Post Piroso

Uma das coisas que tem pautado a minha ausência deste blogue é o facto de achar vagamente imoral escrever sobre roupa, consumo, compras ou qualquer uma dessas coisas a esta altura do campeonato.

No entanto, e porque andei aí a preparar umas coisas que hão-de vir à luz do dia (como o post de ontem, por exemplo), pus-me a pensar sobre se devia dizer isto tudo que por aí vem ou não.
Devo.
Aliás, tenho de.

A primeira coisa que me perguntam quando me entrevistam (além do clássico básico Quem é a Joana Barrios?…) é sobre compras e ter O estilo ideal e ser óptima.
Não sei dar essas respostas.
Eventualmente, a minha resposta a essa pergunta é extensa e muito complexa, cheia de ramificações aplicadas a cada caso e depois o que fica gravado faz com que os jornalistas se percam e digam coisas que não disse e fique super irritada e jure que nunca mais deixo que me entrevistem.
E depois dizem sempre que as pessoas querem saber como é que podem decalcar um estilo ou uma imagem sem recursos.
Também é muito difícil.
Não se brinca à Dior. Ou se tem Dior, ou não.
E quem diz Dior, diz outra coisa qualquer.
Não acho que seja interessante copiar coisas.

Na verdade, odeio Moda.
Cheguei recentemente a essa conclusão de forma muito simples: a Moda escraviza, é passageira, é cada vez menos interessante, mais datada, mais absurda e massificada; é tudo aquilo que detesto em sociedade.
De tudo o que há de efémero, só amo performance (teatro, dança, concertos, dj sets, exposições, happenings…).
O carácter efémero da Moda irrita-me de sobremaneira.
Ninguém encara a roupa como lixo, mas eu só a consigo encarar assim, se pensar na palavra Moda.
Porque entre Moda e Moda há um abismo.
A Moda que se vê nos desfiles e revistas e produções é a cúpula.
A Moda que me perguntam como é que se faz é a do quotidiano.
E a roupa utilizada para recriar passerelles na vida real, lamento, mas é lixo. (Além de que a vida real não é uma passerelle e a Anna Dello Russo não é uma personagem da vida real, etc etc etc…)
É desperdício.
É poluição. Não só visual, como ambiental.
É poluição.
A roupa polui.
E muito.
E às portas de 2013, pensar na roupa como lixo é consequente.

 

Imaginemos um ritual básico, que muitas de vocês já praticaram, certamente:

É sexta-feira à noite. —> Vou sair.

Vi de manhã uma foto num Tumblr. — >Não tenho nada para vestir. —> IDEIA: Vou sair do trabalho e encontrar cinco minutos para ir à Zara ou à Bershka ou uma dessas quaisquer para comprar um reenactment do que vi no Tumblr para vestir.  —> É barato. Nove noventa. 95% poliéster, 3% elastano, 2% algodão. —> COMPRO para usar hoje à noite. —> Dispo quando chego a casa. —> Nunca mais uso.

O mês tem em média quatro fins de semana e muitas noites para sair em que este ritual precisa de ser cumprido.

A quantidade de lixo que uma Mulher destas produz, só em roupa que não volta a usar, é absurda.

Quantas T-shirts/blusas/camisolas têm que usaram uma vez?
E saias?
E vestidos?
Gostam deles?
Voltavam a usar?
Já alguma vez fizeram contas a quanto dinheiro é que gastaram?
É alarmante.

Nunca comprei roupa para sair um dia.
Nem para uma ocasião.
Porque penso sempre no futuro dessa peça, e se vir que não volto a usar… Está resolvido: não compro.

Aliás, nunca gostei do carácter efémero da Moda que toda a gente quer tanto.
Uma das coisas que mais me perturba no fenómeno do Fashion Blogging é precisamente ver a quantidade de roupa horrorosa e de fraquíssima qualidade (=POLUENTE) que as Fashion Bloggers (figuras mitológicas de um Olimpo muito limitado) usam e fazem questão de mostrar.
Essa mostra serve para revelar a atenção que têm às tendências e o tempo que perdem (ou ganham) nesse trabalho.
Daí que o único motivo que me leva a crer que não sou Fashion Blogger é a natureza das minhas compras e os meus fraquíssimos hábitos de consumo massificado.
Quem vir os meus bookmarks sabe que não tenho nenhum separador com lojas online, por exemplo…

PAUSA

Comecei a escrever um post sobre comprar coisas portuguesas para oferecer no Natal.
Depois caguei nesse post, porque estava a rechear um perú.
Na verdade compro quase sempre coisas portuguesas durante todo o ano.
Caso não sejam portuguesas, adquiro-as no comércio local, ou aquilo a que sempre chamei o BOM MARCHÉ.
E isto veio a propósito – este pensamento – de ter reparado que a última vez que comprei uma coisa na Zara foi há mais de seis meses, quando descobri quanto é que pagam por um part-time.
Fiquei muito triste.
Muito triste porque até simpatizava com a figura do Sr. Ortega.
Só que… A minha concepção de economia não me permite aceitar que o maior grupo de Moda do mundo pague assim aos seus trabalhadores.
Não consigo.
Lamento.
Mas não acredito num patronato obsoleto.

