESTE POST É PARA TI!
E esta semana é a Ovibeja.

Pronto, eu nasci em Beja e tenho um irmão mais velho.
Esse meu irmão tinha, naturalmente amigos.
O meu irmão era a pessoa mais fiche, era a pessoa mais da cena.
Eu não.
Nem nunca fui.

Adiante.

O meu irmão e eu temos uma enorme diferença, que é a música.
A música define.
E na altura definia muito mais.
Por isso, e porque como ele viveu e consumiu todo o house que havia para viver e consumir nos anos noventa, eu não tinha outra solução senão pedir que me gravassem cassetes.
Os meus peditórios de cassetes eram míticos.
Passavam pela vergonha mas muito ligeiramente.
Eram uma necessidade.
Eu precisava daquilo.
Eram feitos quando os amigos do meu irmão iam lá a casa, depois da escola, jogar Spectrum 48K ou fumar cigarros às escondidas na varanda do quarto do meu irmão (há um episódio muito lindo em que a minha Mãe apanhou o meu irmão a fumar um charuto na varanda, sentado, em pleno momento de descontracção).
Eles chegavam e eu ficava encantada: primeiro eram lindos, eram adolescentes do campo que não comiam comida processada, que andavam de mota, skate, jogavam à bola e mais não sei o quê, eram magros e altos, com bons dentes e boas mãos e bons cabelos. Eram mais ou menos rebeldes e davam-me imensa atenção. A atenção que o meu irmão não me dava porque era meu irmão. Para começar, eles adoravam-me, e eu adorava-os de volta.
Entre eles e os alunos da minha Mãe (o Tiago que me gravou uma cassete de MC Hammer que ouvi no meu rádio azul até a fita se partir e que passava horas comigo, por exemplo, era outro amor), tinha a certeza que tinha música maravilhosa sempre. Havia também o irmão da Marta, que era metaleiro e também arranjava boas coisas, mas era outro departamento, porque… claro… eu era amiga da irmã dele e isso significava que éramos duas meninas e isso para ele era super uncool. Não nos gravava cassetes. Era tudo na clandestinidade, e como eu sabia por discos a tocar, e lembro-me de ouvir um disco de Black Sabbath uma vez lá em casa deles, às escondidas com a Marta, que não gostava nada daquilo, enquanto lanchávamos salame. Fui pela capa. Era o Sabbath Bloody Sabbath, vim a saber anos mais tarde, através de um belo momento de reminiscência visual.

De todas estas pessoas, a minha preferida era o Skatro, que às oito da manhã já estava lá em casa, à espera do meu irmão, para irem para a escola juntos.
A minha Mãe acabava sempre por fazer o Skatro tomar o pequeno-almoço connosco.
Pensei mil vezes se algum dia nos iríamos casar.
O Skatro era um fã acérrimo de Guns e vestia-se como o Axl.
Usava calças Uniform e bandana com os ténis bota brancos possíveis (estou, neste momento, em 1991), T-shirts larguíssimas e camisa atada à cintura. A camisa de flanela, que era a peça-chave do conjunto, nunca falhava, pois em Portugal a flanela sempre foi de fácil acesso. O Skatro chegou às botas de cowboy pontiagudas, num compromisso entre o Slash e o Axl.
Ele sabia.
Além de que era loiro, de cabelo comprido, sorriso branquíssimo e lindo de morrer.
(Ou pelo menos é assim que o recordo sentado no muro da minha escola primária ao fim da tarde, com o walkman e sempre a ouvir Guns.)
Posteriormente o Skatro teve uma DT.

Ao Skatro pedia cassetes sem vergonha nenhuma.
E ele gravava.
Guns, Metallica (por exemplo, o meu incisivo esquerdo de leite caíu ao som da Unforgiven num fim de tarde enquanto olhava pela janela do corredor para a bouganvilla que trepava pela fachada da nossa casa acima e proporcionava a entrada de todo o tipo de lagartixas e osgas para o meu quarto), Offspring, Sepultura, Bad Religion, Cannibal Corpse, Body Count, Pennywise…
Mais tarde o Skatro deu-me uma cassete com Nirvana e depois uma com as Hole.
E ainda mais tarde ele achava que eu ia gostar e deu-me o Ixnay on the Hombre de Offspring.

O Skatro era um bad boy que ouvia a minha Mãe e tinha medo dela.
E ele tinha uma mota.
E eu era doida por ele.
Achava-o lindo.
E ele ficava tão bem na DT.
POÇA!…

A minha outra paixão não era musical.
Era estética e tinha o edge todo das motas.
Foi quando entrei para o 5º ano na Santiago Maior (desculpem muito, mas isto está tudo em vocabulário interno…).
Era o André.
O André era filho de uma amiga da minha Mãe e era do motocross.
Falo mais uma vez de um loiro, com mota.

Maria, os rapazes que sempre me tocaram o coração eram deste género wild boys, com motas e que ouviam música fiche e que tinham calças justas em tons claros (as Levis 501 muito lavadas e as Uniform brancas eram TOTAIS) e T-shirts largas que caíam sobre os seus corpos de mármore.
Praticavam desporto e falavam comigo porque eu era a irmã do André.

Os anos noventa foram bons.
Tinham os rapazes mais giros, mais descomplexados e mais simpáticos de sempre.
Ou pelo menos o princípio.
Ou então eu era mesmo uma grande bambi e eles eram super queridos comigo porque eu lhes pedia que me gravassem cassetes.
Não sei.
Só sei que às vezes me lembro disto e também sei que se nesse momento de mandar um email ou um sms vamos ficar as duas nostálgicas a pensar nisto.
Foste tu que me fizeste lembrar deste lifestyle que era tão bom…
As tardes longas e quentes do Alentejo onde quem tinha um skate e uma bicicleta orientava diversão para dez quarteirões de vizinhança e onde as Marias Rapazes eram só meninas que gostavam de andar de skate e bicicleta, que gostavam de atirar pedras e correr rua abaixo e rua acima, atiçar cães e atar cordéis nas patas dos gatos!…
E tudo isto era sempre sempre sempre feito com as roupas que hoje queríamos ter, com o estilo que hoje tentamos recriar, mas em vão.

Vou até tentar fazer uma pesquisa de imagens digna disto.


À falta de pesquisa de imagens, eu com 6 anos.

E agora que penso… Nem eu mudei (ainda ontem um amigo de infância me descreveu a um amigo do agora – “(…) a Joana era sempre… óculos grandes, um boné, magrinha lá com os livros ou no Spectrum ou a correr e cheia de feridas (…)”) nem os rapazes que acho giros mudaram. A essência está lá. E tu fazes-me fazer estes exercícios mentais! 
TOWNIES!

4 comentários a “para a Maria

  1. Bem, não vou fazer um comentario relacionado com o post, mas sim relativamente à ausência dos mesmos…. Tenho saudades! Preciso de artigos que me alimentei o espirito! Volta por favor. A verdade é que não sei o que é manter um blog e ainda por cima deste genero. Confesso que me parece trabalhoso e devo estar mal habituada mas a verdade é que preciso de ti…

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