Portugal, temos de falar ou #brokenheart

Ensinaram-me que, se não tenho nada bonito para dizer, o melhor é não dizer nada.
Não vou dizer nada.
Isto sou só eu a pensar alto.

À minha volta está tudo extremamente bizarro.
Calculo que à vossa volta também, porque vivemos todos relativamente perto.
E por muito que queira, sou fortemente influenciada pelo estado em que o país está, pelo estado em que os meus amigos estão, os meus pais, os meus vizinhos…
É demasiado evidente para enfiar a cabeça noutro sítio qualquer que não seja o sítio certo.
Consciência (- #putademerda).
É demasiado deprimente ler notícias, ir jantar fora ou fazer seja o que for…
Essas actividades que tanto amava tornaram-se uma espécie de via sacra.
O que vem nos jornais é mau demais para ser verdade e de resto está tudo vazio.
As pessoas estão vazias.
Não há nada.
Sinto-me permanentemente numa cena do Mad Max, só que sem o Mel Gibson e com menos roupa de cabedal.
Lisboa é um deserto.
Está um deserto.
Tornou-se um deserto.
Não serei a única a sentir isto.
Pelo menos os meus amigos de Facebook e os meus cerca de 120 Public Feed Subscribers funcionam como uma amostra de mais pessoal cheio de má onda para com a situação actual.

Gosto de assumir publicamente opiniões controversas sobre bainhas de calças, estampados e formas de vestir que considero piores que más, não gosto de entrar nos esquemas contestatários, de engrenar em movimentos pessimistas ou de derrotas, mas…

Desde dia 14 que tenho uma enorme dificuldade em escrever neste blogue.
Esse dia fez-me chorar como nada me fez chorar na vida.

Cheguei a casa depois de um dia atroz em que não consegui muito bem gerir a merda interior enquanto deveria ter estado feliz a passear com a minha Mãe e não estive.
Íamos às compras, um programa cada vez menos recorrente no seio do nosso duo dinâmico, e eu tive uma dificuldade monstra em ser proactiva a fazer escolhas e a dar conselhos.
Fui um nojo.
Estava perturbada.
(- Desculpa, Mãe, mas nesse dia estava A pior e não fui capaz de te dizer nada nem de ser a miúda bacana que conheces…)

Então, no dia 14, depois desse passeio, vinha a casa calçar uns ténis para ir para a frente da Assembleia ter com a minha Família.
Quando estava a sair, soube que havia um grupo de pessoas a atirar pedras à polícia de choque e que havia um ambiente de violência a apoderar-se daquele sítio.
Sentei-me no sofá de casaco de penas vestido, com as luzes apagadas, à espera de notícias.
Não tenho televisão.
O meu telemóvel acendia-se de 4 em 4 segundos.
Mensagens de tantos dos perdidos e achados lá pelo meio.
Depois soube que o caos se tinha instalado.
Carros a arder, gente a correr, sangue, suor e lágrimas.
E continuei sentada no sofá, imóvel, a chorar, de casaco vestido.
Não conseguia mexer-me.
Só por volta das três da manhã é que consegui ir dormir.
Não consegui falar com ninguém durante uns dois dias.
Pelo menos conversas de jeito.

Os meus amigos do peito estão todos com um pé cá e outro lá.
E é por todo o lado, menos em Portugal.

Há três anos, quando vivia em Paris e decidi voltar para Lisboa, achei que estava a fazer o que estava correcto.
Hoje penso que o correcto era não ter regressado, por mais clichético que isto possa parecer.
E não é porque não ame o meu país, é só porque o meu país não me ama a mim, e todos nós sabemos que em qualquer relação é precisa alguma reciprocidade.
Não se pode amar nada que não nos ama de volta.
É básico e é sempre esse o conselho que damos às amigas e amigos que vivem amores não correspondidos: dizemos para abandonar a cena, para cagar nisso, para lhe dar silent treatment, para ir conhecer não sei quantas pessoas novas, para cortar com isso.
(Agora que penso nisto… Começo a achar que tenho uma certa atracção por relações em que só eu é que dou e raramente recebo. Complexo com nome grego qualquer? Hm?!…)
Está toda a gente a acabar com Portugal.
A ir conhecer cenas novas.

Escrevo em português, penso em português, vivo em Portugal, trabalho em Portugal e sempre que vou a qualquer sítio, levo Portugal comigo e explico o que é isto.
Mesmo quando vivi fora, fui portuguesa.

A minha pátria é a língua portuguesa – B’nardo (- ou devo dizer Nandinho ?!? E agora faço aquele gesto de, com o punho fechado, bater aqui do lado esquerdo, onde costuma estar o coração e digo -) you rule!