Sou uma consumidora consciente e muito criteriosa.
Mas assumo-me como consumidora.
Gosto de consumir.
Porém sou criteriosa em tudo o que faço na vida.
Vou pela paixão, mais do que pelo dinheiro ou notoriedade.
Se fosse pelo dinheiro, não estava aqui a escrever, por exemplo, e já tinha aderido a uma série de patrocínios bacocos de roupa na qual nem me atrevia a tocar, com medo de ficar com aquelas infecções que descrevem nos mitos urbanos sobre tecidos sintéticos.
Compro essencialmente coisas portuguesas e em lojas que não são franchisings.
Opto por materiais naturais, por roupa em segunda mão, ou roupa que respeite o ambiente.
Escolho qualidade em vez de quantidade.
Compro tachos portugueses, sweatshirts portuguesas, calçado português, não vou ao Pingo Doce, compro legumes biológicos e carne certificada em Portugal, etc etc etc.
A minha forma de estar na Moda é isto.
Não tenho roupas para isto ou aquilo, não compro coisas supérfulas pela sua beleza, sei o que é que gosto de usar, o que é que gosto de ter e aquilo que não me faz falta.
O melhor exemplo é quando compro sapatos: vejo uns de salto alto lindos e uns rasos. Posso comprar os dois. Mas os rasos vou usar, os de salto não. Ok, deixo os de salto.

Sou muito criticada nas minhas compras porque compro caro.
É verdade.
Mas a minha peça cara são as cinco baratas dos outros.
A minha peça cara é o investimento das cinco saídas à noite (entre as camisolas e as bebidas, por exemplo…).
Prefiro o caro só porque é caro?
Não.
Prefiro qualidade, engenho, mestria na confecção, o corte, os pormenores, os detalhes…
Gosto muito mais da sensação de ter uma peça única à sensação de utilizar uma peça com um fim imediato.
Gosto da ideia da permanência da roupa.
Gosto de pegar nos meus sapatos de três dígitos depois do três e de pensar o que é que já vivi com eles.
E adoro olhar para retratos de infância e ver que me visto exactamente da mesma forma de quando tinha 3 ou 4 anos.
E que há coisas que ainda tenho e uso.
E também adoro que as minhas amigas nunca queiram nada do meu armário para festas, porque só tenho T-shirts largas, sweatshirts, casacos e skinny jeans.
E sapatos – que jamais emprestaria.

Por isso quando leio coisas de Fashion Bloggers duvido sempre.
E duvido dos conselhos resultantes das suas sapiências.
Há fórmulas resultonas. São individuais.
Não há fórmulas que agradem a grupos ditados por tipologias físicas que pareçam frutas, vulgo pêra, maçã, melancia, tremoço ou no meu caso, espinafre (obrigada Pai!).
E detesto as alterações a pessoas em que tudo é imagético e nunca conceptual.
Fico doente.
Não se veste uma Senhora que se levanta às cinco da manhã para trabalhar no duro com um tailleur; não se pinta o cabelo com madeixas caras a quem ganha o ordenado mínimo, muito menos se faz um corte de manutenção dispendiosa.
E isto é bom senso.
Odeio a ignorância das pessoas que respondem a inputs Fashion.
Não suporto mesmo.
É das únicas coisas que me tiram do sério.

Por isso, a minha resposta àquela coisa do Estilo, da Moda, ou do raio que o parta, é sempre muito combativa, porque odeio a escravidão intrínseca.
Tantos séculos a pedir cartas de alforria, era o que me faltava agora entregar-me a um Senhor.
Não!

Por isso, e porque o proteccionismo económico é a única coisa que nos resta como arma de arremesso, pensem antes de comprar, por exemplo, agora nos saldos…!
A sério.
Já que quem senta o cu nas cadeiras da Assembleia é muito burro e não entende que está a destruir o País, vocês, gentes ávidas de efemeridade, pensem antes de comprar a uma Zara ou outro qualquer.
Pensem que em Portugal é que se fabrica tudo o que vai para fora, pensem que se nos saldos fica tudo uma pechincha, é porque os preços de custo dos produtos são sinónimo de más condições de trabalho, pensem que comprar português estimula a nossa triste e deficiente economia…
Pensem que comprar a crédito faz o barato sair caro e que os bancos é que fodem esta merda toda…
Sei lá…
Comprem um anarchist cookbook, aprendam como é que funcionam os mercados…
Não sei…
Tornem-se conscientes.
Mas entendam que não há estilo sem consciência, não há classe sem sabedoria e não há Moda sem criatividade.

Tudo isto para vos dizer que não sei nada de Moda.

2 comentários a “Post Piroso

  1. Bom dia! Este foi dos posts mais reveladores e conscientes que já li em toda a blogosfera. Com isto quero dizer que fiquei extremamente inspirada a fazer o mesmo. Que marcas portuguesas costuma comprar e onde?

    1. Inês, perdão pela resposta tardia!… Ricardo Preto, Meam by Ricardo Preto. Há no Príncipe Real, aqui em Lisboa, uma série de lojas só com roupa portuguesa. Lojas incríveis. Mas em caso de dúvida, olhar para a etiqueta!

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