Decidi que ia viver aqui e construir qualquer coisa neste sítio.
Decidi que ia fazer o que quero e o que me faz feliz, mas na minha língua.
E quase todos os dias, quando abro os olhos e me arrasto para fora da cama penso: em que momento?

Devo acabar com Portugal?

Aqui as pessoas têm medo de tudo; não investem, não se vestem, não colaboram umas com as outras, não cooperam, não arriscam, não querem estar rodeadas de gente genial.
Vive-se feliz no meio da mediocridade.
E por mim estão à vontade, mas permitam-me fugir disso.
Será o movimento geral dos que ficam encerrarem-se em si próprios?
Porque é que não se contrata gente nova e espontânea pelo prazer do novo?
Porque é que só eu e mais meia dúzia é que nos atiramos de cabeça para piscinas onde nem sabemos se há água?

Tenho o prazer de ter os amigos mais talentosos e inteligentes que alguém poderia desejar.
Tenho mesmo esse prazer, que é enorme.
Mas muitos estão de malas feitas e não pensam regressar.

Será que ainda ninguém percebeu que a eventual saída da crise passa pelo fomento da criação (já nem digo artística, porque pronto… Depois da Gala (tanto ao nível do apresentador como ao nível de quem escreveu aquele texto e das áreas circundantes da mesma) dos Fashion Awards já não tenho nenhuma espécie de esperança na minha profissão…) de novas dinâmicas e postos de trabalho e oportunidades e etc?
Será que ainda ninguém percebeu que o capital tem de circular para que a economia (?!?) não pare?
Será que ninguém (e este ninguém é para o pessoal que tem dinheiro e que não lê este blogue, claro, mas fica a esperança…) entendeu que quem tem dinheiro tem de investir e tem de arriscar?
Será que alguém sabe quem é o John Maynard Keynes?
Será que alguém leu, realmente, o Capital?
E o o Lukács? Ninguém sabe quem ele é?
Alguém leu o Palácio de Cristal do Sloterdjik?
Alguém ainda compra livros?

Já nem sequer estou indignada.
Só estou triste com a falta de vontade de pensar destas pessoas que todos os dias sentam o cu nas cadeiras onde ainda chove dinheiro.

Essa merda um dia acaba, também para vocês, Lindos:

Quando começamos a jogar Monopólio, podemos começar com seis jogadores; quando reduzimos o número de jogadores do Monopólio a dois, o jogo demora três ou quatro minutos a seleccionar apenas um jogador, que é o vencedor.
E quando se vence o Monopólio, o jogo acaba.
Ninguém fica sozinho a jogar Monopólio.
Ou fica?

Estou triste e vagamente fodida por não ter namorado.
Sem isso, nada me prende aqui a não ser coisas como o lançamento do Império do Alexandre Melo, André e. Teodósio e Vasco Araújo, pela Assírio e Alvim, ontem à tarde.
A não ser isso e o prazer que me dá lê-los e saber que estamos ligados e que os nossos abraços são sinceros, nada, absolutamente nada, me prende aqui.
Só a alegria de falar português e de comer bons alimentos, de estar próxima dos que amo de forma fraterna e de fazer qualquer coisinha a título muito próprio, muito de vez em quando.

E desde dia 14 que canto estes versos, género mantra:

“(…) ‘Cause every time I look in the mirror 
I just wanna scream 
How are we gonna make History  
If you’re not here with me
Keep on keepin’ on, gotta keep the dream alive
Keep on keepin’ on, gotta make it not just try
Keep on keepin’ on, gotta keep the dream alive
Keep on keepin’ on, gotta make it not just try(…)”

in Let’s Make History, The (International) Noise Conspiracy, Armed Love, Burning Heart Records, 2004.

É preciso muito menos para mandar uma relação à fava.
Por isso… O que é que me impede?
É porque o Portugal é o namorado mais alto que tive?
 Esta arte de qualidade duvidosa (como sempre) não seria possível sem o acesso que tenho ao acervo de fotos da MARAVILHOSA SUSANA POMBA, ao perfil pessoal do Dennis Lyxzèn, ao meu instagram, e à internet em geral: André e. Teodósio, Alexandre Melo e Vasco Araújo fotografados pela MARAVILHOSA SUSANA POMBA, o tabuleiro de um Monopoly, o Dennis sentado em casa ao lado do seu retrato do Karl Marx, o meu instagram, o logo do IMF, o Mel Gibson no Mad Max, o Lukács e a piscina da Joana Vasconcelos. E corações partidos porque Portugal mo tem partido.

 

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